Há percursos que não se constroem à luz dos focos, mas na persistência discreta dos gestos quotidianos. Ilda Teresa Castro pertence a essa linhagem rara de criadoras para quem a arte não é palco, mas método de vida. Nascida numa pequena vila do interior de Portugal, cresceu afastada do centro e das suas promessas fáceis, aprendendo cedo que criar é insistir — insistir apesar das circunstâncias, apesar da escassez, apesar do silêncio.
A sua vida foi sendo moldada por dificuldades que não a desviaram, antes lhe afinaram o ouvido. Cada etapa vencida não surge como triunfo exibido, mas como afirmação íntima. Há nesta trajectória uma coerência ética que dispensa proclamações: fazer bem, fazer com rigor, fazer com responsabilidade perante o mundo.
A sua prática artística é múltipla, mas nunca dispersa. Na arte plástica, trabalhou o barro — matéria ancestral, paciente — e a ilustração, colaborando com jornais de referência. As suas exposições não se limitam à forma nem à superfície: interrogam a relação entre humano, natureza e responsabilidade ecológica. A ecologia atravessa a sua obra não como tema decorativo, mas como estrutura de pensamento, como urgência política e poética.
Na escrita, Ilda Teresa Castro desempenhou um papel pioneiro e decisivo. Ao investigar e divulgar o cinema de animação, o cinema feito por mulheres, e a curta-metragem em Portugal, abriu um território praticamente invisível até então. Livros como Animação Portuguesa, Curtas-Metragens Portuguesas e Cineastas Portuguesas 1874-1956 tornaram-se referências incontornáveis, hoje revisitadas em contextos académicos, mas nascidas de um gesto solitário de levantamento, escuta e cuidado.
Em Eu Animal propõe uma arqueologia do vivo, onde cinema e ecologia se cruzam em perspectivas que antecipam debates contemporâneos. Já em Ecofeminismos, explora com clareza o vínculo profundo entre feminismo, Natureza e pensamento crítico, recuperando saberes silenciados e re-inscrevendo o papel das mulheres na história cultual simbólica. A música acompanha este percurso como outra forma de respiração. Desde 1983, com o grupo de ruído pós-punk Divisão, o som surge como espaço de fricção e liberdade. No projecto a solo Ecceidade, constrói paisagens sonoras de teor ambiental, explorando o sintetizador Bloom como instrumento de deriva e atenção. As colaborações com Telectu (em os animais que dormem nas nuvens) e com The Banksy’s (em Young Yang) revelam uma escuta aberta, avessa a hierarquias e estilos fixos.
A invenção de instrumentos, como a slide guitar Dom DeLouise, e o uso de dispositivos sonoros pouco convencionais — do sintetizador “TERRA” da SOMA Laboratory aos pedais granulares Mood e Tensor, passando por idiofones e objectos sonoros — revelam uma relação artesanal com o som, onde cada timbre é uma escolha consciente, cada ruído uma possibilidade expressiva.
Também no cinema esta coerência se mantém. O documentário apresentado no IndieLisboa confirma uma cineasta atenta, que constrói a trama cinematográfica como quem escuta, sem domesticar o real. Não é por acaso que Chris Cutler reconheceu na sua obra uma qualidade rara: a de quem cria sem procurar protagonismo, mas cuja importância se impõe pela consistência e pela integridade do gesto.
Este ensaio propõe-se acompanhar a sua vida e obra não como inventário, mas como audição prolongada. Ilda Teresa Castro surge aqui como uma verdadeira self-made woman, cuja recusa do estrelato transforma a criação num acto contínuo de liberdade. Tal como no jazz, a sua arte vive da improvisação informada, da autenticidade e da coragem de ser — fora do centro, fora da norma, mas exactamente onde a criação permanece viva.
