holympo: “Depois do Arritmia, é capaz de demorar muito tempo até eu voltar a falar de amor”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Alexandre Marques e Mike Blanko

A comunidade SoundCloud em Portugal está longe de ter a militância ou o público que facilmente identificamos fora de portas. Consequentemente, a procura por um artista português emergente na plataforma nem sempre se revela tarefa fácil. Foi por lá que no último par de anos nomes como Sippinpurpp, Yuri Nr5 ou Lon3r Johny cimentaram as posições que hoje ocupam na cena hip hop nacional. Menos badalado do que qualquer um destes três nomes, holympo mostra agora com o seu novo EP, Arritmia, que tem tudo para vingar.

O nosso primeiro contacto com a obra assinada por Diogo Dias ocorreu em 2016, graças a uma partilha de xtinto nas redes sociais que dava conta de uma nova voz a representar o rap da Zona Centro. Temas como “E.S.P.O.V.”, “Maçã de Éden” e, especialmente, “Metamorfose”, aliados à regularidade com que editava novo material, fizeram com que o SoundCloud de holympo fosse um dos nossos pontos de paragem frequentes na busca por música recente. Como qualquer outro newcomer que se inicia nestas lides quase que por acaso ou mera brincadeira, a qualidade final com que cada faixa era apresentada poderia ser motivo suficiente para não despertar o devido interesse, lacuna que o próprio artista hoje reconhece e que muito fez em tão pouco tempo para ultrapassar.

Apesar de à data se ter encontrado na derradeira fase da adolescência, as letras de holympo já fluíam com a destreza de quem se pudesse ter dedicado ao estudo da palavra por anos a fio. Das crises existenciais e inevitáveis dores de crescimento, passando por questões mais adultas e específicas como o propósito da arte do hip hop ou um amor vivido de forma intensa, as suas rimas sempre soaram a poesia em estado bruto, mais recentemente limadas para dar força a canções estruturadas que contêm todos os condimentos para serem colocadas em replay por um maior número de ouvintes.

Além da escrita, Diogo Dias tem também demonstrado competência na vertente de produtor, embora esta seja levada de uma forma não tão séria. Ainda assim, a vontade de aprender a lógica por detrás do som deu-lhe um trunfo importante para se apresentar ao mercado nesta nova fase da carreira: holympo manuseia o auto-tune como muito poucos e consegue criar texturas fora do comum, ficando a sensação de que é sempre ele quem está no comando das melodias resultantes da experiência e não é apenas um software a teleguiar a sua voz através de processos automatizados. No seu leque de influências estão nomes como Slow J ou Mac Miller, mas a especificidade do som que procura tem outra paragem, também ela muito menos usual: a efervescente Toronto que nos tem dado game changers do rap e do r&b como The Weeknd, Sean Leon, Wondagurl ou Eestbound.

Depois de ter lançado um projecto homónimo de modesta repercussão, holympo focou-se em apurar a sua técnica no caderno e no microfone, apresentando-nos hoje este Arritmia como aquele que deveria ter sido efectivamente o seu projecto de estreia. O EP tem o carimbo da Andamento Records, foi misturado e masterizado por J. Motion e junta alguns dos seus habituais companheiros como l0tus, GUIRE ou Heartless, mas também algumas caras novas como são os casos de Nedved ou Sobras. Podem escutar os quatro temas via streaming, com a edição física de Arritmia a conter uma faixa-bónus. O artwork é da autoria de phonesex.jpeg.

Sentámo-nos à conversa com holympo no Parque das Nações para falar sobre o seu novo EP, os projectos e metas que se seguem e o trabalho que discretamente tem feito com o colectivo Trifecta, liderado por 11 LIT3S.



Como é que começaste a rimar?

Tenho um amigo que é o Cósmico e ele andava sempre a escrever, só que nunca queria lançar nada. Eu olho para ele como uma inspiração autêntica. Há uma altura em que eu comecei a escrever as minhas letras, mas não as mostrava a ninguém. Até que mostrei a letra de uma música, que entretanto lancei, mas voltei atrás porque não tinha a qualidade que eu queria, e ele disse-me “isto está muito bom, lança”. E acabei por lançar. Eu na “Maçã de Éden” até faço referência a isso — “É lógico, o mano Chico aprova a letra”. A partir daí… A minha inspiração veio toda dele.

Tinhas que idade na altura?

Tinha 17 anos quando comecei a escrever.

E já fazias os teus beats ou a produção só entrou depois em cena?

