Hélio Batalha: “Karta D’Alforia é um disco que tem a alma de um jovem cabo-verdiano bastante preocupado com o mundo”

[TEXTO] Bruno Martins [FOTO] Direitos Reservados

Foi na semana passada que Hélio Batalha, uma das figuras de proa do rap crioulo, regressou a Portugal com o propósito de mostrar no B’Leza, em Lisboa, o seu primeiro disco de longa-duração, Karta D’Alforia. Depois ainda houve tempo para descer até Sines, ao Festival de Músicas do Mundo, onde foi convidado a subir ao palco com Lura.

Foi há dez anos que Hélio Batalha, de 28 anos, arrancou com a carreira que já conhece também três mixtapes: dois volumes de Golpe Di Stadu e Selva de Pedras. O concerto do B’Leza, que aconteceu no dia 27 de Julho, contou com um convidado de peso: Karlon. O encontro de duas gerações crioulas: o mais novo, Hélio Batalha, que nasceu e cresceu em Ponta D’Água, na Ilha de Santiago; e o mais velho, Karlon – fundador dos Nigga Poison – que nasceu em Portugal, mas que é filho de pais cabo-verdianos, que se juntou a esta conversa para explicar que o rap de Hélio Batalha é um retrato fiel e actual do país. “Um rap consciente”, diz Karlon.

Além de se dedicar à música, Hélio formou-se em Serviço Social, algo que, diz, ajudou a dar-lhe a tal consciência sobre muitos dos problemas socio-culturais que aborda neste Karta D’Alforia. Uma conversa sobre o disco, sobre as pontes entre Cabo Verde e Portugal, sobre o hip hop na terra da morabeza com o rapper Hélio Batalha que é também o vice-presidente da Associação Movimento hip hop de Cabo Verde.

 



Hélio, trazes a Portugal o teu primeiro disco de longa-duração: chama-se Karta D’Alforia. Como é que apresentas este álbum?

É um disco dinâmico, de mensagens, de sonoridades variadas. É um disco que vem com Cabo Verde, com Praia, com Ponta D’Água, que é onde eu vivo… traz as vivências, as minhas observações, aquilo que eu sinto nas minhas pessoas e na minha comunidade. Mas vem com muito mais do que isso: vem com África, com o Mundo, as minhas observações do Mundo actual. É um álbum que traduz a humanidade, uma proposta de liberdade com uma carta de alforria onde o amor é a pedra que falta para nos libertar. Falta-nos amor.

Já tinhas feito umas mixtapes antes deste disco.

Sim, já lá vão três mixtapes: Golpe de Stado I, em 2010; Golpe di Stadu II, em 2012 e Selvas de Pedras, de 2014. É a mesma sequência de mensagens: a observação da sociedade e colocada num rap bastante crítico.

Ainda assim: como é que este Karta D’Alforia te apresenta?

É um disco que me satisfaz muito. Consigo ouvir todos os dias e ficar surpreendido com o que fiz! Amo estes 18 temas como se fossem filhos, porque dei tudo de mim. É um disco de muita observação e análise, muita lírica, mas com bons feelings. Eu editei-o no ano passado e, com o primeiro single  “O ki fomi txiga”, ganhei o CVMA [Cabo Verde Music Awards] de melhor hip hop/r&b. Este ano ganhei o prémio Artista do Ano em Cabo Verde, nos prémios Somos Cabo Verde, onde estavam nomeados artistas como o Nelson Freitas e o Lula’s – Cachupa Psicadélica.

E em 2017, ano em que estás a celebrar dez anos de carreira.

Isso mesmo. Comecei em 2007 – também com música de intervenção social. Este é um disco que tem a alma de um jovem cabo-verdiano bastante preocupado com o mundo e o people ‘tá a sentir isso, ‘tá mesmo a galá a mensagem – e eu preocupo-me com isso, com uma lírica que chegue a todas as camadas da população.

 



Karlon: como descreves o rap do Hélio Batalha?

[Karlon] Eu já o ouço desde 2013… ele tem uma coisa muito boa: conscious, o rap consciente que quando estamos a ouvir estamos a aprender qualquer coisa, a mostrar que há outros caminhos. É um rap de intervenção, que aconselha os jovens a correr atrás das coisas e ele é uma prova viva de que quem o faz consegue atingir os objectivos. É um orgulho ver rappers como o Hélio Batalha com essa força, com conteúdo. Cada vez mais a malta sai de Cabo Verde para a Europa à procura do sonho e muitas vezes esse sonho não é correspondido… há que vir com os pés bem assentes na terra: são precisas mais pontes entre Portugal e Cabo Verde – somos todos uma família toda unida.

Há uns meses conversámos sobre o teu último disco, Passaporti, e na altura contaste-me que nestes teu 37 anos de vida foste poucas vezes a Cabo Verde, à terra dos teus pais….

[Karlon] … Estive lá em 2010.

O rap do Hélio também tem-te servido como um retrato actual de Cabo Verde? É um retrato fiel para quem está fora do País?

[Karlon] Claro! Ele é o retrato actual de Cabo Verde! Do que eu ouço, eu sinto que ele tem a visão real de lá. O meu disco vem com um conteúdo mais histórico e ele tem um retrato mais actual. É um jovem presente, activista.

Hélio: Cabo Verde tem dez ilhas – uma não habitada – e cada uma delas com identidades muito próprias. Qual é o papel do hip hop, hoje em dia, em Cabo Verde? Unificador ou demarcador das diferenças?

Todas as ilhas são diferentes: Santo Antão é diferente de São Vicente; São Vicente diferente de São Nicolau; São Nicolau da Boa Vista… e lá vai! Eu nos últimos dois anos já actuei em todas as ilhas habitadas; já fiz grandes concertos, já estive no festival Baía das Gatas, em São Vicente… E em Cabo Verde há, há muito tempo, uma pequena rivalidade entre os habitantes de São Vicente e os habitantes de Santiago – eu não me recordo de MCs ou rappers que tenham ido tocar à Baía das Gatas… eu talvez tenha sido o primeiro e o público recebeu-me de forma incrível!

E porque é que achas que isso aconteceu?

Porque sentem na minha música que eu não sou de Santiago: sou de Cabo Verde, de África, do Mundo. Eu quando vou a São Vicente sinto-me no meu quarto, sinto-me em casa! Tenho amigos em São Vicente e uma das minhas preocupações, em todas as mixtapes, foi trabalhar com MCs de São Vicente. Eu sempre fiz essas pontes, seja para São Vicente ou para o Norte do País. O meu actual produtor é de Santo Antão; este Karta D’Alforia tem 70 por cento das produções feitas por dois jovens de São Nicolau. Essa é a minha preocupação: ser de Cabo Verde no geral: fazer o people sentir que eu não sou o gajo da Praia, de Ponta D’Água, do gueto, que é bairrista! Eu não sou bairrista: sou cabo verdiano!

 



Qual é a fotografia que tiras do teu país? Revelas a cores ou a preto-e-branco?

Está a colorir-se: há muita coisa positiva, muita coisa negativa… mas é um país que está em mudança. É um país muito recente, com 41 anos de independência… está a criar alicerces para evoluir e mostrar-se ao mundo! Mas estamos a dar cartas em várias vertentes, a ir para fora e mostrar o que é Cabo Verde.

Nos últimos anos tens-te dedicado a tempo inteiro à música e ao rap. Mas tu formaste-te e trabalhaste em Serviço Social. Isso faz com que estejas muito por dentro da realidade cabo-verdiana e que ajuda na altura de escrever as tuas rimas?

Sim, acredito que sim. Mas antes de começar a trabalhar em Serviço Social eu já tinha a visão crítica da sociedade. Talvez tenha sido o rap a pôr-me a fazer Serviço Social. Ajudou-me bastante e até hoje ajuda, todos os dias. Não só no rap, mas na vida. O que eu faço transcende o rap: é aquela coisa da mensagem e do amor. O rap ensinou-me várias coisas, o rap ajudou-me a complementar e a ver as coisas de outra forma. Mostrou que podemos mudar o mundo com o rap – e com tudo o que se faz com amor. Aprendi muito com artistas como o Karlon e o Praga, que eu escutava bastante na minha adolescência como Nigga Poison; e outros artistas como Boss AC, o Valete, o Chullage… são artistas que me ensinaram muitas coisas sobre como ser e estar na vida.

 



O Karlon participou no teu concerto no B’Leza. Como é que surgiu esta ideia?

Quando a Ana Zé [Ana José Charrua] – que promoveu o concerto – me sugeriu o Karlon eu respondi “Graças a Deus!”. Foi incrível ter o Karlon ali. Significa muito para mim: significa que aquele puto que saiu de Ponta D’Água e que ama o rap está a evoluir, está a chegar perto dos grandes!

Karlon: o Hélio veio agora a Portugal. Quando é que voltas tu a Cabo Verde?

[Karlon] Estou à procura de financiamento para ir filmar o tema “Cabo Verde” nos sítios históricos, tal como interpreto no tema. Quero conhecer esses sítios, perceber a minha cultura, as origens.

O Hélio, no regresso a Cabo Verde, também vai fazer uma forcinha para levar até lá o Karlon?

Sim, eu neste momento sou o vice-presidente da MH2CV – Associação Movimento hip hop de Cabo Verde. Já há dois anos que fazemos várias iniciativas, este ano teremos mais, e pode ser que surja uma oportunidade! Se der para levar o Karlon e outros artistas daqui de Lisboa, com certeza que o faremos!

Como está o movimento hip hop em Cabo Verde, Hélio?

Há muita gente nova, bons MCs. O hip hop em Cabo Verde está a sair da fase embrionária, está a sedimentar-se, a conquistar novos públicos. Os mais novos adoram rap, os meus maiores fãs são as crianças. A gala em que eu ganhei este ano, Somos Cabo Verde, foi por voto popular! Está a ter uma evolução tremenda e espero que a saga continue!

 


Bruno Martins

Sou jornalista desde 2003. O hobbie da música vem de garoto e há um bom par de anos que cruzo tudo em papéis. Tudo se mistura nesta mixtape cheia de scratches que é a vida.