A pista de dança é um lugar de excessos, mas há quem prefira aproximar-se dela em bicos de pés. É o caso de Harry Styles. Kiss All The Time. Disco, Occasionally., o quarto álbum do ex-One Direction, leva a premissa do título à letra, cumprindo a máxima de oferecer música para dançar apenas… ocasionalmente. Inspirado nas formas do funk, da disco e da eletrónica de apelo pop, o novo disco do inglês transparece esse desejo de unir pessoas em torno de uma pista, mas fá-lo recusando quase por completo a linguagem hedonista que a habita. Em vez da euforia e do abandono físico que estes espaços convocam, opta por uma contenção que, embora elegante, raramente se transforma em catarse.
Assim, a linguagem universal da dança é servida, mas em doses cautelares. A patine é brilhante, os acabamentos são irrepreensíveis e os arranjos eletrónicos exibem uma produção cuidada e asséptica. Contudo, o esqueleto das canções permanece demasiado rígido, preso a estruturas pop convencionais que raramente se deixam contaminar pelo risco ou pela desordem. Styles revela-se discreto, não fazendo mais do que insinuar o impulso dançável que anuncia. Em vez de se atirar de cabeça para a pista, prefere rondá-la com prudência, como quem observa a festa de longe, nunca se entregando plenamente à vertigem. O resultado é um disco bem comportado, sem a liberdade do corpo em movimento — algo que Dua Lipa soube convocar com particular eficácia em Future Nostalgia, disco de reinvenção onde a artista mergulha nas formas sintéticas do house e da disco, trazendo-as para o centro de uma pop musculada e declaradamente nostálgica.
O arranque é promissor: “Aperture” abre o livro de estilo de Jersey para entregar uma mensagem universal (“We belong together”, ouve-se no refrão), mas o impulso raramente se traduz em êxtase. “American Girl”, logo a seguir, é balada pop em estado de graça: cândida, de acabamentos lustrosos e com um gancho simplista mas imediatamente memorável. É também um dos raros vislumbres de luz no decurso do álbum. A partir daí, o percurso é invariavelmente descendente. Gravado em parte nos estúdios Hansa, os mesmos onde David Bowie concebeu a histórica trilogia de Berlim, Kiss All The Time. Disco, Occasionally. aposta numa abordagem mais exploratória à composição, mas acaba por esbarrar na apatia, no vazio lírico, na falta de nervo e de ideias fortes. O que resta é um eco auto-referencial de influências, como se o músico temesse romper a barreira do previsível.
É o que acontece em “Taste Back”, bateria galopante sobre uma sequência de arpejos incandescente, com uma voz a mover-se entre a dúvida e a aceitação. “Ready, Steady, Go!” alimenta-se do mesmo garbo rebelde dos Rapture, mas não vai além de uma melodia de teclado semi-avariada. O díptico de baladas “Coming Up Roses” e “Paint By Numbers” coloca-o de novo em território familiar, acrescentando-lhe arranjos que rompem levemente com a homogeneidade. Já “Dance No More” invoca outras vias ao introduzir coros de vozes e um swing devedor do léxico funk-soul de Mark Ronson, mas o corpo rítmico não chega para disfarçar o carácter ingénuo dos seus versos. “Carla’s Song”, já no fim, ainda ensaia uma última respiração, mas chega tarde demais: por esta altura, o balão já esvaziou.
Em “Losing My Edge”, James Murphy (voz dos norte-americanos LCD Soundsystem e influência maior na conceptualização deste disco) antecipava um futuro em que bandas trocariam guitarras por gira-discos. Corria o ano de 2002, numa altura em que o punk e a eletrónica viviam uma inesperada lua-de-mel (eram os anos arrojados do electroclash, ainda antes de os movimentos bloghouse e new rave tomarem forma). Ao abandonar o formato tradicional de canção em favor de texturas sintéticas, Harry Styles não chega a operar uma ruptura total com o passado, mas fica um pouco mais perto de oferecer um bom disco pop.