[A Vida como Jazz: Ilda Teresa Castro e a harmonia da existência]
Uma dança entre a arte, o activismo e o ecofeminismo
A vida de Ilda Teresa Castro assemelha-se a um tema de jazz em permanente variação. Não uma peça fechada, mas uma sucessão de entradas, pausas, desvios e regressos. Ainda que a sua música não se inscreva no género enquanto forma histórica, a lógica profunda do jazz — improvisação, escuta, risco — atravessa o modo como cria e habita o mundo. O jazz surge aqui menos como estilo musical do que como ética da existência: uma forma de estar atenta ao instante, de responder ao inesperado, de transformar limite em possibilidade.
Essa atitude jazzística manifesta-se na sua dedicação simultânea à escrita, à música, às artes plásticas e à investigação crítica. Cada projecto não é um gesto isolado, mas parte de uma constelação maior onde liberdade criativa e responsabilidade social se entrelaçam. Ilda não cria à distância: dialoga. Escuta o mundo e responde-lhe com a sensibilidade de quem improvisa sem perder o rigor. A sua vida desenha-se como uma jam session contínua, onde cada experiência se torna matéria sonora, cada conflito uma inflexão melódica, cada escolha uma variação consciente.
Neste sentido, a sua obra convida-nos a olhar a vida através da lente do jazz: um território onde cada momento contém a possibilidade de criação e reflexão. Mesmo sem recorrer aos acordes convencionais do género, a sua arte e o seu activismo ressoam com os seus princípios essenciais — liberdade, autenticidade e procura de harmonia, num mundo frequentemente dissonante.
[A música: harmonia da alma]
Na sinfonia da vida, Ilda Teresa Castro emerge também como compositora e intérprete, cuja prática musical ressoa com as pulsações da natureza e da existência. A sua actividade sonora reflecte uma visão profundamente holística, onde cada nota se relaciona com a dimensão humana e mais-que-humana do mundo. Através da música, constrói paisagens sonoras que suspendem o tempo, ligando quem escuta a uma experiência íntima e transformadora.
A música surge não apenas como forma de expressão, mas como veículo de consciência. Os seus projectos evocam a interligação entre os seres vivos e a dimensão macrocósmica, entre som e silêncio, entre presença e escuta. Cada performance afirma-se como celebração da diversidade sonora, onde a voz dialoga com instrumentos tradicionais e contemporâneos, criando pontes entre passado, presente e futuro.
A sua criação musical convida à contemplação e à atenção. A escuta transforma-se numa prática de resistência num mundo saturado de ruído. Ao desafiar convenções e abraçar a experimentação, Ilda Teresa afirma uma estética coerente com a sua paixão pela espiritualidade e pela sustentabilidade. Cada acorde funciona simultaneamente como alerta e como promessa, lembrando a urgência de cuidar do planeta que habitamos.
Assim, a sua trajectória musical afirma-se como uma ode à beleza da criação e como prova de que a arte, em todas as suas formas, pode operar como força activa de transformação social, espiritual e ambiental. Em cada apresentação, somos convidados a dançar ao ritmo de uma harmonia que ultrapassa as palavras — celebração plena de uma vida vivida em escuta a várias dimensões de presença.
[Ressonâncias da criatividade: A sinfonia de Ilda Teresa Castro]
A obra de Ilda Teresa Castro no campo da música e da composição desenha uma trajectória múltipla, marcada pela curiosidade radical e pela intensidade da escuta. Ao longo do tempo, a inovação sonora cruza-se com uma expressividade emocional que recusa fórmulas fixas. Desde os primeiros gestos no universo do punk até às explorações mais recentes, a música surge como espaço de experimentação identitária, onde criar é também redefinir-se.
O início com o grupo Divisão constitui um momento fundacional. No contexto vibrante e urgente do punk, Ilda Teresa encontra um território de afirmação directa, onde a rebeldia sonora se articula com uma necessidade profunda de expressão autêntica.
