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Fotografia: Tomás Oliveira
Publicado a: 24/09/2022

De Harlem's finest a Jamaica's finest.

Iminente’22 – Dia 2: nenhum ser humano é uma ilha e ninguém está acima da música que toca

Fotografia: Tomás Oliveira
Publicado a: 24/09/2022

Companheiro de estrada de Tristany, Ariyouok viu os seus talentos performativos serem reconhecidos ao integrar, pela primeira vez, o alinhamento de um grande festival português, escalado para um palco generoso que, mesmo sendo secundário, é daqueles que mais afluência tem registado ao longo destes dias. Às 18h45, ainda eram poucas as pessoas que se encontravam a passear pelo recinto, mas muitas delas resolveram subir ao Palco Choque, chamadas pelo batuque do multi-instrumentista, que parecia estar a jogar em casa. À sua frente tinha um número considerável de amigos e admiradores, enquanto os curiosos iam preenchendo o resto da moldura.

Entre ritmos tradicionais portugueses e cabo-verdianos, o músico apresentou-se com dois djembes no colo e a habitual loop station, na qual montou os seus temas, camada sobre camada, mesmo ali à nossa frente, recorrendo vezes sem conta a técnicas de beatbox e ao processamento da sua voz para complementar a música. Camboja Selecta esteve atrás de Ariyouok a abençoar os vários temas com scratch e alguns disparos de samples. Célio e Suzana, guitarrista e violinista, respectivamente, que também coabitam na banda de Tristany, foram os “irmãos cósmicos” que ajudaram o jovem artista já na recta final do concerto. Antes de se despedir, emocionado ao sentir todo aquele calor humano que ele próprio espoletou, Ari edificou um beat de hip hop que lhe serviu de base para uma prestação muito interessante enquanto MC.

– Gonçalo Oliveira



“Eu não sei dançar” é uma ressalva que Carla Prata não se cansa de fazer. Deste lado contrapomos, também incansavelmente, que a falta de jeito de pés é compensada pela qualidade da voz. Daí que não se entenda o apoio notório e continuado da artista nas suas próprias backs durante a terceira actuação do Palco Gasómetro no segundo dia de festival. Ainda para mais num concerto em que a cantora ( nascida em Londres) traz banda consigo — teclista, baterista e guitarrista que, por sinal, é incentivado por meia dúzia de fãs/amigos nas primeiras filas, que gritam por “Kiko” alto e bom som. Até porque, ademais, quando a voz da artista fura a música de fundo, sobressai o tom cristalino que, em muitos outros casos homólogos, só se verifica em estúdio. Mas esse é um factor que parece não fazer diferença para o público que veio para ver Carla — e que, até agora, leva o prémio de melhor primeira fila do festival. É às mulheres que as cantigas de sedução de Carla Prata se dirigem, e são, também, as mulheres que mais vibram com essas canções. Não há, aliás, melhor termo para caracterizar a sua música. No nosso tempo, pelos vistos, continua a haver uma coisa muito bonita que é a sedução. E nem a entrada de SleepyThePrince em cena destoa desta frequência. Bem pelo contrário. E, surpreendentemente, a voz do homem do capacete — que em palco se apresenta de óculos escuros e balaclava — soa muito mais límpida do que, por exemplo, no recentemente editado MELANCHOLIC DREAMS 3, cujo vídeo do single “ESTRELA DE ROCK” é reproduzido em pano de fundoA anfitriã avisa o público para não esquecer este nome que tem “muito talento”. Registado. Mas, na hora de “Owner”, a plateia esquece tudo o que ficou para trás e atinge um estado delirante inédito. “Step in looking like the owner”, ouve-se da Matinha ao Tejo. Banda sonora do irresistível género Carla Prata and Chill.

– Paulo Pena



Parece que está noutro plano que não o nosso. A calma e o transe que a música de Lex Amor nos provoca não é, afinal, mais do que um reflexo da criativa do norte de Londres, ela que é uma das cartas fora do baralho daquele que é o estado actual do hip hop do Reino Unido. Apenas com um álbum editado, Government Tropicana (2020), a MC e produtora inglesa tem conquistado adeptos com as suas rimas introspectivas e as batidas recheadas de groove, que juntos formam um conjunto de ondas sonoras irresistível ao ouvido humano.

