Holly Herndon na Culturgest: olhos nos olhos com um futuro assustador

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTOS] Vera Marmelo

Cinco corpos aparecem em palco, à vez, e rapidamente tomam posições. Três mulheres vestidas com trajes inspirados na classe baixa da era vitoriana formam-se à esquerda, um homem de preto situa-se atrás das máquinas e Holly Herndon, a protagonista, situa-se estrategicamente a meio terço do palco: esta não é a formação típica de um espectáculo de electrónica, mas na passada quinta-feira, na Culturgest, o cenário aceitava tudo menos o convencional e o esperado. Herndon, compositora e uma das vozes mais destacadas da música experimental, regressou a solo português para apresentar PROTO, o seu mais recente álbum, editado este ano. Aterrorizante, desafiante e até um pouco macabro, o concerto foi uma viagem sem medo ao futuro, acentuando de maneira firme as relações interpessoais entre performer e espectador, máquina e ser humano.

PROTO rapidamente demonstrou que era um projecto ambicioso, que pretendia como sua premissa estabelecer uma ponte entre o passado e o futuro da composição musical humana e a música automatizada, introduzindo pela primeira vez um elemento pouco convencional: um robô de inteligência artificial. Spawn, como foi baptizado, ajudou na criação de melodias através de processos de treino vocal e looping. No álbum, é bem possível ouvi-la em faixas como “SWIM”, “Godmother” e em momentos de treinos como “Canaan” e “Evening Shades”.

Lisboa não sabia bem no que se estava a meter, mas, de qualquer maneira, mostrou-se curiosa, com uma sala quase cheia para assistir à mestre por detrás de uma ideia tão distópica. A artista chegou com um ligeiro atraso, devido a problemas com o som, mas chegou em força, ainda com um começo tremido. “Birth” foi um início nervoso e confuso, com várias partes da produção a serem cortadas e reproduzidas várias vezes, e a passagem para “Alienation” soava a uma camada de som abstracto, pouco tangível, e de imaginação finita. No entanto, foi em “Eternal”, que a festa se assentou e as primeiras reacções da audiência começaram a manifestar-se. A verdade é que era impossível reproduzir este disco ao vivo de maneira idêntica à versão de estúdio, até porque um elemento essencial estava a faltar: Spawn ficou nos Estados Unidos a “matutar nos números”, como Holly nos disse. A opção aqui foi entregue a Mathew Dryhurst, um dos progenitores da máquina, que com a ajuda de cordas e samples pré-gravados, conseguiu um resultado bastante idêntico – o que realçou o núcleo central das canções, tal como foram criadas. Mas a própria Holly teve uma mão pesada nesta execução: enquanto passava de um lado para o outro no palco, certificava-se de que cada batida, cada ritmo, cada produção vocal eram exactamente executadas sob o seu domínio – desde guiar as vozes de fundo até à programação, tudo passava por ela. Nos exercícios vocais, as três mulheres tomavam o centro – Evelyn Saylor, Franziska Aigner e Albertine Sarges mostravam-se aptas para acompanhar Holly, recebendo fortes aplausos por parte do público e por parte da artista também. Em “Canaan”, as três saltavam entre falsettos e ópera barroca, enquanto Holly rosnava como uma tempestade. Em “Evening Shades” o resultado foi idêntico.



“Frontier” foi uma pura catarse. O que começou como mais um instante sublime, belo e acappela transformou-se num monstro composto por grandes e umbrosas batidas electrónicas, insanas prestações vocais que preenchiam a sala por completo, e duras sobreposições ambientais que, ao mais ínfimo pormenor, nos remetiam para algo feito por Arca, ou até mesmo SOPHIE. Ao redor, a expressão das pessoas transparecia uma confusa contemplação, mas sempre com satisfação e interesse. Holly tinha criado à nossa mira um universo cósmico, um corpo cheio de si mesmo onde a magnitude das suas criações falavam tão alto que o seu efeito ecoou os quatro cantos da sala. Desapareceram aqui os embaraços e as austeridades que outrora classificavam o seu trabalho e que foram agora substituídos por grandes refrões cheios e cor e textura. Ela, por sua vez, estava mais livre, cheia de carisma e, até na conversa de circunstância, ria-se com maior facilidade.

A própria interacção com o público foi mais orgânica. Após “Fear, Uncertainty, Doubt”, Holly  — executado somente com a ajuda de programação electrónica da voz — quis que o público participasse: “Já que a Spawn não está cá, queríamos gravar as vossas vozes para que o nosso sistema de I.A. aprendesse com elas. Por isso, podem repetir depois de mim?”, pediu. Nem todos estavam convencidos, mas com calma se fizeram ouvir e juntaram as vozes em uníssono e, mesmo com algum receio, repetiam frases marcantes sobres transcendência humana e espiritualidade – “o meu espírito se elevará. Em cima, estaremos seguros”. Cada vez que Holly falava com o público, havia uma certa conscientização daquilo que ela queria de nós; tal e qual como se estivéssemos a ver um filme e a personagem principal quebrasse a quarta parede e captasse subitamente a nossa atenção. Pela última vez, solicitou que na última canção nos deixássemos ir: que nos levantássemos e dançássemos livre e freneticamente.

Em “Fade”, o único tema cantado do primeiro álbum da artista, o recinto da Culturgest transfigurou-se numa festa apocalítica, onde não havia certezas se alguma vez iria acabar. Poucos se atreveram a sair do lugar para jogar um ou dois passos de dança – até porque a própria arquitectura do sítio não permitia –, mas aqueles que efectivamente o fizeram levaram o melhor de quase oito minutos de música de um universo distante. Situações modernas requerem soluções modernas e Holly sabe apresentá-las num formato distorcido, futurista e deveras aterrorizante. Isto é música que ouviremos daqui a muitos anos, quando ultrapassarmos os limites mundanos que definimos nesta era e deixarmos de percepcionar a arte como algo palpável. Isto é música que ouviremos antes de morrer, ou então com a nossa mente ligada a um corpo robótico. Podemos ainda não saber o que nos acontecerá daqui a muito tempo, mas Lisboa teve um vislumbre graças a Holly.


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