No seu trabalho a solo recente, Ilda aprofunda uma relação íntima com os sintetizadores, os idiofones e a electrónica. A construção de camadas sonoras revela uma atenção minuciosa ao timbre e à duração, criando atmosferas que oscilam entre o introspectivo e o expansivo. A técnica nunca se impõe à expressão: ambas coexistem num equilíbrio delicado, conduzindo o ouvinte por territórios sonoros pouco familiares, onde o tempo parece suspender-se.
Em cada projecto e em cada actuação, Ilda Teresa Castro convida-nos a escutar de outro modo. A sua obra musical afirma-se como testemunho de uma procura incessante por inovação e autenticidade, recusando categorizações fáceis. Mais do que ocupar um lugar no panorama musical contemporâneo, a sua prática abre espaço — um espaço onde o som se torna pensamento, e a escuta, forma de conhecimento.
[Escutar o que não fala: Análise crítico-poética do tríptico Eu Planta · Eu Animal · Eu Pedra]
O triplo álbum Eu Planta · Eu Animal · Eu Pedra, de Ilda Teresa Castro, não se apresenta como obra musical no sentido tradicional, mas como um dispositivo de escuta. Não se trata de compor para o tempo humano, nem para a narrativa musical herdada, mas de deslocar o ouvido para outras escalas de existência. Aqui, a música deixa de ser acontecimento e torna-se relação: relação com o corpo, com a perda, com a matéria viva e inerte, com o tempo que cresce, pulsa ou se sedimenta.
Gravado num contexto de suspensão biográfica — entre a espera e a morte, entre a esperança e o luto — o tríptico carrega uma dimensão ética que não se declara, mas que informa toda a sua arquitectura sonora. Não há dramatização explícita da dor, nem sentimentalismo. Há, antes, um gesto de recolhimento: uma tentativa de escutar a Natureza quando a linguagem falha. A obra nasce, assim, como ritual discreto de sobrevivência e de transformação.
[Eu Planta: Quatorze fragmentos de pulsação]
O primeiro movimento do tríptico organiza-se como um campo de respiração dilatada. Eu Planta trabalha um tempo que não progride, mas se expande. A pulsação aqui não conduz, antes sustém. Os quatorze fragmentos funcionam como variações microscópicas sobre um mesmo gesto vital: crescer sem pressa, repetir sem regressar ao mesmo ponto.
Do ponto-de-vista musicológico, o uso do sintetizador OMN permite a construção de estruturas baseadas em isorritmias e isomelodias instáveis, onde a repetição nunca se fecha sobre si própria. As sequências modulares instauram um regime de escuta próximo dos processos generativos, mas sem abdicar da presença autoral. Há sempre uma mão que escuta enquanto constrói.
A polirritmia implícita não resulta de sobreposição de métricas contrastantes, mas de micro-desvios internos: ligeiras alterações de duração, de ataque, de densidade espectral. O silêncio — ou melhor, o intervalo entre os sons — assume aqui função estrutural. É nesse espaço que a escuta se enraíza. Eu Planta não descreve o mundo vegetal: partilha o seu modo de existir.
[Eu Animal: Onze sussurros]
Se o primeiro movimento habita o tempo do crescimento, Eu Animal instala-se no tempo da vulnerabilidade. O som aproxima-se do corpo, da respiração, do risco. A voz surge reduzida ao sussurro, num limiar onde música e linguagem ainda não se separaram completamente.
Inspirada em práticas vocais íntimas do Burundi, a utilização do murmúrio afasta-se de qualquer função melódica convencional. A voz não canta: respira, roça, insiste. É matéria sonora antes de ser portadora de significado. A alternância entre zonas de consonância precária e dissonância instável constrói um campo de tensão permanente, evocando estados de alerta, de jogo, de sobrevivência.
