Iminente, Dia 2: haverá melhor festival em Portugal?


[TEXTO] Gonçalo Oliveira [VÍDEO] Luis Almeida [FOTOS] Nash Does Work/Iminente

A estadia do festival Iminente em Oeiras durou apenas dois anos mas a concepção e conceptualização de todos os espaços — um casamento perfeito entre cores, sons, texturas e formas — levaram-no rapidamente para um patamar de primeiro nível. Há um certo misticismo em torno do Iminente e isso começa logo nas bilheteiras: as 4500 entradas diárias, que são comercializadas por uns simbólicos 10 euros, fazem do festival curado por Vhils uma das maiores tentações de final de Verão e, simultaneamente, um evento “exclusivo” que deita por terra a lei que impera nos restantes festivais de norte a sul de Portugal: vender, vender e vender. E todos gostamos deste sentimento de exclusividade: “eu estive lá”; “nem sabem o que perderam”. Mas o Iminente — especialmente neste seu terceiro ano de vida — é dos poucos que consegue corresponder às grandes expectativas que gera.

Começando pelo já referido número de bilhetes, que fez com que o trânsito pedonal pelo recinto do Panorâmico de Monsanto em nada se parecesse a um dia de festival — o segundo dia do Iminente esteve cheio o suficiente para que o calor se sentisse na hora dos concertos, mas sem nunca dificultar os acessos a quem precisava de se deslocar ao ponto oposto com a maior das brevidades. Os respectivos preços e todo o conceito de “festival sem carros” são dignos de um forte aplauso. Casas de banho em quantidade suficiente com visitas sucessivas de uma equipa de limpeza que manteve o mínimo de higiene no local, algo importante num evento deste calibre e que por vezes é descurado. Uma zona de comidas bem apetrechada e com uma ampla oferta gastronómica, mesmo que se tratasse de um festival de “pequena dimensão”. Bares em todo o lado, aliados ao já habitual conceito dos copos de plástico recicláveis — nem dois minutos demorou o processo de adquirir uma bebida. Curadoria artística — visual e musical — dignos de um forte aplauso para quem procura fugir aos circuitos mainstream. Posto tudo isto, Vhils e toda a organização do Iminente estão de parabéns porque conseguiram criar aquele que pode muito bem ser o melhor festival em solo nacional.

 



Mas vamos à música. À chegada do Panorâmico de Monsanto, apanhámos Loreta KBA no Palco Outdoor, que dividiu a sua actuação no Iminente em três actos: começou por cantar meia dúzia de temas, desapareceu do palco para que o DJ pudesse brilhar a solo com as suas máquinas e regressou para cantar mais um par de canções, aproveitando o momento para realçar o crescimento do rap crioulo nos últimos anos e deixando a sua homenagem a nomes como Da Blazz, Nigga Poison ou Ghoya.

Às 18h30, Keso subiu ao mesmo palco, para assinalar o momento mais especial e intimista do segundo dia no Iminente. Acompanhado por DJ Spot, o rapper tocou temas de KSX2016 e revisitou ainda alguns dos seus clássicos, intervalados por várias interacções com o público, visivelmente emocionado pela quantidade de gente que estava ali reunida para o ver — provavelmente todos também com aquela sensação de “porque é que não vemos o nome Keso em mais cartazes?” Meio desnorteado pela beleza daquele momento, nem ele — nem nós — demos pelo tempo a passar. “Já só posso tocar mais uma?”, perguntou o rapper a alguém dos bastidores que o tentava despachar do palco. Sentado numa cadeira, Keso deu-nos a terapia do seu “Underground” antes de se despedir de peito cheio, para depois passar para o lado do público e assistir aos concertos dos dois pesos-pesados do rap norte-americano que encabeçavam o cartaz, e que certamente também o influenciaram nesta caminhada.

Aproveitámos a boleia do final do concerto para um pequeno banquete na zona de restauração e, para queimar rapidamente as calorias ganhas, demos um salto até ao Palco Cave para escutar um pouco do que DJ Glue tinha para nos oferecer. Batidas do presente mas com os olhos postos no futuro foram as principais apostas do veterano, que se dividiu constantemente entre a bass music e o trap, passando também por algumas malhas mais clássicas do cancioneiro hip hop.

Se Glue estava audivelmente mais preocupado com as novas tendências e sonoridades, o Palco Outdoor promoveu uma viagem ao passado a partir das 21h30 com a entrada de DJ Maseo, dos De La Soul, para uma prestação a solo. “Dedico este set a todos os artistas do hip hop que perderam a vida”, referiu na abertura da actuação, não faltando os shout-outs a nomes como Notorious B.I.G., Phife Dawg ou Mac Miller, todos eles com especial destaque na playlist curada por DJ Maseo para o Iminente.

Às 23h, um momento histórico: Kool G Rap subia ao palco do festival organizado por Vhils, ele que é o pai do gangsta rap e, por isso, uma das mais importantes figuras na história do fenómeno cultural que teve origem no Bronx. Além dos obrigatórios clássicos, houve especial destaque para Son Of G Rap, o projecto que divide com o rapper 38 Spesh, que o acompanhou nesta vinda a Portugal. Visivelmente cansado desta rotina de concertos — já carrega 50 anos nas costas –, importa realçar a sua força em palco, mesmo que as cordas vocais tenham pregado algumas partidas pelo caminho. Um aplauso também por ter trazido um dos seus “filhos” para o palco, sem qualquer receio em passar a tocha a um dos actuais colegas de profissão que se inspiraram no seu rap mafioso. Falamos novamente de 38 Spesh, uma aposta segura para o futuro.

Havoc é um nome cada vez menos estranho em Portugal — tem actuado com alguma regularidade por cá — e é também outro dos “filhos” do lendário Kool G Rap. Depois da apresentação no Musicbox no final do ano passado, Big Noyd e DJ L.E.S. voltaram a integrar a comitiva do rapper e produtor norte-americano. O espírito do malogrado Prodigy esteve sempre presente, até porque o principal foco da actuação de Havoc e companhia girou à volta de clássicos dos Mobb Deep. Kool G Rap ainda teve energia suficiente para voltar a subir ao palco e ajudar Havoc em “The Realest”, faixa de Murda Muzik que conta com produção stoner do emblemático The Alchemist. Já todos devem ter adivinhado como é que o concerto terminou: “Shook Ones Pt. II” ecoou no sistema de som e os presentes reagiram em conformidade, acompanhando Havoc naquele que é um dos temas mais importantes na prolífera cena rap nova-iorquina.

 


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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