Entrou depois. Eu, o l0tus e o Naife começámos isto juntos. O Naife já tinha músicas editadas mas nós não tínhamos nenhum produtor. O l0tus é um rapaz que demorou muito até conseguir produzir ao nível que ele consegue produzir hoje. No primeiro ano ele inspirou-me a instalar o FL Studio, mandou-me o crack e tudo. É pirateado, mas pronto [risos]. Nós brincávamos imenso até que eu percebi, porque já tinha as bases da guitarra, que conseguia passar as coisas para o piano. O “E.S.P.O.V.” foi a minha primeira produção oficial. É uma cena que nasce de um piano e de um loop de bateria, que já estava pré-feito. O resto foi o l0tus que pegou.

Falaste da guitarra. Estudaste música, é isso?

Sim. Fui aluno do professor Pedro Miranda, que agora é um grande guitarrista em Portugal. Ele sempre me tentou incutir muito a parte da teoria musical, porque eu disse-lhe que o que eu queria era criar música, chegar a um certo ponto em que eu já conseguisse compor. Ele ensinou-me tudo à base de escalas para que eu conseguisse ter um processo de criação mais facilitado.

E conseguiste transpor todo esse conhecimento da guitarra para, se calhar, um teclado MIDI?

Exactamente. Eu não tenho um teclado MIDI, mas o l0tus tem. Às vezes nós juntamos-nos para produzir e trabalhamos todos com o teclado. Fazem-se coisa bacanas.

Falaste-me do Cósmico, que foi uma grande influência para ti. Que outros artistas tiveste como fonte de inspiração?

A minha grande influência para criar a cena mais boom bap que marcou o meu início foi o Slow J, quando lançou a Free Food Tape. Tinha também o Nurb, que lançou a TUSCARIA. Foram duas grandes influências para mim nessa altura. Depois, tinha como base internacional o Mac Miller, que influenciou todo o meu processo de criação musical, principalmente pelo Faces. Foi neles que me inspirei.

As primeiras faixas que começas a soltar no SoundCloud são literalmente as primeiras coisas que gravaste?

Eu fui muito precipitado. Imagina, eu fazia uma música, mostrava ao pessoal e toda a gente dizia que estava bacano. Se está bacano vou lançar. Estávamos numa fase em que nem nós próprios sabíamos o que estávamos a fazer. Não tínhamos qualquer tipo de mix ou master. Era basicamente mexer em volumes, ver se soava bem, e se soava bem era para lançar. Por isso eu pequei muito no início, nessa parte. Mas a música também parte muito da cena de quereres fazer porque sim e não para ser ouvido.

E esse toque de ingenuidade acaba por dar um ar mais cristalino à coisa.

Exactamente. Eu na altura era criticado por estar tudo muito cru, muito mal feito. Eu nem sabia o que era o auto-tune. Então tive de gravar montes de vezes até a voz sair perfeita. Mas o estar cru foi o que deu mais genuinidade à cena.

E analisando os números que conseguiste nesses primeiros temas, isso não te impediu de criares uma espécie de culto à tua volta.

Eu não estava à espera que isso acontecesse. Acho que as pessoas ficaram tipo, “olha este puto novo a fazer música, vamos ouvir. Wow, isto até está bacano, vamos ouvir um pouco mais”. Quando dei por mim já tinha muita gente a felicitar-me pelos sons que eu estava a lançar, tinha um nicho de pessoas a apoiar-me. E foi o que me fez continuar, basicamente.

O que é que te levou a arriscar agora num EP?

Basicamente eu tinha um conceito, que consiste numa espécie de novela, em que cada música mostra uma fase de uma possível relação ou amor impossível. Tentei criar isso. O porquê de lançar o EP agora? Eu tinha lançado um EP há dois anos, que foi self-titled, o holympo. Tinha lá músicas que estavam boas mas que senti que podia dar ainda mais de mim. Decidi nunca mais lançar nada que fosse um conjunto de músicas. Achava que as pessoas não iam querer estar a ouvir 20 minutos de mim. Ultimamente tenho sentido que muita gente me pede mais, porque em Coimbra não há um mercado de música assim tão grande como isso. “Ok, eu vou ter de criar um projecto que as pessoas vão querer ouvir até ao fim, porque cada música tem uma continuação”. Então criei o EP e decidi lançá-lo agora.

E como é que esse projecto surge associado à Andamento Records? Fizeste parte da génese dessa editora?

Eu entrei mais tarde. Tinha sido convidado para entrar logo no início, só que nessa altura eu tinha a Wey Chapo, com o Naife, o Cósmico, o l0tus e o Hyzer. Acabei por não entrar logo na Andamento porque tinha essa cena com os meus amigos de infância. Só surjo na Andamento quando a Wey Chapo deixa de funcionar mais. Falei com o Heartless e com o TrillSeco e eles convidaram-me novamente, disseram que eu seria sempre bem-vindo. Então entrei.