Ensinamento atrás de ensinamento, Amor mostrou confiança do início ao fim do espectáculo que a juntou ao DJ/produtor Rei Sky, perfazendo o formato mais clássico de sempre da cultura hip hop, como a própria fez questão de frisar, deixando bem claro qual é a escola que representa. Entre temas, foi sempre comunicativa com a sua plateia e fez questão de admitir o quanto gosta da nossa capital. E segundo pudemos apurar, parece que vai mesmo aproveitar a viagem para se deixar inspirar por Lisboa durante mais alguns dias.

– Gonçalo Oliveira



Mais do que um concerto, Sister Nancy e DJ Gravy vendem-nos a ideia de que esta é uma experiência única, capaz de nos levar até ao coração da Jamaica. Sem aditivos. “Autêntica”, como diria mesmo o DJ de Brooklyn, que entrou no Palco Gasómetro uns minutos antes da cantora para se certificar que esta ia ser recebida com o calor e o carinho que merece. Afinal de contas, “Muma Nancy” é uma lenda viva do dancehall e uma das primeiras mulheres a conseguir vingar num meio dominado por homens.

Clássicos de Dawn Penn, Sean Paul ou Barrington Levy deram o mote para esta viagem, com a artista principal a entrar pouco depois. “Já cá ando desde 1962” ou “se estão aqui a ver-me, estão a ver a original” foram alguns dos selos de exclusividade aplicados Nancy durante uma actuação em que ficou bem explícito o talento desta sexagenária, que procurou sempre esticar a voz enquanto fazia pequenas danças pelo palco sem nunca perder o fôlego.

Já a chegar ao fim do alinhamento, o par quis pregar-nos um susto. “Bam Bam”, o seu eterno clássico de 1982, foi a última faixa de Sister Nancy que ouvimos ecoar naquelas colunas e a multidão vibrou mal a batida entrou. A sua autora, no entanto, requer algum mimo para a interpretar em palco. Ao aperceber-se na reacção que o tema provocou, fingiu dar-nos uma desfeita, acenando “adeus” em várias direcções e deixando Gravy sozinho em cena com o instrumental ainda a tocar. Depois do barulho que tanto nos exigiu para dar o concerto como terminado, Ophlin Russell lá nos fez a vontade de cantar “Bam Bam” do início ao fim. Antes da despedida “a sério”, a jamaicana deixou algumas palavras sábias: “Nenhum homem é uma ilha e nenhum homem pode ser deixado sozinho”.

– Gonçalo Oliveira



Justiça lhe seja feita. E desenganados se viram cedo aqueles que esperavam uma actuação desinteressada de Smoke DZA no Palco Fábrica. O aquecimento prolongado (com boa quota dedicada a Notorious B.I.G. e Jay-Z) até podia augurar uma passagem em piloto automático do rapper de Harlem, especialmente reconhecido por trabalhos com Pete Rock, Benny The Butcher ou Curren$y. Mas durante esse prelúdio já DZA repetia rituais de iniciação, de toalha na cabeça e microfone na mão, desde logo pronto a subir. Entra decidido e dirige-se em apresentações a uma plateia, apesar de tudo, reduzida perante um nome de peso no rap nova-iorquino. É a sua estreia em Portugal, e a primeira vez que sobrevoa o Atlântico na era pós-pandemia. Veio sem DJ (foi Dosk quem por cá fica assumiu os pratos), sem hypeman, e com uma comitiva reduzida. Teve até de renovar o passaporte para pisar solo português, garante o próprio, surpreendentemente interactivo. Mas veio com tudo. Traz repertório variado, sabido e oleado de uma ponta à outra. Quase quarentão, tem mais sangue na guelra que muitos dos seus pares com metade da sua idade. É muito mais expressivo em palco do que em estúdio, o que dá uma nova dimensão aos temas que, até então, rodavam apenas nos nossos auscultadores. Mostra um respeito pelo público que, salvas raras excepções, só se vê nos MCs que carregam o peso dessa sigla desde a sua génese. E, melhor, sabe que é um performer de mão-cheia; faz mesmo questão de o assinalar na recta final do concerto. À volta de quarenta minutos a debitar versos, com ou sem beats por trás, sem qualquer espécie de apoio vocal ou correcções na voz, sem perder o pulso à plateia nem por um único momento. Um rapper que faça menos que isto pode considerar-se sequer rapper? Fica ao critério de cada juiz. Mas justiça lhe seja feita novamente: a barra de Smoke DZA está elevada até para os seus pares mais próximos.

