Hip hop tuga: onde e quando nasceu o termo que designa a cultura em Portugal?

[TEXTO] Ricardo Farinha [ILUSTRAÇÃO] César Furtado

O nome que damos às coisas é importante. O vocabulário e a semântica também, sobretudo numa arte como o rap, onde a palavra desempenha um papel tão vital. Em Portugal, tal como nos EUA, o hip hop nasceu enquanto cultura das ruas. Era um conjunto de artes praticadas nos meios urbanos, sobretudo por adolescentes e jovens adultos que consumiam o pouco que chegava do estrangeiro. Mas que foi suficiente para os influenciar a sério.

Mal sabiam eles que estavam a criar algo tão importante como o hip hop tuga. O mesmo hip hop tuga que hoje, 8 de Março, é o grande cabeça de cartaz na Altice Arena, em Lisboa — a maior sala de espectáculos do país inteiro. Depois de funcionar como formato especial no Sumol Summer Fest, A História do Hip Hop Tuga acontece em nome próprio. O mote é simples: são 40 nomes a representar 25 anos de história.

Ace e Presto, Bispo, Black Company, Bob da Rage Sense, Boss AC, Capicua, Carlão, Chullage, Dealema, Deau, Dillaz, General D, GROGNation, Holly Hood, Micro, NBC, Nerve, NGA, Piruka, Phoenix RDC, ProfJam, Sam The Kid, Sanryse & Blasph, Sir Scratch, SP & Wilson, Tekilla, Tribruto, Vado Mas Ki Ás, Wet Bed Gang e Xeg foram os rappers eleitos para esta edição do formato. Participam ainda os DJs Nel’Assassin, Kronic, Cruzfader e Bomberjack, além das crews de breakdance 12 Macacos e Gaiolin City Breakers. Vão estar ainda por lá os históricos writers Nomen e YouthOne a representar a vertente do graffiti.

É, com certeza, uma celebração histórica da cultura hip hop em Portugal e do particular momento feliz em que ela hoje vive. Neste momento, o termo “hip hop tuga” pode estar a encabeçar o cartaz da Altice Arena, mas o que importa neste artigo é dar uma perspectiva sobre como é que chegou até lá. Não o hip hop português, atenção, mas o termo “hip hop tuga”.

Diz a lenda que foi D-Mars, por sinal um luso-croata, o primeiro a usar a expressão. Na verdade, o rapper e produtor dos Micro inicialmente dizia “hip hop portuga” — tanto que no início do milénio lançou a compilação Hip-Hoportuga 2000.

“Nos Micro dizíamos, já em 1997 ou 1998, ‘hip hop portuga’. Fui eu o primeiro a usar a expressão, que me lembre”, diz D-Mars ao Rimas e Batidas. “Mas não reclamo nem nunca vou reclamar a invenção do termo porque, especialmente em culturas como o hip hop, que são de rua, nunca sabes se alguém já estava a usar numa outra parte de Lisboa ou noutra parte de Portugal.”

Os Micro — que, além de D-Mars, eram compostos pelo rapper Sagas e o DJ Nel’Assassin — tinham como grande bandeira a cultura hip hop. A sua crew, a Microlândia, fundada em Carcavelos, na linha de Cascais, tinha até os quatro elementos da fundação da cultura. Nos seus concertos no final dos anos 90 — editaram o álbum de estreia, Microestática, em 1999 — era comum que, entre músicas, quase pregassem sobre a cultura nascida no Bronx nos anos 70.

“Usávamos muito a expressão nos concertos e como um termo habitual nas entrevistas. E mesmo antes de 1999 usávamos nas intros dos sons. Hoje em dia tudo é mais polido, mas na altura dizíamos muitas coisas antes de começarmos a rimar: 40 mil ‘yo’s’ e coisas assim. E dizíamos bastante ‘hip hop portuga’.”

DJ Kronic, que vai actuar na Altice Arena, confirma ao Rimas e Batidas: “Quando penso no termo ‘hip hop tuga’ penso no D-Mars. E também porque ele fazia a parte de hip hop tuga no [programa] Submarino, quando saiu o José Mariño.”



O termo culminou na compilação Hip-Hoportuga 2000. “Foi a primeira vez que nós, Mundo Complexo, gravámos o que quer que seja”, relembra DJ Kwan. “E já era um termo que na zona usávamos entre nós, tenho a ideia de que surgiu do D-Mars.”

D-Mars é da geração da Rapública, a primeira compilação de rap português, editada em 1994. Participou com o seu grupo da altura, os Zona Dread. Quem também fez parte desse trabalho histórico foi Boss AC, que também falou com o Rimas e Batidas sobre o assunto. “Não me lembro quando foi a primeira vez mas creio que a geração Rapública já usava essa expressão, ainda que de forma não ‘oficial’.”

