Illmatic: 25 anos de um marco inultrapassável

[TEXTO] Moisés Regalado [FOTO] Danny Clinch

Saber o MC favorito do nosso MC favorito será sempre um bom exercício, mais que não seja para matar — ou aguçar — a curiosidade, mas principalmente para juntar as peças que tantas vezes nos parecem soltas ou que até então nem sabíamos existirem. A probabilidade de NAS ser o MC favorito do nosso rapper de eleição ou de pelo menos ocupar um lugar no seu Olimpo pessoal é quase certa, mesmo que as gerações e as influências se renovem constantemente, e por muito que na discografia de Nasir haja vários momentos de glória, todos se resumiram a tentativas de honrar o passado construído por Illmatic, sem nunca passar pela cabeça de alguém que tal marco fosse ultrapassável.

Normalmente só se tem uma oportunidade para causar uma boa primeira impressão e NAS soube disso desde o arranque. Depois de uns quantos featurings nas camadas mais superficiais do underground americano, já a dar nas vistas entre pares e olheiros, Nasty Nas simplificou o nome, reforçou os treinos e fez o melhor que conseguiu, mais com a gana de quem não sabe se há próximo passo do que com a certeza que haveria mais para lá de Illmatic. E daí nasceu um disco que, mais do que alimentar o jovem movimento de ’94, viria a ganhar contornos bíblicos como referência maior de uma década inteira e de como fazer rap, dentro ou fora desses contornos temporais.

A comparação já tem barbas brancas, mas NAS aperfeiçoou o que Rakim começara a certa altura, estabelecendo um padrão que só viria a ter paralelo de semelhante força com a ascensão de Houston ou Atlanta. A diferença para o que até então se fazia é simples: Biggie Smalls, ícone dentro de portas, também trabalhava com uma perna dentro da indústria. “Juicy” e “Suicidal Thoughts”, por exemplo, não são vinhos de uma só casta, mesmo que tenham tido os mesmos calcanhares a espremer-lhes as uvas. Apesar de se apresentar como nativo convicto da “Big Apple” e sentinela confesso das ruas que lhe dão forma, Nasir Jones nunca quis politizar o seu ponto-de-vista, ao contrário de um californiano Tupac que mesmo a anos-luz da técnica nova-iorquina redefiniu o papel do ícone. Como uma espécie de Valete na altura de Educação Visual, antes de partir para as tomadas de posição de Serviço Público.



A ausência de um lado cómico, como existia em Redman, por exemplo, ou temático, como no seio da turma de Ghostface Killah e Method Man, fez de NAS, tão dotado como qualquer candidato a GOAT, uma verdadeira tábua rasa: para construir melhor, ou diferente, teria que ser a partir dali. Em Illmatic praticamente não há espaço para a ginga dos anos 80 mas o corte não foi radical, como em “Halftime”, que tanto apresenta uma métrica apontada ao futuro como nos brinda com toques daquilo que era um passado recente. E a simplicidade canónica não se fica por aí: embora Illmatic seja conhecido pelo cinzento que lhe pinta as histórias, além dos imortais tons de vermelho que coloriram a capa, NAS não rompeu com o lado mais fashion da tradição hip hop. A excentricidade não era assunto — e também nisso se distinguiu — mas as referências, que aos olhos de hoje seriam discretas, estão um pouco por todo o lado e acabaram por fazer tanta escola como os aspectos mais técnicos ou emotivos do disco:

“Halftime” – “And I’m a Nike head, I wear chains that excite the feds”;

“The World Is Yours” – “Nikes on my feet keep my cypher complete”.

Passados vinte e cinco anos é fácil perceber o quão impactante foi Illmatic, bastando para isso ver a quantidade de chavões que daí saíram — mais do em qualquer álbum de rap já feito. E não é raro ver quem, de tanto recorrer a expressões de origem popular, acabe por se confundir como autor ou responsável pela eternidade de algumas delas, mas nunca à escala de Illmatic. A partir deste disco, saído há precisamente um quarto de século, cristalizaram-se dizeres como “I never sleep ‘cause sleep is the cousin of death”, “Life’s a bitch and then you die”, “I’m out for presidents to represent me” ou tantos outros que ajudaram a inscrever estes quarenta minutos na nossa memória colectiva, mesmo para aqueles que não presenciaram a estreia de Nasty Nas.

Não é impossível ver NAS a fazer melhor música do que em ’94, nem de descartar que ainda apareça com um passo completamente revolucionário — apesar de se adivinhar difícil. Afinal, qual a relação de um milionário, bem-sucedido desde o primeiro dia, com a palavra evolução? O seu contributo, porém, já se afirmou como insuperável e pouco tem a ver com questões técnicas ou estéticas, mesmo que sem estas nada tivesse acontecido. À distância, em texto ou numa conversa, pode até parecer fácil… Mas sabem que mais? Provavelmente até foi. Para ele.



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