Holly Hood e a força da Linha da Azambuja em mais uma noite C.R.E.A.M

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTOS] Sara Coelho

 

Hits atrás de hits e graves a perpetuarem-se pelo piso de baixo do Lux. O cenário parece devastador, mas não: a Superbad e a Linha da Azambuja acabaram de invadir um dos espaços mais icónicos da noite lisboeta e mandaram – não literalmente, como é óbvio – a casa abaixo. O Dread Que Matou Golias está na linha da frente dos melhores álbuns de rap nacional de 2016 e ao vivo pudemos assistir à confirmação do que ouvimos na versão de estúdio, ficando claro que é caso sério a seguir com atenção redobrada.

O relógio marcava 01:30 quando as portas do piso de baixo do Lux Frágil se abriram e o nosso anfitrião, DJ Glue, nos deixou à vontade na pista com habilidade e a mestria típicas de quem não é um rookie nestas andanças. Uma remistura de “I Love Kanye” foi um dos pontos altos do warm-up, mas Pusha T também deitou a língua de fora e o sistema de som emanou bragadoccio durante alguns segundos. A introdução perfeita para o que viria a seguir.

Here’s Johnny foi o primeiro da equipa a posicionar-se em campo e bastou um clique para meter a casa – que estava bem composta para receber Holly Hood – em sentido: “O Meu Nome” a abrir o alinhamento e a demonstrar a confiança patente nas suas próprias palavras: “Eu não nasci pa’tar incógnito”. O lugar na sombra de Regula que tinha vindo a ocupar ao lado de Here’s Johnny começou-se a desvanecer com ODQMG, mas o MC da Superbad decidiu voltar a clássicos dos dois volumes das mixtapes Kara Davis e ainda dar um brinde ao público com uma versão diferente de”Mad Com Esta Shit”, faixa pertencente a Gancho.

“Esta é a primeira vez que actuo na minha cidade”, referenciou várias vezes Holly Hood nos intervalos entre músicas. A aula de história estava dada e agora era altura de passar aos novos clássicos. Lit, dope ou straight fire são comentários do Youtube que normalmente vemos por sons de hip hop que incendeiam a audiência, salvo seja, e encaixam perfeitamente na sonoridade de Holly Hood. O sistema de som do Lux Frágil ajudou e as produções incríveis de Here’s Johnny soaram perfeitas, conseguindo projectar todas as qualidades e camadas presentes nas construções sónicas.

 


2


No Money foi o primeiro convidado a subir a palco e não desiludiu, recriando na perfeição o seu verso em “Cartas da Justiça”. A Superbad esteve em força – ainda se lembram do título? – e 9 Miller, MC que conquistou notoriedade na Liga Knock Out, subiu a palco para mostrar uma faixa ainda não editada e que só deverá ver a luz do dia num futuro trabalho. “Qualquer Boda” não teve Regula em palco, mas nem foi preciso. O primeiro single a ter saído do álbum de Holly Hood foi um dos momentos mais celebrados pelo público.

“Este é para o filho de outra mãe e um dos melhores rappers que conheci”, contou-nos Holly Hood antes de tocar “Panorama”, música que conta com a voz de Short Size, rapper que faleceu e pertencia à Superbad Records. A conquista do rap nacional pela crew é a maior homenagem que Regula, Here’s Johnny, Holly Hood ou 9 Miller poderiam prestar ao MC. Um momento de introspecção no Lux Frágil a acalmar os ânimos durante alguns instantes.

Apesar da primeira parte d’O Dread Que Matou Golias ser uma obra bastante coesa, existem duas canções que são, sem sombra de dúvida, clássicos instantâneos do hip hop português: “Fácil” e “Cobras e Ratazanas”. A primeira tem instrumental soturno de Here’s Johnny a encaixar perfeitamente na segunda noite de Setembro, deixando o Lux eufórico a celebrar a tragicomédia do romance bem latente em “Fácil”.

“Eu não tive adormecido na favela, bro“, relembra-nos Holly Hood em “Cobras e Ratazanas”. Se nunca tivemos um trabalho de longa-duração por parte do MC da Linha de Azambuja antes, a única razão possível seria a procura do som que encaixasse na perfeição na forma como rima e escreve. A espera acabou e ainda se lembram do cenário devastador? É esse o efeito do beat completamente insano produzido a meias por Here’s Johnny e Holly Hood, refrão orelhudo de Bigg Favz e a escrita ácida do MC.

 


3


Depois de um início onde o público lisboeta e o artista ainda estavam a criar laços, o final perfeito só poderia ter dedo de Here’s Johnny com “Cúmplices”, música nova do produtor, a consumar uma relação que se espera duradoura no hip hop nacional.