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Fotografia: Manuel Abelho
Vídeo: Manuel Abelho

Três anos depois, Tudo Tem Seu Tempo sucede a Indiana Jones.

Harold: “Escrevo sobre as minhas vivências, coisas do mundo real”

Fotografia: Manuel Abelho
Vídeo: Manuel Abelho

Depois de Indiana Jones, Tudo Tem Seu Tempo. Harold, uma das peças do verdadeiro motor de Mem Martins que é o grupo GROGNation, acaba de apresentar o seu segundo trabalho, marcado pela chegada a uma editora da “primeira divisão”, pelo trabalho com um profissional de méritos reconhecidos como é Conductor e por uma escrita mais elaborada, reflectida e adulta.

Harold tem noção do seu lugar no mundo, do seu tempo, e a escrita aponta para um processo interior de auto-questionamento, de auto-crítica, o que traduz naturais dores de crescimento e não exclui uma vertente mais tranquila e lúdica que também encontra espaço neste trabalho. Musicalmente, há mais balanço tropical a registar, sinal de uma movimentação maior que se tem sentido na cena urbana nacional, uma espécie de assumir de raízes que nem sempre foi coisa óbvia no rap português. Tudo isso merece discurso directo da parte de Harold que recebeu o Rimas e Batidas no quartel-general dos GROGNation em Mem Martins, um laboratório onde têm vindo a ser testadas algumas das ideias mais frescas da cena hip hop nacional.
 

Vamos começar pelo facto deste disco marcar a tua chegada a uma major. O que é que isso implica? Que responsabilidade é que isso te coloca nos ombros daqui para a frente?

Em termos de peso, eu tento ao máximo que não haja qualquer tipo de pressão quando estou a fazer a minha música. Tento sempre que seja o máximo fluído possível. Tenho certas coisas que tenho de cumprir, mas nada vai contra o que eu sempre fiz, nem contra os meus ideais e da minha maneira de fazer música, e isso é o mais importante de tudo. Isto surgiu quando eu estava na antiga agência e chegou a uma altura em que eu estava a preparar o meu álbum — estava praticamente feito em Maio — e tentava perceber como é que eu iria fazer em termos de promoção, porque no Indiana Jones não tive. Foram só os contactos que eu tinha. Foi uma promoção muito leve. Então desta vez eu queria ter esta parte melhor entregue. E, como sempre me foquei muito mais na parte de fazer música, de criar em estúdio, senti que estar com a Universal permite-me focar ainda mais nessa minha parte e, pelo menos, ter uma entidade que consiga trabalhar na promoção. Fazer com que a música chegue ao máximo de pessoas, que no fim do dia é algo que me interessa, gostando ou não, mas que consigam ter essa experiência. Tive as primeiras reuniões, ouviram grande parte de uma versão anterior, mas era muito do que se ouve agora no álbum. Algumas faixas não entraram, mas grande parte delas já lá estava. A partir daí foram as reuniões e chegar a um acordo que agradasse às duas partes.

Esperas, portanto, que isto te permita também maximizar o alcance da tua música. Sentes que é a tua estreia na primeira divisão?

[Risos] Por acaso não penso nisso. Eu sempre fiz tudo sozinho na minha carreira individual. Com GROGNation sempre tivemos outras pessoas a tratar, e eu não queria em nenhum momento estar a envolver o que tenho sozinho com GROG, de estar ali a fazer uma mistura, sempre quis que os dois tivessem o seu espaço para respirar. O Papillon tem a Sente Isto e eu também queria ter algo completamente independentemente do meu grupo, que não fosse atrapalhar e influenciar em nada. Surgiu essa necessidade de ter uma entidade que tratasse de mim sem ter nada a ver com GROG. Não sinto essa questão da primeira divisão [risos], mas sinto na questão de estar com profissionais que conseguem tratar de uma parte que eu sei que não faço tão bem.