Apesar de tu também produzires, deixaste de lado essa faceta no Arritmia para entregar a tarefa a outras pessoas. De onde vem esta decisão?

Eu queria simplesmente incluir no EP o máximo de nomes que eu conseguisse. Peguei no Heartless, que é um músico fantástico e super evoluído. O TCS é um dos meus artistas favoritos e meu amigo de infância. E peguei também nos meus produtores favoritos — deixei de parte alguns com quem eu adorava colaborar mas que não consegui. Incluí o Nedved, cujo instrumental foi o Heartless que me mostrou. “Mano, queres entrar?” “Ya, bora nisso”. É incrível. O Nedved é um produtor super talentoso e, eventualmente, vai fazer jus ao nome. Tenho também o GUIRE, na “Largos”, que é um produtor muito melódico e completo, que acabou por dar à faixa uma vida que seria impossível ela ganhar sem ele. O Sobras é um produtor da Andamento que ainda não lançou muitas coisas, mas apenas porque é muito underrated. Ele é muito bom e fez um grande trabalho na “Estar à Vontade”.

Meteste o dedo em algum desses beats depois de os receberes ou aceitaste completamente a visão dos produtores?

Eu pouco ou nada peguei na produção. Apenas ajustei algumas partes para ficarem ao meu jeito. Foi mesmo para dar oportunidade aos produtores para fazerem a cena deles.

É algo que vai caracterizar os teus lançamentos daqui para a frente? Vês-te mais focado em trabalhar as letras e as melodias da voz do que com a produção?

Eu tenho andado a produzir para o Damas, que é um rapper aqui de Lisboa. Mas não me vejo no futuro enquanto produtor. Eu adoro produzir mas aquilo que eu gosto mesmo é de compor. A parte mais lírica da música é mesmo a minha parte favorita. Poder exprimir alguma coisa através de palavras e que as pessoas possa sentir aquilo que eu estou a tentar transmitir. Por isso, respondendo à tua pergunta, acho que sim. Vejo-me a focar apenas na parte mais lírica e melódica das músicas. É o que mais me atrai nisto.

Desse pessoal todo que juntaste para o EP já percebi que alguns deles são teus amigos, com quem convives quase diariamente. Mas houve aqui também um papel importante da Internet, no sentido de te ter possibilitado conhecer novos colaboradores ou até fazer a ponte com aqueles que vivem mais afastados de ti?

Exactamente. O GUIRE conheci através da Internet. Ele fez um remix da “Borboleta” e eu adorei. Quando eu fui falar com ele agradeci-lhe e disse-lhe que já seguia o trabalho dele — ele tem uma versão muito boa da “A Vida Toda” da Carolina Deslandes. Ele começou a mandar-me beats e eu gostei de tantos que até já estamos a fazer um outro EP, que sairá depois do Arritmia. Com o andar da carruagem é que fizemos a “Largos”. O Nedved foi outro gajo que eu também conheci na net. Os contactos começaram, já não me lembro, ou pelo xtinto ou pelo Palazzi. O Sobras, apesar de ser da Andamento, eu nunca o tinha visto, ele é um desaparecido [risos]. Mas ele trabalha tanto com o TCS e eu acho as produções dele fantásticas… Acabámos por colaborar também.

Apesar de seres um artista que ainda está a emergir a nível nacional, tenho visto pelo Instagram e pelo Twitter que actuas com regularidade por toda a Zona Centro, sempre perante plateias bem compostas e muito efusivas.

Estar na Zona Centro é bom e é mau, ao mesmo tempo. Por um lado a Zona Centro é pequena e, por isso, existe pouca oferta, então nós somos mais ouvidos. Mas tem a parte má de não conseguirmos passar para fora. Isso é o que falta. Mas eu não me posso queixar no que toca ao público de Coimbra, porque sempre foram super carinhosos connosco e sempre nos aceitaram. O nosso nome é sempre chamado para festas e, portanto, a Zona Centro tem sido uma benção. Estou feliz por ter crescido lá.

Tu lanças o EP já no sábado [a entrevista aconteceu quinta-feira, dia 13 de Junho] mas não o antecipaste com nenhum single.

Sim, nenhum destes temas foi para a net. Lancei a “Palavras”, numa versão mais pequena. Achei que ainda havia algo por dizer e, então, decidi fazer a segunda parte e incluí-la no EP. Tem toda a lógica o tema fazer parte do EP. É a descoberta de um amor que se vai desenvolver ao longo do disco.

Mas estás a pensar promover o projecto com algum videoclipe, por exemplo?

Sim, nós queremos incluir a componente visual. Mas mais tarde. Queria primeiro que as pessoas ouvissem e sentissem, antes do apoio visual. Estamos a trabalhar agora em vídeos para todas as músicas.

Uma espécie de video-disco?