Não tem a certeza sobre se terá sido D-Mars o primeiro a usá-la, mas também não desconfia. “É provável que sim. Mas não consigo dizer com certeza quando e quem apareceu com a expressão.”

De forma natural — até porque a língua é viva e vai evoluindo — “hip hop portuga” passou simplesmente a “hip hop tuga” — a forma como conhecemos a expressão hoje em dia, e há vários anos. “Foi por volta de 2000, 2001. Sei que houve uma altura em que o pessoal já dizia ‘hip hop tuga’ e nós continuávamos a dizer ‘hip hop portuga’. Foi dois ou três anos depois que o termo se massificou, mas muito mais em Lisboa. Lembro-me bem por causa da minha experiência na rádio, recebia muitas maquetes na Antena 3 e na Marginal. No Porto, que eu me lembre, os MCs não usavam muito esse termo”, conta D-Mars.

Ace, pioneiro do hip hop no Porto e que fez parte dos Mind da Gap, confirma a ideia de D-Mars. O rapper e produtor diz que deve ter ouvido pela primeira vez a expressão no início dos anos 2000.

“Sou do tempo em que, no Porto, tínhamos algum orgulho em inventar o nosso próprio calão, em ser originais a esse nível e não usar expressões importadas da América ou mesmo de Lisboa”, explica Ace. “Pessoalmente, tive alguma resistência a usá-lo por já conhecer a palavra de outro contexto e me parecer estranho. Os meus amigos angolanos usavam a expressão ‘tuga’ para se referir a Portugal. Presumo que tenha sido pela comunidade de descendência africana que o termo tenha entrado no rap nacional. Inicialmente a expressão era quase exclusivamente usada pelos rappers de Lisboa.”

Com o passar dos anos, o termo foi-se massificando e atravessou as fronteiras da Grande Lisboa. “Foi uma expressão que ganhou uma vida muito forte entre os fãs e nós, que o fazíamos. Havia muitos putos que só ouviam rap tuga, não ouviam rap americano, e acho que a expressão ganhou muita força com isso. Os fóruns foram uma maneira de essa comunidade comunicar: não havia Facebook, não havia nada”, diz D-Mars.

A imprensa, que começava a prestar mais atenção ao fenómeno, falava dos rappers de Portugal ou do hip hop nacional. “Hip hop tuga” era um termo que ainda pertencia às ruas e ao meio. Mais tarde as coisas misturaram-se e cruzaram-se, quando surgiram os primeiros sites dedicados à divulgação, como o H2Tuga, que também faria artigos jornalísticos, ou a revista Hip Hop Nation.

Antes do “hip hop tuga”, o que havia?

“Acho que ao início as coisas iam acontecendo e as pessoas não estavam muito preocupadas em dar nomes. E também se generalizou quando começaste a usar o termo ‘tuga’, em si. Quando era puto não me lembro de existir o termo ‘tugas’. Foi uma coisa que apareceu depois”, comenta DJ Kwan.

É um processo constante na língua. As coisas são criadas e só depois de solidificadas algumas bases é que faz sentido atribuir-se-lhe um nome. O mesmo aconteceu com o próprio termo “hip hop”, em Nova Iorque.

D-Mars diz que não se falava de “rap tuga” antes de aparecer “hip hop tuga”. “Chamávamos aquilo simplesmente de rap de Lisboa ou, por exemplo, rap dos Family ou dos não sei quantos”. Boss AC, e este é um jogo traiçoeiro de memória, diz que “rap tuga” pode ter surgido antes. “Penso, ainda que não o possa afirmar categoricamente, que eventualmente o termo ‘rap tuga’ até tenha aparecido primeiro.”

E fala ainda de outra hipótese. “Lembro-me de uma expressão que usava com alguma frequência (acho até que a gravei algures): Tuga Hop. Mas creio que no início talvez dissesse ‘rap português’ ou ‘hip hop português’.”

Ace partilha da mesma ideia: começou por simplesmente dizer rap ou hip hop nacional — ou português. Só mais recentemente é que o MC de Vila Nova de Gaia começou a usar, de vez em quando, “hip hop tuga”. “Para facilitar a comunicação nas redes sociais, basicamente. É muito raro usá-la oralmente e 90% das vezes que o faço é em conversa com pessoal de Lisboa.”

A história foi feita ao longo de 25 (ou mais) anos e continua a ser criada todos os dias em mixtapes, álbuns, compilações, singles, programas no YouTube, podcasts, programas de rádio, battles de que vertente for, pinturas, movimentos de dança, técnicas de scratch ou de beatbox, entre várias outras expressões de arte. A diferença é que, de uma forma ou de outra, tudo agora está sob o enorme ̶ chapéu cap do termo “hip hop tuga”. Boss AC sintetiza bem a coisa. “É uma forma rápida e directa de nos referirmos ao hip hop nacional, made in Portugal. Veio para ficar.”


Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha
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