IGLOOGHOST: um jovem mago na prestigiada escola BRAINFEEDER

[TEXTO/FOTOS] Ricardo Miguel Vieira, em Londres

 

A lista de presenças ainda é extensa, aquela onde estão impressos os nomes de quem garantiu antecipadamente entrada na noite Bird in the Wire no The Waiting Room, um clube numa cave de Stoke Newington, em Londres, que nem o Google Maps consegue localizar. O evento é gratuito, mas a organização promoveu a assinatura de uma guestlist online para assegurar que todos caberiam no pequeno salão e que ninguém ficaria a escutar de fora as disfuncionalidades sónicas de IGLOOGHOST, o novo pequeno génio do catálogo da BRAINFEEDER.

São cerca de 70 a preencher um espaço que não deverá albergar mais de uma centena de pessoas. Poucas terão vindo ao espectáculo por mero acaso. Uma boa fatia do público demonstra já conhecer as produções do jovem de 18 anos proveniente de uma “casa com telhado de zinco numa colina de Inglaterra”. Já depois do set, e num ambiente de palpável fervor adolescente, dezenas rodearam mesmo o produtor e designer para uma sessão de selfies. Quem não soubesse o que se passava deduziria que um miúdo parecido com o Harry Potter convidou a turma do secundário em peso para celebrar o aniversário com uma exploração nocturna de Londres.

Para além dos óculos de massa castanhos e do look geek, IGLOOGHOST tem uma outra semelhança com o personagem juvenil criado por J.K. Rowling: é um mago das composições sonoras influenciadas por ambientes gaming, pela cultura japonesa do fantástico e pelas novas tecnologias. O set que apresenta – e a música que produz – funde elementos techno, dubstep e hip hop com um caleidoscópio de partículas electrónicas de pitchs manipulados até à exaustão e aditivados com synths digitais. O resultado é, ao mesmo tempo, desconcertante e deslumbrante.


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“Oiço demasiadas merdas estranhas, mas também gosto de escutar os artistas mais populares e observar as tendências, apenas por curiosidade. Mesmo músicas que são super hyped no SoundCloud conseguem ser fascinantes de ouvir, mesmo que não gostes delas. Antes de dormir costumo ver o que foi pago para ser trendy no VEVO para compreender o que se anda a passar em termos de produção. Muitas vezes apresentam coisas bem mais estranhas do que os chamados sons underground.”


A capa do portátil de IGLOOGHOST está preenchida com cartas Pokémon. A camisa branca que veste é traçada a quadradinhos e cartoons. São vestígios visíveis das referências que recolhe do universo ficcionado dos comics. Há também entre o público quem revele um vínculo a essa estética fantástica, apresentando-se num estilo cosplay. É um sinal de fidelidade que GHOST já encontra em boa parte dos seus seguidores, os mesmos que o encaram como um criador de bandas sonoras capazes de atrair a atenção de alguns dos mais populares produtores globais, o que redimensiona um nicho cultural que anseia por uma maior visibilidade na sociedade 2.0.


“Inspiro-me em pessoas como Jack Sachs, Martin Nicholauson e Hatty Stewart pelo menos desde que comecei a fazer música. E nos últimos cinco anos tem-se visto um crescimento em torno dessa vibe e isso é fantástico. É como um sonho confuso e desconcertante em torno dos cartoons com os quais cresci. Estou a tentar recolher referências desse universo com a esperança de também adicionar algo de novo.”


IGLOOGHOST, a exemplo dos adolescentes que hoje se dedicam à renovação da arquitectura da electrónica, começou a despontar nos salões de música virtuais com remisturas carregadas de beats multipadronizados provenientes do grime, hip hop e até do footwork. No Natal de 2014, o produtor assinou uma bootleg conjunta com SertOne na Fly High Society que apresentava reinterpretações viscerais de malhas como “Honest” de Future e “That’s Not Me” de Skepta. Esta última foi amplamente divulgada nas plataformas digitais, abrindo caminho para a difusão nas ondas da rádio. Mary Ann Hobbs, programadora musical da BBC 6 e responsável por algumas importantes compilações, integrou o remix em diversas playlists dedicadas a recomendações de novas músicas.