Exactamente. Vamos fazer dois lyric videos, para a primeira e última faixa, e dois videoclipes, para a “1 a Dividir Por 2” e para a “Largos”.

Tu além deste trabalho a solo estás também ligado à Trifecta, uma equipa de produtores/compositores criada pelo 11 LIT3S. Como é que isto apareceu na tua vida?

Isto começou há dois anos. Eu conheci o 11 LIT3S à toa. Ele andava pela Praia da Tocha, que é um sítio onde nós vamos sempre no Verão. Ele estava por lá e nós decidimos ir falar com ele, mas ninguém sabia quem ele era. Até que ele nos diz que também faz música. “Wow, bacano”. Na altura eu estava com o l0tus e com o Hyzer e nem pensámos muito mais nisso, até que chegamos a casa e vamos ouvir a “LAU”… Foi basicamente o nosso hino durante um ano inteiro. Passado esse ano, no Verão seguinte, eu estava numa festa e era preciso ajuda para carregar umas colunas para casa. Eu fui, ajudei a carregar, e quando lá chego está lá o 11 LIT3S. Fiquei parvo. Fui falar com ele, “então, está tudo bem? Ainda te lembras de mim?” “Ya, lembro-me, do ano passado.” “Fantástico. Não sei se sabes, mas o Hyzer agora anda a produzir”. Mostrei-lhe uma produção dele e o 11 convidou-nos a fazer uma studio session com ele. Fomos para casa do l0tus e estivemos lá todos a produzir. Enquanto isso eu estava a escrever para as produções, que é o que nós fazemos sempre, é a nossa cena. O 11 pergunta-me se eu também consigo escrever em inglês. “Ya, consigo”. Então escrevi em inglês e ele gostou tanto que acabámos por criar essa equipa de produção e composição.

Então, dentro da Trifecta, a tua tarefa passa apelas pela composição da letra?

Exactamente. É esse o meu papel dentro da Trifecta. Apesar do 11 me apoiar imenso enquanto artista, e até me ter pedido para actuar com ele, que é um projecto que vai continuar, é na composição que eu me foco na Trifecta, porque acho que é, provavelmente, a parte em que sou mais forte. Penso que ele também tenha visto isso em mim.

Ao ouvir os resultados desta fase que atravessas, que culmina agora com a edição do EP, noto que estás a seguir uma escola muito específica e, ao mesmo tempo, menos óbvia. Em vez de te inspirares tanto no que nos chega dos States, sinto que andas mais atento àquilo que se passa, por exemplo, em Toronto. Como é que te defines musicalmente neste momento?

Eu não te consigo dizer que estou dentro de um género musical, porque eu próprio não o sei definir. Para te dar uma resposta, apontava para algo como trap/soul/r&b. É mais ou menos a onda onde eu me insiro. Mas eu não gosto de escolher um género musical, porque eu gosto de experimentar tudo. Depois do Arritmia, por exemplo, é capaz de demorar muito tempo até eu voltar a falar de amor. A parte boa do hip hop é ter tantos sub-géneros para explorar, que eu não posso dizer que vou querer assentar em algum deles. Há muito mais para vir.

Presumo que estejas sempre a experimentar coisas novas, um passo à frente. Há pouco até já me falaste de um outro EP que estás a fazer com o GUIRE…

Enquanto estamos a lançar o Arritmia já existem outras faixas prontas para sair. Mas esse próximo EP, todo produzido pelo GUIRE, abrange vários estilos musicais. O EP é sobre as quatro estações do ano, cada música é uma estação. A “Primavera” é um boom bap, a “Verão” será um hip hop mais experimental, a falar sobre um tema forte, uma doença terminal. A “Outono” é a mais comercial e tenho de agradecer ao benji por ma ter misturado. A “Inverno” é um r&b/boom bap em que falo sobre a morte do meu avô. Será um EP que passa por vários estilos de música.

Apesar de sentir que já tens a coisa bastante adiantada, presumo que não lances esse próximo EP logo a seguir ao Arritmia.

Vou deixar este EP respirar. Eu quero mostrar-me como um artista que consegue lançar um projecto completo para depois continuar a lançar mais projectos e as pessoas já estarem à espera disso.

Isso já são vários passos à frente. Na volta até já começaste a idealizar aquilo que virá a ser o teu álbum de estreia.

Eu sou muito à base do ProfJam. Eu só lanço um álbum quando sentir que está mesmo na altura. Vai ser quando eu sentir que já consigo estar completamente bem na música, bem comigo, bem com o meu estilo, ao ponto de fazer uma coisa tão inovadora que vai deixar as pessoas a ouvir do início ao fim e a querer repetir. Só quando chegar a essa fase é que penso nisso.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira