HIFA: “Portugal está a rebentar de criatividade por todos os cantos”

[TEXTO] Vasco Completo [FOTO] Direitos Reservados

Era dia de Natal quando HIFA, produtor português actualmente sediado na Holanda, lançou o seu EP homónimo. Em 3 dilatadas faixas – todas a rondar os 10 minutos –, Francisco Couto desenvolveu progressivamente as três fases da reprodução sexual dos fungos que inspiram o seu nome artístico.

Num esforço mais ponderado, perfeccionista e trabalhado, o beneditense não se limitou a explorar os géneros que o fascinam, tentando constantemente trabalhar com a fusão do “infundível”, como nos confessou. Entre o techno e o ambient, sem descurar o house, HIFA apontou para vários destinos sem nunca escolher um fim, estilisticamente falando.

O centro é o sintetizador e a exploração da progressão estrutural lenta da sua música. As etiquetas não lhe ficam bem, já que não se revê em nenhum género de maneira fechada. E é normal: afinal de contas, vê a sua música como “uma resposta a estímulos exteriores mundanos que o rodeiam”.

Ainda sem data prevista, HIFA será editado em formato físico pelas Edições Fauve, agrupado ao álbum que o antecede, Were A Boy, lançado no Bandcamp no Verão passado. Falámos com o produtor sobre o EP, a dinâmica artística de pertencer a diferentes colectivos, criação, estilos e biologia.

 



De onde surge este teu fascínio pela biologia que dá nome ao teu projecto?

Quando andava no secundário, no curso de ciências, das coisas que mais gostei de aprender foram os fungos. Não sei bem porquê, as hifas foram das coisas que ficaram mais preservadas na minha memória desses tempos e que mais me fascinaram, e quando estava à procura de um nome para mim enquanto artista, que tentasse expressar a minha relação com a música, esse conceito pareceu-me apropriado. Então, ligado a isso, comecei a procurar um tema para o meu primeiro projecto mais sério e foi assim que este EP surgiu, em 2016. Fungos são incríveis, somos bons amigos.

Decidiste encarar de maneira mais séria a tua produção para este EP, como referes no teu Bandcamp. O que mudou no teu processo criativo, ou mesmo na tua produção?

O que pretendo com este EP é encerrar um ciclo que começou há cerca de um ano, no qual cresci imenso enquanto artista. A forma como vejo os meus projectos futuros está mais paciente e serena, com mais atenção a detalhes, coisa que me tem faltado muito até agora, sou uma pessoa muito impulsiva neste aspecto, quero logo deitar as músicas cá para fora quando sei que as posso melhorar. Não sei se sonoramente vá ocorrer efectivamente uma grande mudança, parece-me algo mais interno que direccionado para o exterior, mas isso só saberei no futuro. Espero eu…

Entre estas diferentes fases que constituem a reprodução sexual dos fungos – a mesma forma como divides o teu EP – dá para sentirmos três estados/ambientes relacionados, coesos entre si, mas também distintos, com BPMs variados. Em HIFA exploras muito esta sonoridade apoiada nos sintetizadores. Ainda pretendes expandir muito o âmbito de géneros ou estilos na tua produção?

A primeira versão que tinha deste EP, feito em finais de 2016, era bastante diferente, só a “Meiose” é que continua igual. Em relação às outras, deixei de me identificar tanto com elas portanto resolvi recomeçá-las do zero, pegando no mesmo tema, daí ter também esse conceito de fim de um ciclo tão ligado a este EP. Mas tentei sempre criar uma ligação entre as músicas, só que por representarem fases tão diferentes da reprodução acabam naturalmente por soar a uma progressão de acontecimentos, traduzidos para música de forma um pouco diferente entre elas. Eu quero expandir o máximo possível a nível sonoro! Enquanto não sentir pertencer a um género musical específico (apesar de ultimamente tanto o techno como o ambient terem chamado mais por mim), sinto-me na total liberdade explorar estilos muito diferentes. Sempre gostei da ideia de tentar fundir algo que à primeira vista parece infundível, é das coisas que mais me diverte enquanto faço música.

O cómico sample da voz de Future, vinda da “King’s Dead”, o que faz ele na “Meiose”?

No dia em que ia dar o meu primeiro concerto, numa festa de warm-up do Caldas Late Night (que acabei por nem dar), um amigo meu desafiou-me pela piada a samplar essa parte do verso e meter numa música (na altura essa música tinha atingido o potencial máximo de meme). Fiz essa brincadeira em 15/20 minutos, e gostei tanto que assim ficou. É um exemplo perfeito da forma como vejo a minha música: uma resposta a estímulos exteriores mundanos que me rodeiam.

