Iminente’19 – Dia 2: a benção de São Common

[TEXTO] Gonçalo Oliveira e Vasco Completo [FOTOS] Nash Does Work e Vera Marmelo/ Iminente 

Basta a chuva ameaçar que o trânsito em Lisboa facilmente vira um caos. O tempo perdido na estrada — primeiro para chegar ao Cais do Sodré e depois para apanhar o shuttle que nos leva até à entrada do Iminente — fez-nos perder o concerto de Praso na Cave, ele que, segundo pudemos constatar mais tarde em fotos e stories no Instagram, se fez acompanhar em palco de uma boa parte dos convidados que o ajudaram a esculpir L.E.V., o seu mais recente álbum a solo.

Ao chegarmos ao recinto já se ouvia “Jazigo” em alto e bom som, naqueles que eram os primeiros minutos em palco de Pedro Mafama. Talvez também pelo tempo que se fazia sentir na capital, muitas das pessoas que compraram o bilhete para o segundo dia do festival optaram por dar entrada mais tarde e isso reflectiu-se na plateia, que estava longe de estar bem composta e, embora atenta à música e não ao redor, pouco reactiva aos movimentos do cantor e produtor lisboeta, que nunca atirou a toalha ao chão e tentou sempre puxar pelos presentes. A actuação girou em torno de Má Fama e Tanto Sal, os seus dois primeiros EPs, mas não deixou de lado “Lacrau” e “Arder Contigo”, as últimas duas faixas editadas avulso, bem como uma canção inédita, descrita pelo seu autor como uma “kizomba malcriada”.

Na Cave, em simultâneo, estava David Bruno e à hora a que lá chegámos o concerto ia a meio, na recta final de uma “primeira parte” inteiramente dedicada a’O Último Tango em Mafamude. Carismático e auto-intiulado populista, o MC e produtor de Gaia teve mais sucesso na tarefa de “agarrar” o público, contando com a ajuda de uma mítica Roland SP-404 e também de Marco Duarte, o guitarrista que o tem acompanhado e ajudado na composição dos últimos trabalhos e que em palco apresenta uma energia inesgotável na guitarra. Ainda fomos a tempo de escutar uma das músicas que ficou de fora do alinhamento d’O Último Tango em Mafamude. David Bruno garantiu que “Lamborghini na Roulote” nunca irá ser gravada, muito menos editada nas plataformas digitais. “Nem que me paguem 1 milhão de euros!”, ousou em admitir. Não demorou muito até o espectáculo entrasse na sua derradeira fase, em que o destaque foi para Miramar Confidencial, o disco que tinha acabado de editar naquela manhã.

Às 20h30 subia ao mesmo palco DJ Joe Fatal ao som de “Planet Rock”, tema que antecipou um “aquecimento” por parte de Raw Wattage ao microfone, rapper protegido de Large Professor, o primeiro grande nome internacional da noite de ontem. O veterano MC de Nova Iorque, que fez parte dos Main Source, teletransportou a Cave do Panorâmico de Monsanto para o coração de Queens, que naquele momento estava praticamente lotada para ver a lenda em acção. Irrepreensível na entrega e na execução das suas letras, o homem que apresentou Nasir Jones ao universo hip hop fez-nos vibrar e levantar o braço para acompanhar o groove das batidas, ao som de temas extraídos de alguns dos seus álbuns a solo como Main Source ou The LP. Mais para o final, DJ Joe Fatal e Raw Wattage juntaram-se ao “professor” na linha da frente do palco para uma faixa a três vozes, naquele que foi um dos momentos mais altos da sua passagem por Lisboa.

Mas o capítulo principal da história de ontem estava ainda por escrever, quando no Palco Outdoor se começava a ensaiar as primeiras notas por uma banda composta por teclas, baixo, bateria, DJ e uma voz feminina. E foi então que Common entrou em cena munido de versos em regime de “estilo livre”, antes de se apresentar a Lisboa pela primeira vez nas suas quase três décadas de carreira. Três semanas depois de ter editado Let Love, a sua vinda a Lisboa foi ainda mais especial por não ter o novo disco enquanto principal foco, dando aos 5000 portugueses que conseguiram agarrar um bilhete a oportunidade de ouvir ao vivo pela primeira vez clássicos como “The Food”, “I Used To Love H.E.R.”, “The Light” ou “Go!”. O mais recente LP do rapper de Chicago surgiu representado através de “Hercules”, “HER Love” e “Show Me That You Love”. Por entre as canções, Common foi explicando um pouco o trajecto que percorreu até chegar onde chegou, partilhando até com os presentes algumas das estrofes da sua “primeira letra de rap de sempre, aos 12 anos de idade”. E se a memória já não deu para decorar a letra toda, o autor de discos como Be, Like Water For Chocolate ou One Day It’ll All Make Sense brindou-nos com uns valentes cinco minutos de improviso, depois de ter feito subir ao palco Telma — mais conhecida no circuito hip hop enquanto T-Von — que lhe tinha captado a atenção no meio do público pela t-shirt com um pertinente “Lyrics Matter” estampado. Catarina era o nome de outra fã cujos movimentos de locking despertaram Common para um desafio, chamando-a ao palco para uma disputa saudável — e sim, Common got them moves too!