Por falar nisso, nos profissionais de que te rodeaste neste trabalho, é impossível não falarmos no Conductor e no papel que ele aqui teve. O Conductor tem, e eu já tive oportunidade de o entrevistar a esse propósito, um trabalho que é bastante valorizado noutros países e mercados mas que é uma coisa relativamente recente por cá, alguém que traga este olhar de fora e que ajude os artistas a alcançarem o seu máximo potencial. Como é que foi trabalhar com ele?

Eu tive para trabalhar com o Conductor no Indiana Jones. Eu conheci-o há uns anos, estávamos no trânsito e o Factor disse, “olha, está ali o Conductor”. Estava um trânsito enorme na IC19 e alguém disse, “bora lá entregar um CD”, que na altura era o Dropa Fogo. Nós saímos do carro, eu e mais alguém, fomos a correr no trânsito, ele abriu a janela, deu-nos o props, demos-lhe o CD e voltámos para o carro. Foi o primeiro contacto que eu tive com o Conductor. Passados bué anos, já quando eu estava a começar a fazer o Indiana Jones, ele disse-me para passar lá no estúdio, conversámos e depois é que surgiu a ideia dele fazer esse acompanhamento num álbum. Começámos a fazer o trabalho, só que entretanto foi o mesmo momento em que os Buraka estavam na fase final, a fazer tour final e tudo mais, então o Conductor não teve muito espaço e eu acabei por fazer o álbum praticamente todo sozinho, sem qualquer tipo de direcção… sem um olhar de fora. Fiz mesmo tudo sozinho. E a única pessoa que fez a pós-produção de algumas músicas foi o Here’s Johnny e a mistura foi o Khapo. E entretanto quando comecei a fazer este álbum é que voltei a falar com o Conductor e disse, “olha, já que no outro não conseguimos trabalhar, era fixe começarmos agora mesmo do início”. Quando tive as primeiras músicas é que fui falar com ele. Fui lá, apresentei a ideia, disse-lhe, mais ou menos, a linha que eu gostava de seguir, para ter esse acompanhamento dele, essa visão de fora de uma pessoa em que eu confio muito. E entretanto fomos trabalhando e a coisa foi fluindo naturalmente, tanto que ele sente aquilo como dele também, e eu sinto que me transmitiu uma visão… ele teve uma influência não só a nível do que eu fiz no produto final, mas também a nível de motivação e inspiração, de mostrar-me que as cenas estavam a andar bem. Aquele apertar, aquele ser chato, ser um bocadinho picuinhas, às vezes ouvir isso de uma pessoa que está a acompanhar o teu trabalho sabe ainda melhor e o Conductor teve também muito essa influência.

Na prática, como é que isso se manifesta? Ele teve uma palavra a dizer na escolha de beats. Está contigo em estúdio e diz, “experimenta esta melodia na voz em vez daquela”? Como é que a coisa acontece?

Eu faço as músicas por mim, arranjo os instrumentais, o que ele ajuda mais é, por exemplo, nas questões de canto. Eu este álbum, ao contrário do Indiana Jones, estou um bocadinho a cantar mais e ele ajuda-me nesse sentido, tanto a orientar-me nas notas, em questões de afinação. E mesmo questões de eu vir com um refrão e ele sugerir-me uma troca de palavras ou duplicar-se o refrão.

Ele é o afinador de pianos…

Sim, sim. “Olha, se calhar metias mais um verso” ou “se calhar a música até aqui já está boa” ou “uma guitarra aqui ficava fixe”. Esses pequenos pormenores que eu muitas vezes posso pensar para algumas músicas, mas houve vezes que eu não tive essa visão, mas o facto dele dizer e nós experimentarmos já começou a fazer sentido. E ele conhece músicos muito bons, como é o caso do Gerson Marta, que tocou guitarras e baixo em grande parte do meu álbum, que também chegou e deu um toque muito fixe. Ele teve sempre ao meu lado mais na parte de gravação e na pós-produção. Na parte da criação eu sempre vim aqui para o estúdio, criava sozinho as melodias, as ideias das músicas e depois é que íamos limando.

Fala-me um bocadinho da escolha de beats. O disco está, acho eu, super contemporâneo, tem um toque afro, um toque brasil, tem um toque soul, enfim, consegues ali explorar diversas nuances. O que é que presidiu à tua escolha de beats? Do que é que foste à procura e porque é que trabalhaste com quem trabalhaste?