Como sentes que te influenciou trabalhar com a Au Largo ou com a Mansão Diversão?

Tudo relações de amizade. A Mansão Diversão começou como uma brincadeira com os meus colegas de casa e melhores amigos, e acabou por representar (pelo menos para mim) uma espécie de colectivo que incluiu todo o meu ciclo de amigos que a ele queira pertencer, seja a nível artístico, seja só existindo nas vidas uns dos outros e tornando-a melhor e mais divertida. Sempre foi um pouco abstracto, mais uma brincadeira que algo sério, mas na última edição do Caldas Late Night resolvemos apresentar-nos enquanto Mansão Diversão e criámos uma plataforma para que muitos amigos, que eu considero excelentes artistas, se pudessem expressar, tanto a nível sonoro como plástico. No fundo é uma família que se apoia muito. Foi dos dias mais divertidos e das experiências mais DIY que já vivi!

Em relação à Au Largo, tive muita sorte. Num momento em que estava a começar a querer começar a dar uns concertos, dois amigos meus resolveram criar um colectivo de produção de eventos e booking de artistas e perguntaram se eu queria fazer parte enquanto músico. Junto a mim vieram mais alguns artistas e amigos super talentosos e dedicados, e criámos essa família que está progressivamente a crescer e tornar-se mais ambiciosa e com mais qualidade. Estamos todos num patamar semelhante, ainda a começar, e essa viagem é feita muito melhor se não formos sozinhos.  Graças a eles dei cerca de dez concertos este ano em salas que respeito imenso como o Zaratan e o Titanic Sur Mer. A base da maioria dos artistas a meu ver acaba por ser este tipo de famílias que nos apoia e nos motiva a continuar a melhorar, enquanto nós fazemos o mesmo com eles. Também tenho muitos outros amigos que me ajudam com os seus projectos, a Beatriz Cosmos fez as ilustrações das minhas últimas duas capas dos álbuns e é uma pessoa com a qual me vejo continuar a trabalhar para sempre, e existem também as Edições Fauve, a editora pela qual vou lançar o formato físico deste EP, criada por artistas super criativos que não param de me surpreender. Simbiose perfeita, todo este ambiente repleto de boa gente que faz boas coisas faz-me acreditar que vamos todos juntos a algum lado.

Quais são as tuas maiores influências?

Epá, isso é complicado porque as minhas influências passam por ser toda a música que oiço regularmente, e eu oiço estilos bastante diferentes. As minhas músicas são quase feitas com recortes de detalhes que me lembro de músicas que adoro. Ultimamente, o que se tem demonstrado mais nas minhas músicas a meu ver é Can, Animal Collective, Aphex Twin e LCD Soundsystem. Mas bandas e artistas como Radiohead, Yves Tumor e Kendrick Lamar, por exemplo, não deixam de estar na minha cabeça quando componho. E há ainda o factor influência da música dos meus amigos. Comecei a ficar interessado por música mais “experimental” e ambient quando dois amigos que conheci na faculdade começaram a lançar material muito bom desse género. Sinto um peso enorme da parte deles no meu processo criativo.

Tencionas trabalhar com alguns artistas em específico no futuro? 

As pessoas que mais me têm fascinado têm sido o Deidra Corp, o Zé Sousa, Caldas da Rainha, e o Janrik, um amigo que tem feitos umas cenas incríveis mas que ainda não as deitou cá para fora. Enquanto música for algo que me faz sentir bem, faço com quem quiser fazer! Tenho tido muitas “parcerias” com muitos amigos, alguns com quem faço música desde sempre, e quero continuar a trabalhar com eles, que são com quem me sinto mais confortável a trabalhar apesar da maioria acabarem por ser só brincadeiras. Mas brincadeiras também têm o aspecto positivo de poder “javardar” à vontade e explorar muitas coisas novas. Não tenho nada em mente concretamente a nível de parcerias, estou aberto a tudo, há talento em todo o lado. Portugal ainda tem muito para desenvolver no que toca a valorizar artistas portugueses, este país está a rebentar de criatividade por todos os cantos e às vezes é preciso estar mesmo no meio para nos apercebermos disso.

Vais passar HIFA para algum outro formato? Seja ao vivo, em formato físico, em vídeo…

Vou lançar soonish um formato físico duplo que incluí os meus dois últimos projectos, Were a Boy e HIFA, pela Edições Fauve. Vai ser limitado a 40 cópias, feitas com muito amor e dedicação. Também tenciono fazer uns videoclips, mas isso logo se vê.

 


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