– Paulo Pena



Repete-se a garantia do “amigo do amigo” que veio ao segundo dia do Festival Iminente de propósito para ver os IAM. O impacto do rap francês em Portugal é, por estes dias, residual; mas há uma geração — seguramente, aquela que acompanhou a formação de grupos como os Dealema ou os Mind Da Gap — que cresceu a dar particular atenção ao movimento hip hop em França. E, nesse campo, os IAM são pedra basilar. Tidos pelos Wu-Tang Clan de Marselha, a verdade é que o primeiro álbum deste colectivo que, no Palco Gasómetro, se faz representar por quatro elementos data de 1991, dois anos antes da estreia discográfica dos nova-iorquinos com o clássico dos clássicos Enter The Wu-Tang (36 Chambers). Ainda assim, a energia que os marselheses transmitem vem da mesma frequência. O quarteto apresenta-se equidistantemente alinhado, coordenado ao pormenor entre coreografias estilo boys band e repartição de versos, muitos deles escritos há décadas. Não deixa de ser trágicocómico que o ponto alto da actuação de um grupo com tanta rodagem ao longo da história do hip hop seja o momento em que os quatro rappers encarnam as personagens de jedis e saquem, cada um, de light sabers vermelhos para esgrimir no ar. Por outro lado, a performance que trazem à capital portuguesa, além de imaculada, tem ingredientes de sobra para agradar todos os tipos de público. São divertidos e carismáticos, mas não descuram o exercício do rap. E, desde os fãs mais entusiasmados aos espectadores menos receptivos, a verdade é que não há cabeça que não se renda ao som destes para sempre jovens IAM.

– Paulo Pena



De dentadura dourada, equipado de Stussy da cabeça aos pés e com aquele seu sorriso (meio sádico), Goldie estava impaciente quando o relógio bateu as 00h45 sem que ainda existisse luz verde para que pudesse arrancar com o seu set. No Palco Choque, havia uma multidão a compactar-se cada vez mais para poder ver a lenda do drum & bass o mais perto possível. Para se distrair do atraso de que a sua actuação estava a ser alvo, o artista foi distribuindo cumprimentos e abraços com aqueles que estavam melhor posicionados para o ver, enquanto que Medic MC, seu parceiro para esta noite, se ia queixando da banda de Securitas que não estava a querer parar o som do Gasómetro, ali mesmo ao lado. A promessa do “está quase” acabou por fazer Goldie esgotar a paciência, até porque tinha à sua frente uma legião de soldados prontos a marchar ao som da carismática batida made in UK.

Nos primeiros minutos, o som do DJ e produtor ainda se cruzou com o dos IAM e fez-se festa a dobrar quando os franceses decidiram, finalmente, arredar do palco principal. Ao longo de mais de uma hora, percorreu-se boa parte da história do drum & bass, indo dos breaks mais clássicos às batidas mais modernas, já esculpidas com tarolas e bombos mais digitalizados. Medic MC teve a tarefa de ir soltando barras à medida que a música progredia e, apesar de ser extremamente polivalente nos flows, pecou, talvez, pelo excesso de intervenções. Principalmente aquelas que mandavam a música a baixo: sempre que entrava uma faixa mais nociva, Goldie fazia rewind e Medic pedia barulho para que a festa pudesse continuar, como aconteceu com “Inner City Life”, o seu maior êxito, que se fez ouvir através de uma remistura bem mais modernizada.

Este foi um daqueles momentos que podia, sem qualquer problema, esticar-se madrugada fora. Infelizmente, foi por volta das duas da manhã que o volume começou a baixar e a dupla começou a ser avisada pela organização de que tinham de terminar o espectáculo. Apesar do peso do nome que carrega, Goldie deixou no ar esta ideia de que o drum & bass é uma força da natureza impossível de domesticar e que “não há DJs que estejam acima da música que tocam”. Antes de tudo se desligar, ao som de “Circles”, uma invasão de palco foi a cereja no topo da actuação, cujo ambiente festivo foi “um dos melhores” que Goldie teve a oportunidade de experienciar no pós-pandemia.

– Gonçalo Oliveira


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