Noutro local do festival, um warm-up plantava sementes do r&b e do hip-hop dos anos 2000 e via à sua frente uma audiência em gradual crescimento, um concerto aparentemente esperado, excedendo as expectativas do que se esperaria ser o público da Cave do Iminente àquela hora — o cabeça de cartaz norte-americano não tirou a atenção ao guitarrista.

O início fez-se em força com uma calorosa recepção e uma guitarra portuguesa como protagonista em cima de uma batida de tarraxo. Mike11 apresentou e representou uma junção de sonoridades e culturas num só lugar, e isso também explica bem o interesse e falatório de que tem sido alvo. 

A guitarra foi, a certa altura, colocada de lado: o artista desenrolou o cabo da estante e, em direcção à membrana do microfone, atirou-se a um orelhudo refrão, que nos empurrou para o trap latino. Este groove, que tem ocupado os ouvidos pelo mundo fora, na sua música e a clara intenção pela internacionalização – tanto pelo tipo de instrumentais que produz como pela escolha do inglês e do espanhol para as suas letras – são os ingredientes-chave para o que Micael Gomes projecta para a sua própria carreira. E o final aconteceu com uma dedicatória à cidade que o criou e que alberga também este festival: “Lisboa”.

Além de tocar guitarra como um virtuoso, de cantar os refrões dos seus temas, o jovem músico passou algum do tempo a fazer de seu próprio hype man. É natural o entusiasmo e vontade de aproveitar o momento do concerto, mas é mais importante proporcionar um bom espectáculo. Mike11 tem tudo para singrar e a experiência ajudará a limar as arestas, certamente.

De volta ao Palco Outdoor, “Afeto” abriu o concerto da cantora cabo-verdiana Mayra Andrade. Acompanhada por uma banda composta por guitarrista, baterista, teclista e baixista (também com sampler) –, os seus instrumentais soam incrivelmente bem ao vivo, não perdendo qualquer qualidade na transposição para o palco. Não é surpreendente, dada a experiência de Mayra, que já lança música há mais de 10 anos. Os ritmos sincopados na produção híbrida que tem caracterizado a sua discografia mais recente fazem de cama à sedosa voz da cantora. Haverá melhor banda sonora para uma noite de chuva em Setembro no Monsanto? O seu concerto, além de ser um dos mais concorridos da noite, é também ele muito dançado. 

No alinhamento surgiu, talvez mais cedo do que se esperava, uma versão com infusões de reggae da sua “Tan Kalakatan”, muito ouvida e celebrada recentemente pela sua aparição no A Colors Show. O auto-tune só com teclado e guitarra foi, sem dúvida, dos momentos mais apreciáveis do concerto, se não da noite: o pedido ao momento participativo das palmas mais exigentes vê o feedback esperado; a bateria faz crescer a dinâmica até à catarse explosiva; a mestria com a sua voz e com a criação melódica aliada ao auto-tune são dignos de menção. Enorme.

Para uma audiência inicialmente mais modesta, mas um sistema de som puxado até aos limites, Rizan Said trabalha com samples e sintetizadores, de batida em batida, entre o techno e a estética timbrica do Médio Oriente. Apesar de gradualmente ir ganhando mais e mais público (lá está, o problema de existirem vários concertos em simultâneo), o produtor foi recebido com um entusiasmo ímpar.

Nos teclados, Said é um virtuoso e dança freneticamente nos sintetizadores como a audiência o faz na Cave. Tem uma vasta discografia, a produzir para outros artistas e bandas sonoras no seu país de origem, a Síria. Trabalhou também com Omar Souleyman, o emblemático artista que esteve presente na edição deste mesmo festival no ano anterior. Elevou a patamares internacionais o género dabke, com ritmos típicos do Médio Oriente. Coisas que fazem sentido? David Bruno a gostar e a dançar Rizan Said.

O set de Shaka Lion, que encerrou a programação do segundo dia do Iminente, elevou-se a um novo patamar (daí o “Special Act” frisado no cartaz), acompanhado de dois percussionistas, uma bailarina e até um guitarrista, que se exibiu num incrível solo por cima das músicas e edits que o DJ passava. Entre a bass music sincopada, o hip hop e as batidas de funk brasileiro, os sets de Shaka nunca deixam de ser dançados até à exaustão. E foi o que aconteceu…


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