Holly Herndon deu à luz um bebé de inteligência artificial e ensinou-o a cantar

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTO] Boris Camaca

Herndon é uma verdadeira máquina. Com apenas 16 anos, a artista era fluente em programas de computação, sistemas de edição de som e música techno. Por volta da mesma altura, embarcou em vários programas de intercâmbio entre Tennessee e Berlim, cidade que ainda hoje visita com frequência e pela qual tem uma grande admiração e carinho. A música foi-lhe apresentada dentro de um meio académico, uma disciplina para a qual tinha de estudar, como matemática, biologia e física, facto até compreensível: durante a sua estadia na Universidade Mills, na Califórnia, Holly especializou-se em sonoplastia, com um major em produção e música electrónica, concluindo pouco tempo depois o doutoramento na mesma área no Centro de Investigação de Informática em Música e Acústica. A música dela tem, à superfície, uma imagem distante e meramente objectiva, mas, para quem ouve com atenção, existe uma humanidade como nunca antes alcançada neste contexto: Herndon desenha e limita a linha entre a complexidade da experiência humana e a conjuntura da evolução tecnológica, uma fronteira que é ainda alienista, ignota, mas ao mesmo tempo desafiante ao ponto de atrair cada vez mais artistas a conhecer o seu interior; ora, não só ela se atira de pés e cabeça para este vácuo, como sai de lá viva para contar como foi.

Na sua discografia, a inovação é o elo de ligação que passa de álbum para álbum, de música para música, de programação para respiração humana. Em Movement, de 2012, temos a retroactividade do género techno e experimental dos anos 90; Platform, lançado três anos depois, é mais visionário, contendo a primeira música alguma vez registada em formato de Resposta Sensorial Autónoma de Meridiano. O álbum foi recebido com críticas mistas, acusando-a de criar uma visão oblíqua e baralhada da música contemporânea, enquanto tentava no mesmo sentido manter-se fiel a composições vanguardistas que variavam entre um avant garde de Laurie Spiegel e os esforços fonéticos de Tim Buckley. Já PROTO, editado este ano, é um filho de ouro de Holly: para além de se manifestar como um trabalho inteiramente concebido às luzes do positivismo informático, é ainda tecnologicamente o mais aventureiro da sua mestria. O álbum surgiu com a criação de Spawn, um programa de inteligência artificial, feito em parceria com o seu amigo de longa-data, Mat Dryhurst, com o objectivo de “humanizar” a relação entre humanos e robôs. Numa entrevista à FACT, Herndon fala dos processos de gravações como “importantes”, tendo sempre em conta a participação de outras pessoas dentro do estúdio. O resultado é deveras aterrorizante, pois com o desenrolar das 13 faixas, a distinção entre homem e máquina torna-se ténue e a sua interpretação ainda mais difícil de agarrar.

Pegamos em “Frontier”, por exemplo, a faixa mais cismática do disco: a obra inspirada no canto dos Apalaches de Sacred Harp, uma longa tradição acappella, originária das comunidades cristãs americanas. Aqui temos uma única voz, sem qualquer adorno, que rapidamente percorre uma escala vocal, como se estivesse em plenos ensaios. É claro que o som provem de gargantas humanas; no entanto, é serrilhado e comprimido de uma maneira que só poderia ser fruto de um processamento digital. A costura não é clara: não há nenhuma camada artificial para descascar um único momento da canção, apenas fracções e fracções de folk interdimensional, até o glissando se dissipar no canto humano. É um instante único: uma maneira de representar vocalização humana, mas com um controlo pleno de uma máquina, que acaba por não ser reduzido por ela: “[A música] parece uma espécie de luta colectiva universal, razão pela qual em parte a concebi como uma ferramenta de sobrevivência e resiliência. É um contexto entre humanos e tecnologia: os primeiros cânticos algumas registados com os aparelhos que permitiram tal acontecimento”, acrescenta ainda.



Em PROTO, embora os tratamentos vocais pareçam futuristas, o disco baseia-se em puro desenvolvimento e empenho humano. Aliás, em “Canaan” e “Evening Shades”, é-nos possível ver essa colaboração entre duas entidades, que, durante muito tempo, se tinham como antagónicas. Holly tira parte do seu tempo para ensinar Spawn a cantar, num exercício de reprodução de faixas de áudio e de revibração das mesmas. A ela está Evelyn Saylor e Annie Garlid, duas professoras de fala e colegas de Holly, que guiam a máquina entre pausas e notas musicais. Há um processo de aprendizagem nestas sessões, algo que parece pavoroso – especialmente quando temos em consideração a rapidez com que estes corpos de fios e redes informáticas assimilam conhecimento -, mas Herndon está sempre um passo à frente e pretende manter este domínio.

Estes métodos de aplicações musicais remontam-nos para o final dos anos 60, quando a pioneira em sintetizadores Wendy Carlos e a sua parceira de composição, Rachel Elkind, passaram a voz da última através de uma máquina desenhada para comunicações telefónicas. O resultado foi, anos depois, adoptado na banda sonora de A Clockwork Orange, de Kubrick, em 1971 — para os mais atentos, há uma interpolação da nona sinfonia de Beethoven perfeitamente incorporada por uma voz robótica adaptada à instrumentalização sintetizada. Desde então, processadores de voz espalharam-se a partir da década de 70 e 80, sempre de uso notável por mulheres. Em 1980, Laurie Anderson implantou uma série de filtros digitais orientados para criar o seu tão famoso “arrasto vocal“. Em 1998, Cher lançou a tecnologia auto-tune para o mainstream em “Believe”. Nos dias de hoje, os “ciborgues” musicais são alguns dos artistas mais inovadores que temos neste campo de ação: FKA twigs, Fever Ray, Charli XCX, Arca, e SOPHIE. O facto de nenhum destes nomes ser o de um homem branco aponta para um impulso transgressivo do género em abrir fronteiras percepcionadas pelo corpo de fugir ao repressivo e ao mundano.

É claro que estes anos de evolução parecem uma extensão inevitável aos enormes sistemas de actividade humana, mas a inércia da aniquilação assusta. Em “Extreme Love”, Holly oferece-nos um conforto ao imaginar um universo onde o natural e o tecnicismo funcionam como um corpo holístico – partes de um todo que se movem não por causa da vontade individual, mas lentamente por uma motivo colectivo e orgânico. Na verdade, é tão humano querer mais – querer efectivamente além da capacidade humana – e tão humano para não entender na sua plenitude tal desejo: vozes juntam-se numa só e a solidão leva-nos a ficar menos isolados. O espectro de morte lacera PROTO. Se ouvirmos a última faixa, “Last Gasp”, a produção apocalíptica abre caminho para o que há de mais vivo nos ouvintes. Herndon não está interessada em pregar o fatalismo; fala-nos, em contraste, de um pathos derradeiro, um caminho para ela e os seus seguidores terem em mente enquanto percorrem o trajecto da vida. Leonard Cohen disse-nos uma vez que existe uma racha em tudo, pois é a única maneira de a luz entrar. Holly abre sem problemas essa frincha e mostra-nos a ideia de uma realidade utópica não muito abstracta, onde estamos a cantar. E estamos felizes, de alguma maneira.


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