Eu queria ter cada vez mais sonoridades que me ligassem ao sítio de onde eu vim — eu nasci em Moçambique. Queria pôr isso mais na música. No Indiana Jones não pus muito e com GROG já temos uma linha vincada. Eu gosto de estar constantemente a desafiar-me e a experimentar coisas novas com que eu me identifico. Nesse sentido, eu conheci o FRXH, que produz 80% do álbum, só há quatro músicas que não são produzidas por ele. Nós começámos a trabalhar e a ideia inicial era ser um EP só comigo e com o FRXH. Depois a cena foi avançando e decidimos fazer um álbum. Só que entretanto eu fui buscar um beat do Migz, que produziu uma música do álbum, “Do Fim”. Mostrei ao FRXH e ele disse, “isso é ganda som, era fixe pores no álbum”. Entretanto, como o Migz mora ao pé de mim, comecei a passar mais vezes tempo com ele, começámos a criar muito mais músicas naturalmente e fomos descobrindo mais cenas que ficavam fixes. Aí eu decidi abrir o leque, não ficar só com o FRXH, apesar dele ser mega versátil e trazer vários tipos de vibes. Grande parte dos beats são dele porque consegue ter essa vibe afro, ele produz isso muito bem, muito naturalmente, que é mesmo a praia dele. Grande parte dos beats foram de sessões em que ficávamos a fazer os beats e eu, “boy, deixa esses drums assim”. Ele tocava um sample, “uh, experimenta lá pôr assim”. E as cenas iam-se sempre ajustando e, apesar de eu não ser um beatmaker que está ali mesmo a fazer, senti que houve algumas faixas em que eu pedi especificamente uma coisa e ele conseguiu fazer mesmo como eu idealizava.

Olha, no presente já não basta um MC cuspir só no microfone, tem que ter essa noção musical, não é? Cada vez mais eu sinto que os MCs estão a trabalhar directamente com os produtores. Isso é uma realidade?

Ya. Eu acho que é importante, pelo menos se queres ter uma sonoridade que é só tua. Eu, pelo menos, não me sinto confortável ainda a produzir. Quando eu era mais novo, antes de rimar, comecei por produzir, mas não me agarrei muito àquilo, deixei a produção e dediquei-me mais à parte da escrita. É bom estar com quem tem essa disponibilidade para encontrar ali um meio termo entre o que eu gosto e o que quero e o que ele gosta e quer. Com o FRXH e o Migz foi muito fácil fazer isso.

Em relação ao abraçar de um lado mais afro: achas que o nosso hip hop se descomplexou a esse nível? O Papi, o Slow, tu, enfim, cada vez mais se vê pessoal que não tem problema nenhum em assumir esse balanço, que vem, se calhar, das memórias que eles têm da música de casa dos pais.

Acho que sim. O pessoal tem perdido cada vez mais esse complexo, mas eu percebo que noutra altura consumia-se o rap dos Estados Unidos e na essência era isso que eles traziam, as cenas mais soul ou jazz — mas fazia parte da cultura deles. Nós, em Portugal, temos muita cultura africana e brasileira. Acho que faz parte e faz todo o sentido metermos isso na nossa música, da mesma maneira que o Sam The Kid samplava fado. Faz todo o sentido. Eu cresci a ouvir Bonga, artistas de Moçambique, kizomba, Matias Damásio, Hugh Masekela, cresci a ouvir isso tudo, que eram coisas que o meu pai, os meus irmãos e o meu tio ouviam em casa e chegou a uma altura em que eu penso, “porque é que eu também não vou incluir mais isso na minha música, se isso faz parte do meu ADN, eu cresci a ouvir isto”. Se calhar não cresci tanto a ouvir fado, apesar de viver em Portugal desde muito novo, o que eu ouvia em casa era mais essa parte africana. Chegou a uma fase em que eu quis incluir cada vez mais isso na minha música. E é o que tem acontecido. Mas acho que é um processo, o pessoal vai quebrando as barreiras aos poucos, e perceber que realmente dá para fazer coisas bué boas e bonitas, e sentes que até tem muito mais a ver contigo e é mais teu.

