HRNS sobre Naomi: “Vemos isto na mesma palete em que se pinta um lounge de aeroporto ou um restaurante na Riviera italiana”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Filipa Pinto Machado

Lançado no início da Primavera de 2019, Naomi é o primeiro álbum dos HRNS. É também a justificação para entrarmos em contacto com o grupo formado por Rui P. Andrade e Afonso Ferreira (aka FARWARMTH), dois artistas que se incluem no complexo quadro de música electrónica feita em Portugal, mesmo que os próprios rejeitem confinar-se a limitações geográficas, ainda mais porque o trabalho foi lançado pela londrina Warm Winters Ltd: “há artistas incríveis a operar em Portugal e com os quais, entre os dois, já tivemos a oportunidade de colaborar. Mas não queremos nem nunca quisemos inserir-nos em qualquer panorama ‘nacional’, é de certa forma algo limitador.”

À voltas de texturas atmosféricas, ombreando com o design sonoro de Grouper e com as harmonias de Steve Hauschildt, o duo vai em direcção a uma composição paciente e ao mesmo tempo muito emocional – a passagem de “Prunes de Namur” para “Eurostar” demonstra o confronto entre estas duas sensações de maneira claríssima, e os momentos mais cantados e mais ambient de Burial estão aqui subtilmente representados – e não fosse este o primeiro lançamento de uma editora londrina, certo? O legado de William Bevan elevou-o a símbolo da música electrónica, e podem-se sentir reminiscências da obra do produtor em determinados detalhes do disco – inclusive no final.

A leitura inicial era de que estávamos perante um projecto algo obscuro, urbano, até relativamente pesado emocionalmente. Os autores não concordam totalmente: “aceitamos o urbano, mas obscuro e pesado? Em parte alguma. É um álbum paciente, sim, etéreo talvez, mas vemos isto na mesma palete em que se pinta um lounge de aeroporto ou um restaurante na Riviera italiana.”. Embora dê para olhar para esta consideração no sentido Brian Eno-iano de que a música ambiente deve ser tão ignorável como interessante, Naomi parece ter algo mais profundo e pessoal a desvendar. Com mais audições ganha também um teor mais humano e íntimo, mas também se projecta uma atmosfera que tanto tem de enternecedora como de abismal.



Ao mencionar o que os motivou a engendrar este registo mais exigente, a dupla refere que “era o passo óbvio a tomar depois de três lançamentos mais curtos, se bem que a fronteira entre um álbum e um EP é cada vez mais ténue. Ainda assim os formatos mais curtos continuam a ser super apelativos para nós”.

Focando várias camadas electrónicas, de sintetizadores, vozes e samples processados, encontram um espaço sónico muito próprio e coeso ao longo do disco. Além das características já referidas, há também algo de cinematográfico em Naomi – pena que o disco tenha saído depois da sequela de Blade Runner, pois seria um bom sucessor para a banda sonora original criada por Vangelis. A vertente vídeo “pode ou não [ser mais explorada] no futuro. Neste momento interessam-nos mais outras vertentes visuais que não o vídeo”. Apesar disso, o EP tem um vídeo para Eurostar”, “construído a partir da selecção de pequenos segmentos, como se fossem samples visuais, recolhidos por Raquel Sousa numa caminhada pelo Porto. O processo é semelhante ao ‘word dump’ presente no booklet do CD e usado em algumas letras do disco. No final, tal como o álbum em si, tudo tomou forma pela mistura e edição.”.

Os HRNS irão fazer uma tournée pela Europa a partir do mês de Setembro. Até lá, se ainda não ouviram o disco e querem saber ao que pode soar, o grupo refere estas como as suas principais influências: “O Kanye [West] pós-808s & Heartbreak a meias com o Rubchinskiy; Spooky Black antes de ser Corbin e Romantismo.”


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