Iminente, Dia 3: uma mistura de sabores

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [VÍDEO] Luis Almeida [FOTO] Direitos Reservados/Iminente

Está oficialmente terminada a época de festivais de Verão em Portugal. Nada como fechar o ciclo no festival Iminente, que este ano fez uso do mítico Panorâmico de Monsanto, um local com história para aqueles que se arriscam a descobrir os lugares mais bonitos e obscuros de uma capital com tanto para oferecer e que já quase não dorme.

“Lisboa sempre esteve na moda, mesmo antes de os estrangeiros virem para cá”, dizia Sara Tavares no arranque do seu concerto — e nós concordámos. O cardápio cultural que encontramos no coração da cidade e seus arredores é, sem dúvida, uma das mais ricas da Europa. E há espaço para todos os géneros — do mais mainstream ao mais independente, do mais clássico ao mais contemporâneo.

O festival que Vhils preparou pelo terceiro ano consecutivo demonstra essa mesma pluralidade de paladares em constante mutação.

Movimentos culturais e qualquer espécie de tribos urbanas — dos mais enraizados e padronizados às novas modas e tendências — reinventam-se a toda a hora graças a uma nova fornada de adolescentes e jovens adultos que, com os recursos que lhes são dados, partem à descoberta de novos trilhos. Analisando pelo lado conceptual da obra de Alexandre Farto, trata-se de “destruir” para depois “construir”. Lisboa é isto. A arte urbana é isto. Reciclar e reutilizar. Baralhar e voltar a dar. É por isso que a escolha do Panorâmico de Monsanto não poderia ser a mais indicada para montar um novo Iminente. Somando toda esta arte efervescente aos já mencionados pormenores de produção, Vhils está de parabéns por estar a criar uma “controvérsia” bastante saudável dentro do mercado dos espectáculos ao vivo. Venham mais. Muitas mais edições dentro de semelhantes moldes, daquele que é bem capaz de ser o melhor festival que Lisboa reserva aos seus visitantes.

 



A chegar ao recinto do Iminente neste último dia de degustação artística já ouvimos Carlão em palco, ansioso por poder ir espreitar como está a jogar o “seu” Benfica. “Alguém sabe o resultado?”, pergunta à plateia, que lhe responde com sorrisos, sabendo dessa paixão futebolística do veterano na casa dos Quarenta. Paixão essa que, mesmo assim, não chega para o retirar da frente daqueles que o têm ajudado a cimentar a sua carreira — o público. Carlão aproveitou a oportunidade para tocar vários dos temas do seu novo álbum, juntamente com alguns colegas “de várias batalhas” — do mais antigo parceiro DJ Glue ao seu novo braço direito no microfone Bruno Ribeiro. Antes de se retirar para os camarins, a versão remisturada pelos Buraka Som Sistema de “Dialectos De Ternura” dava-nos um nostálgico sabor a “doninha”.

No seguinte bloco de programação, tentámos dividir-nos para ver “jogar” duas mulheres de diferentes gerações, cada uma com uma estética musical bastante singular. Sequin tomava conta da Cave para uma sessão de terapia pop electrónica, que começou hipnotizante ao som de baladas como “Queen” e terminou num transe dançável como pudemos confirmar com as vibrações pulsantes de “Borderline” — Born Backwards, o seu segundo disco, era de onde provinha quase toda a matéria estudada para o concerto. Já Sara Tavares, do outro lado do recinto do Iminente, tirava proveito do estatuto de diva da música portuguesa e apresentava um repertório mais vasto, no qual clássicos como “Balancê” contrastavam com “Coisas Bunitas” ou “Brincar de Casamento”, temas do álbum de “regresso” Fitxadu.

Não nos querendo afastar desse quente registo com sabor a África, a decisão sobre que concerto assistir para dar por terminada a nossa missão no Iminente foi fácil. O “supersónico” João Gomes acompanhou Sara Tavares no Palco Outdoor e não demorou até chegar à Cave, onde estavam os assistentes de produção ainda a preparar a disposição dos instrumentos em palco. Essa velocidade ajudou a embalar ainda mais as canções de Fogo Fogo — tarraxos e funanás psicadélicos que juntaram o maior aglomerado de pessoas na Cave que pudemos observar nestes dias de festival. Reinou a boa disposição e, claro, a dança sob a batuta dos ritmos mais alucinantes que têm contaminado uma Lisboa multicultural.

 


 

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#fogofogo #festivaliminente #funana #caboverde Super concerto, o melhor do festival!

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Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
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