Barulho No Jardim de Inverno desnorteia qualquer bússola. Seja o vosso norte o jazz ou o hip hop, a house ou o rock, não há uma saída limpa deste labirinto. Não há sinal GPS que resista ao encontro com o maravilhoso mundo do acaso. Muitas vezes, é simplesmente o novo — ainda que, por momentos, esse novo seja, como diz o poeta, muito antigo. Este é o quarto álbum de originais de Iguana Garcia — alter ego de João Garcia — e abre varandas para o seu imaginário interior, até ao convés de um espírito inquieto. O músico continua a agrupar e a sintetizar universos distantes, por vezes paralelos. Bafejado pela poesia, copia e cola recortes de uma memória coletiva que vai de João César Monteiro a Sophia de Mello Breyner, passando pela voz de Mário Viegas nas palavras de Jorge Sousa Braga. É assim que transporta a língua portuguesa para o avesso mundo da música eletrónica com a ousadia de um Sebastião.
A imagética e a semântica percorrem a Serra de Sintra reproduzindo o seu micro clima: a humidade é uma constante, o nevoeiro quase permanente. Ao ouvinte, resta esperar o inesperado da primeira à última nota. Iguana Garcia serve-se da música eletrónica para servir a língua portuguesa. É uma originalidade ímpar. O álbum abre com um saxofone tenor que desbrava uma selva até ao jardim árabe de uma cidade ocidental. Evoca, logo desde o início, uma áspera paisagem underground de onde, por vezes, se vislumbra o Tejo e o mar, enquanto uma voz depressiva, desolada, esbate as cores do entardecer como uma nuvem negra.
A segunda faixa recorda-nos, oportunamente, a entrevista de João Martins a João César Monteiro, expondo o eterno desencontro entre o artista e o jornalista — isto é, entre a arte e o tempo. João Garcia, como César Monteiro à data, parece procurar a sua própria Casa Amarela. As basslines do techno e da house surgem elegantes, complexas e persuasivas. “Cair Nas Urtigas” — onde Mário Viegas recita “Portugal”, de Jorge Sousa Braga — constrói um ambiente atmosférico em camadas. Já em “Trepadeira”, um panning dinâmico faz o som oscilar entre esquerda e direita e empurra-nos para a imersão.
“Num Palácio em Sintra”, apresenta uma poção acid borbulhante, sustentada por padrões repetitivos que densificam a textura e a espacialidade, em tensão com a voz feminina e o saxofone de Johnny. Em “O Jardineiro”, a voz metalizada e distorcida de Sophia declama “Esta Gente” sobre um kick progressivo extraído de uma rave, criando um ambiente etéreo e flutuante. A musa recoloca a palavra ao centro, transformando o canto na força gravitacional em torno do qual rodam as paisagens sonoras.
Neste álbum assistimos à fragmentação de uma personalidade artística que se expande por meio da diluição em vários estilos, com uma liberdade criativa que responde, sem complexos, a estímulos diversos e contrários. Enquanto o mundo se estilhaça e é liquidado a cada dia, Iguana Garcia debruça-se sobre si próprio para convergir em referências cruzadas portuguesas e universais, como quem junta e cola cacos. Apesar de a via principal ser a da música eletrónica — atravessando territórios industriais e subversivos da house e do techno — há desvios para o hip hop e para o rock que destroem pontos cardeais e desorientam a palavra.
Nesse desencontro, Iguana Garcia parece dialogar com David Bruno em certos ambientes e numa particular cinematografia sonora, audível no “Tema de Sofia” e em “O Melhor Cardiologista de Portugal”. “A Tua Mãe e a Madrugada” parece revisitar o timbre e a forma de Mike El Nite. O mergulho no hip hop é inevitável chegados ao beat de “Irmãos Gémeos” e quando cita o filósofo esloveno Slavoj Zizek. Não há muitos criadores de eletrónica a citar poetas e filósofos. “Fantasmas Na Ala Norte” é suja, crua e contida, onde uma guitarra distorcida parece comunicar com o rock e o improviso do jazz. “Quem é Quem” cresce no mundo da spoken word onde se eleva a poesia de Iguana Garcia. O álbum fecha com “Tou de Volta a Mim”, construído na linguagem do pop-rock contemporâneo e que soa ao mundo dos Capitão Fausto.
A sonoridade noir, suja e pouco polida reflete e perturba as rotinas do urbano mais convicto. Mais do que música para a pista de dança, é música que abre uma pista de dança dentro do próprio ouvinte. Serve-se dos poetas, do cinema e da filosofia, numa psicose mundana e sub-reptícia, para chegar às ilhas desconhecidas da língua. João Garcia parece pertencer àquela estirpe de navegadores que, nas palavras de Sophia, “Navegavam sem o mapa que faziam”. E quando um artista ousa navegar sem mapa, arrisca-se, como sabemos, a descobrir qualquer coisa. Por isso, este álbum funciona como uma promessa.