O sintetizador OMN acompanha esta dimensão corporal com timbres instáveis e pulsos fragmentados, criando uma espécie de contraponto respiratório. Não há hierarquia entre voz e electrónica; há interdependência. Eu Animal opera no limiar do audível, convidando a uma escuta radicalmente atenta, onde cada mínimo som se torna acontecimento.
Musicologicamente, trata-se de uma investigação sobre o limiar: entre som e silêncio, presença e ausência, humano e não-humano. Uma música que não se afirma, mas se expõe.
[Eu Pedra: Cinco ondas sónicas]
O último movimento do tríptico abandona a lógica da pulsação e entra no domínio da densidade. Eu Pedra não se organiza em ciclos, mas em ondas. O tempo aqui não flui nem pulsa: acumula-se. Cada som parece conter um passado que não conhecemos, uma memória sem narrativa.
A instrumentação — psaltério, metal chimes, theremin, kalimba, kokiriko, rainstick — não é escolhida pela sua referência cultural, mas pelas suas propriedades vibratórias. O som é tratado como fenómeno físico, como matéria em oscilação. Cordas, membranas e objectos percussivos produzem ressonâncias que não conduzem a lugar algum; simplesmente permanecem.
As cinco peças funcionam como campos de ressonância onde o ouvido é convidado a abandonar a expectativa de desenvolvimento. Não há clímax, nem resolução. Há permanência. Eu Pedra propõe uma escuta geológica: ouvir como quem toca a superfície do tempo.
Do ponto-de-vista estético, este movimento aproxima-se de práticas acusmáticas e de escuta profunda, mas mantém uma relação orgânica com o gesto performativo. A electrónica não simula a Natureza: prolonga-a.
[Um tríptico da escuta]
Eu Planta · Eu Animal · Eu Pedra não é uma obra descritiva, nem programática. É um exercício de atenção. Um convite a deslocar o ouvido do centro humano para outras formas de existência. A repetição surge como processo vital; a voz, como vestígio; o som, como matéria pensante.
Neste tríptico, a música não representa a natureza: escuta-a. E, ao fazê-lo, ensina-nos a escutar também. A dor que atravessa a génese da obra não se transforma em lamento, mas em abertura. O luto converte-se em campo sensível, onde vida vegetal, animal e mineral coexistem sem hierarquia.
No final, resta a escuta. Não como consumo, mas como prática ética. Uma escuta que reconhece que o mundo fala — mesmo quando não tem voz — e que a música pode ser, ainda, um dos seus modos mais discretos e mais necessários de pensamento.
[Inteligência em estado líquido: Análise crítico-musicológica de Intelligentia Liquida]
Em Intelligentia Liquida, Ilda Teresa Castro propõe uma escuta que abdica de contornos sólidos. A inteligência aqui não é sistema fechado nem arquitectura racional; é fluxo, permeabilidade, adaptação contínua. O título não funciona como metáfora decorativa, mas como chave ontológica: a música pensa porque se move, porque se transforma, porque escapa à fixação.
Este álbum não se organiza segundo uma lógica narrativa nem teleológica. Não há progressão, nem clímax, nem resolução. Há estados. Campos de vibração que se formam, se expandem e se dissolvem. A electrónica deixa de ser instrumento de controlo para se tornar meio de escuta ampliada, espaço onde matéria e frequência negociam a sua coexistência.
O uso exclusivo do sintetizador Soma Terra Dark não corresponde a uma limitação técnica, mas a uma decisão estética e ética. Trata-se de um instrumento concebido para explorar a instabilidade, a fricção entre o previsível, o emergente e o perceptível. Em Intelligentia Liquida, a síntese sonora não simula paisagens: cria ecossistemas acústicos. Cada peça funciona como organismo autónomo, regido por equilíbrios frágeis e mutáveis.
[“Telephatic Connections”]
A peça de abertura instala desde logo um regime de escuta não-linear. O som desenvolve-se como campo electromagnético, onde pulsares lentos e drones expansivos constroem uma sensação de comunicação sem emissor visível. O “telepático” não remete para o fantástico, mas para uma ideia de ligação não mediada, onde a informação circula sem necessidade de linguagem codificada.