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Já em 2015 volta a dar provas de ambição ao desenhar versões frenéticas de malhas de extensão global. Uma delas foi “Only One” de Kanye West e Paul McCartney, que na cabeça do jovem produtor estava carregada de loops e experiências vocais. Claramente atraído pelo hip hop, é a meio do mesmo ano que anuncia um EP exploratório com o rapper Mr. Yote. Milk Empire, lançado pela Activia Benz, é composto por duas faixas de 12 minutos, cada uma a soar a um mix de faixas rap, trap e grime. A originalidade da produção chegou ao outro lado do Atlântico, capturando o ouvido de um outro gigante criador de galáxias instrumentais. Flying Lotus não hesitou em recrutar o miúdo para a mesma casa onde convivem Thundercat, Kamasi Washington e DJ Paypal.


“Honestamente não imaginava que estivessem interessados em assinar novos produtores. Julgava que estavam apenas focados nos artistas que já tinham no catálogo e que, eventualmente, emergissem com artistas enormes como o Kamasi. Ainda estou surpreendido que [Fly Lo] me tenha recrutado em vez de um outro miúdo qualquer neste mundo. É incrível. Sinto que tenho de provar a toda a gente que sou digno de fazer parte da BRAINFEEDER. O meu próximo disco tem de fazer cabeças explodir.”


No encerrar de Outubro é então editado na BRAINFEEDER o EP Chinese Nü Yr, quatro transmutações de ambientes orientais em techno desviante que nunca se distancia do dubstep, noise e hip hop. Esta última coordenada é validada pela participação de Mr. Yote enquanto as experiências vocais são da artista dream pop Cuushe. A impressão digital de GHOOST em torno da produção para a editora independente californiana fundada em 2008 estende-se igualmente ao *artwork*, pintura de geometrismos tridimensionais que espalha na tela uma série de elementos não relacionáveis entre si. Um quadro preciso, portanto, do caldeirão de pistas sonoras que compõem o traço singular de IGLOOGHOST.


“O título do EP é suposto ser ilógico, não conectar nem relacionar-se com nada. Pretende apenas, pelas palavras que o compõem, introduzir a uma vibe das palavras que só existe pelo som ou aparência que acarretam. Na faixa “Mametchi”, por exemplo, escuta-se a minha irmã a verbalizar palavras aleatórias apenas porque gosto da fonética das mesmas. Não significam nada, mas não será por isso que se torna menos sincero. Não existe neste trabalho qualquer ironia. Apenas gosto como as palavras “pale mint tongue” soam juntas. Neste projecto apenas tentei transformar em instrumentos contemporâneos os sons psych rock japoneses de artistas como Boredoms ou OOIOO. Não faço ideia se está perto desse objectivo mas consigo sentir este meu trabalho.”


Com o primeiro lançamento na BRAINFEEDER veio a promessa de um álbum que chegará também em formato de vinil. Exceptuando este desafio, IGLOOGHOST procura agora percorrer o maior número de espaços de divulgação possíveis para amplificar a circulação do nome, e talvez seduzir mais artistas da craveira de Fly Lo e granjear uns convites para remisturas e colaborações – Skrillex já lhe piscou o olho. Ou até mesmo marcar presença numas Comic Con e pavimentar o caminho para a emergência do mercado musical do gaming e do ecossistema fantástico. Quando se é um mago dos aparatos electrónicos, todas as possibilidades são programáveis.

Ricardo Miguel Vieira

Escrevo umas linhas em revistas e sites. Cultura, música, activismo, DIY, surfing são o meu universo. Se não me encontrarem por aí de headphones entre orelhas é porque estou algures no oceano.