Holly: “Eu vejo muito da minha personalidade no Slow J”

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [FOTO] Blackspace Studios

“Encontrar” é o primeiro single de Avenal 2500, o novo EP de Holly que sai este mês pela editora Deadbeats. MadeinLx x Elohim.atoms assinam o videoclipe.

Slow J coloca voz no instrumental de Miguel Oliveira em mais um encontro entre dois dos maiores talentos de uma geração — “Fome” ou “Teu Eternamente”, por exemplo, são hits certificados com o selo da dupla.

Conversámos com o produtor sobre a relação com João Batista Coelho, a criação da canção e o conceito do vídeo.



Quando é que este tema foi feito? É o resultado de uma daquelas sessões promovidas pela Sente Isto?

Este tema começou [a ser feito] por volta de Maio/Junho do ano passado e foi concluído em Janeiro deste ano. Não foi resultado dessas sessões, embora tenhamos feito muito mais ideias a partir daí. Basicamente isto foi um beat que tinha passado ao Slow J há cerca de um ano e por volta de Maio ele enviou-me uma demo que, embora tivesse sentido bué, nunca pensei em acabar para um projecto meu. Mais tarde, quando estava a terminar o meu EP para a Deadbeats, pensei em acabar aquela demo e incluir neste meu novo projecto.

Já trabalhaste algumas vezes com o Slow J. Como é trabalhar com ele? É alguém que facilita sempre o trabalho ao seu companheiro?

Para nós é fácil trabalhar um com o outro porque, para além de sermos fãs um do outro, somos grandes amigos, o que facilita tudo muito mais. Eu vejo muito da minha personalidade no J, por isso é fácil trabalhar com ele — a nossa energia é muito semelhante e percebemos-nos muito naturalmente. Às vezes, quando estou a trabalhar, penso que o Slow J podia ser a minha versão rapper, porque a maneira como ele aborda a música e as mensagens que passa são por vezes situações que me assentam que nem uma luva.

Para ti faria sentido lançar um EP (ou álbum) colaborativo com o João? Achas que existe essa química entre vocês?

Ya, nós já falámos/pensámos nisso. Quando o timing for certo, e se o universo o permitir, será feito com todo o gosto.

Fala-me um pouco sobre a construção desta faixa e como é que se encaixa no EP em que está incluído. Existe uma ideia transversal a todo o trabalho ou são um conjunto de temas soltos?

Eu sinto que este EP é quase que um “statement” ao som por onde tenho viajado nos meus últimos anos, assim como o passo a dar nos meus próximos tempos. É uma mistura de todas as direcções sonoras que tenho explorado até hoje. O EP em si vai mais nesta direcção bass/experimental/sound design/dubstep/industrial noise que amo, mas também tem bastante rap e senti que para completar este projecto tinha que incluir algo que representasse as minhas origens e a minha cultura. Mesmo a própria capa do EP é a casa onde eu morei basicamente toda a minha vida nas Caldas da Rainha (mais propriamente no bairro Avenal — o código postal é 2500). É um tributo ao sítio de onde venho. Por isso, respondendo à tua pergunta, esta faixa é super importante no projecto porque é a ponte do EP entre onde estou actualmente e as minhas origens, sendo que esta faixa representa toda a minha cultura portuguesa neste projecto.

O videoclipe vai ao encontro da temática da música. Se não me engano, é o teu primeiro em nome próprio, não é?

Ya, eu fiz umas brincadeiras com o Tamura e o Harold há uns anos. E existem outros videoclipes, que foram uma brincadeira, para outros projectos, mas sinto que este é mesmo o meu “primeiro” a solo.

Como é que chegaram a este este resultado? Partiu de algum conceito teu?

Há 1001 mensagens neste tema, mas a que é mais presente é a luta infinita que tens com os teus objectivos versus a tua felicidade. Outro dia vi num artigo este conceito chamado “A disciplina de gratificação adiada”, que representa um pouco da minha vida musical e acredito que também um pouco da vida de toda a gente que trabalhou neste som. Eu sou uma pessoa que ambiciona muito na minha vida e quero conquistar muito e sempre que atinjo algo (que embora fosse muito longínquo para mim há uns tempos) fico sempre insatisfeito e só penso no próximo goal e em todo o trabalho que tenho que fazer para atingir a próxima meta. Todo este sentimento de insatisfação é cantado pelo J através das palavras, “sempre tanta coisa para pensar… nunca encontrar nunca encontrar”, e é representado pela incrível coreografia do Tomás. Pode parecer abstracto, mas a escalada do Tomás neste clipe é uma metáfora a todos os objectivos que vais conseguindo na tua caminhada, mas, quanto mais sobes na vida, mais percebes que ainda há muito mais para conseguir, e acabas por cair neste momento de confusão e insatisfação contigo mesmo porque os sonhos nunca acabam, assim como o teu trabalho para os alcançar… Eu e o J tínhamos este conceito connosco porque é algo que temos vivido. Quando partilhei com o Miguel MadeInLx e com o Tomás, eles tiveram esta ideia que não poderia ter sido melhor executada.

O que é que podemos esperar do teu EP? Suponho que vás entrar por caminhos que não se cinjam ao rap.

Tal como já mencionei, o EP é um misto de várias sonoridades que fazem parte da minha vida, desde desta parte mais rap e chill a texturas mais experimentais e abstractas. O EP tem quatro faixas e conta com a participação de três outros produtores — Little Snake, Nasty Nasty e Young Sidechain — e ainda tem a participação do Young Lyxx numa das faixas (mais esta do J, claro)! É o primeiro passo de uma longa caminhada que tenho pela frente. Estou super optimista, vai ser uma jornada cheia de grandes momentos.