Musicologicamente, a peça articula ostinatos de baixa frequência com variações tímbricas contínuas, criando uma textura onde a repetição não gera estabilidade, mas tensão latente. Os glissandi subtis funcionam como desvios de trajectória, impedindo qualquer sensação de repouso. A escuta é mantida num estado de atenção flutuante, como se o som estivesse sempre prestes a mudar de estado.
[“Liquid Intelligence”]
A segunda composição aprofunda o conceito central do álbum. Aqui, a inteligência manifesta-se como capacidade de adaptação tímbrica. Não há temas reconhecíveis mas linhas de força. O som comporta-se como fluido viscoso: ora se adensa, ora se rarefaz, ora se infiltra nos interstícios do silêncio.
A utilização de drones modulados e variações espectrais em tempo real cria um campo harmónico instável, onde as relações intervalares são sugeridas, nunca afirmadas. Esta instabilidade não é ausência de forma, mas forma em estado provisório. Liquid Intelligence propõe uma escuta que aceita a impermanência como valor estrutural.
[“Earth Regeneration”]
Nesta peça, a relação entre som e ecologia torna-se mais explícita, embora nunca ilustrativa. Não se trata de representar a Terra, mas de pensar processos de regeneração através do som. A matéria sonora parece emergir de um fundo profundo, como se carregasse consigo uma memória geológica.
Os pulsos electrónicos surgem aqui mais espaçados, quase respiratórios. A sensação de tempo dilatado aproxima-se de escalas não-humanas. Há uma alternância entre zonas de densidade e rarefacção que evoca ciclos de erosão e recomposição. O som trabalha por camadas, como sedimentos, acumulando-se sem pressa.
Do ponto-de-vista composicional, a peça articula drones de longo curso com micro-eventos tímbricos que funcionam como sinais de vida. A regeneração não é explosiva; é lenta, insistente, quase imperceptível.
[“For Natural Ecossistems”]
A última peça do álbum assume um carácter quase ritual. Não como cerimónia codificada, mas como gesto de atenção prolongada. O som instala-se num estado de escuta profunda, onde cada vibração parece responder a outra, num sistema de interdependências.
Aqui, a electrónica aproxima-se de uma qualidade orgânica. As variações tímbricas em tempo real produzem uma sensação de respiração colectiva, como se o som fosse corpo partilhado. Não há hierarquia entre frequências; todas coexistem num equilíbrio instável, reflectindo a complexidade dos ecossistemas naturais.
Esta peça funciona como fecho aberto: não conclui, antes suspende. Deixa o ouvido num estado de continuidade para além do álbum.
[Uma música sem centro]
Intelligentia Liquida não é um manifesto tecnológico nem uma obra de virtuosismo electrónico. É uma prática de escuta. A música não se organiza em torno de um sujeito criador dominante, mas de um sistema de relações. A composição acontece no encontro entre gesto humano, máquina e matéria sonora.
De uma perspectiva musicológica, trata-se de uma obra que trabalha conscientemente contra a linearidade formal, privilegiando processos, estados e transformações contínuas. A ausência de métrica definida, a diluição de fronteiras entre som e ruído, e a recusa de temas reconhecíveis colocam o ouvinte num território de escuta activa e não-confortável.
Tal como em Eu Planta · Eu Animal · Eu Pedra, também aqui a música de Ilda Teresa Castro não representa o mundo: participa nele. Intelligentia Liquida propõe uma inteligência que não domina, mas escuta; que não fixa, mas flui; que não se impõe, mas se adapta.
No final, o que permanece não é uma melodia, nem uma estrutura, mas um estado de atenção. Uma inteligência em suspensão, líquida, disponível. Uma música que pensa porque se deixa atravessar.