Sentes que isso é sinal de algum tipo de mudança na nossa sociedade como um todo? Que os próprios artistas sintam essa liberdade para poderem abraçar as suas raízes, já que dantes havia uma certa resistência a essa ideia. “Já basta a minha cor de pele, não preciso de andar a lembrar as pessoas que, além de negro, sou africano”. Quase que se podia ler a coisa dessa maneira. Será que isto traduz algum tipo de abertura da nossa sociedade? Estamos melhor enquanto país?

Eu acho que de certo modo sim. Não falando especificamente do rap. Mesmo a própria kizomba, quando chegou, não teve logo aquela entrada, mas houve uma altura que ouvias em todo o lado, em todas as rádios, nas discotecas, festas africanas, muitos artistas de kizomba a aparecerem cá. É uma barreira que se vai quebrando aos poucos, há a primeira resistência e depois acaba por passar. Não dá para negar: há uma cultura africana forte em Portugal. E cada vez mais os portugueses que não tiveram essa cultura africana acabam por se envolver e a própria sociedade acaba por ser esta mistura, o pessoal vai-se encontrando, vai trocando experiências e vamo-nos interessando pela cultura uns dos outros. Acho que faz com que a própria música também tenha um papel importante na mudança das mentalidades.

 

Tu vês uma ligação entre sentirmos mais sabor afro no que se está a fazer por cá e a Joacine chegar ao parlamento? No sentido de serem dois sinais de um crescimento e abertura. Não estou a dizer que ela chegou ao parlamento porque há gente a usar samples africanos, obviamente, mas que são dois sinais, com pesos diferentes, desse processo que nós, Portugal, enquanto sociedade, estamos a fazer de evolução…

Por acaso nunca pensei assim nesses termos [risos], mas acho que é um processo que não dá para negar. Se a cultura africana está muito presente em Portugal e há muitos africanos, e muitos que nasceram cá filhos de pais africanos e são portugueses, acho que, além terem todo o direito de ter esse espaço no parlamento, é um processo que tem de ser ainda mais vincado. Ainda se está a ganhar esse espaço, não é uma coisa que seja normal. Devia ser cada vez mais normalizada, não devia ser algo estranho e novo.

Tens o Vado, o Papi, o T-Rex, a Marta, o Kalaf e o Azagaia na lista de convidados. Como é que eles aparecem?

Eu já tinha algum pessoal com quem gostaria de colaborar, pessoal com que me identifico. Nesse sentido, o Toy Toy foi um dos boys que eu fazia questão que entrasse no meu álbum. Apesar de eu ter esta ideia, ele só entraria se fizesse realmente sentido. Eu sabia que ele era versátil, sempre rimou em qualquer tipo de beat. Eu quis o “Capoeira” mesmo nesta vibe, cheguei ao pé do FRXH para criar um instrumental e, assim que eu comecei a escrever o som, pensei, “o Toy Toy encaixava-se aqui perfeitamente”. E convidei, juntámo-nos e fizemos. Entretanto, o Papi chegou na outra fase em que eu estava aqui a elaborar o som, a escrever, e ele entrou aqui no estúdio, começou a abanar a cabeça a ouvir o beat e disse-me, “ganda beat“. E eu “ya, é do meu álbum, se tiveres numa, entras aí também, era fixe”. Foi sempre assim muito natural. O Azagaia também foi algo muito espontâneo, muito natural, eu já tinha a faixa em desenvolvimento e, quando nos conhecemos em estúdio, ele conseguiu transportar a música para um outro nível. Realmente a presença dele na faixa fez com que o som se tornasse ainda mais especial. Não só pela pessoa que é, mas também o que ele fez na faixa. A Marta Ferreira foi também em sessões de estúdio. Eu sempre tive o hábito de vir para o estúdio todos os dias, há dias que escrevo, outros que não. Sempre soube que a Marta tinha esse interesse, começámos a juntar mais vezes e a música surgiu naturalmente, fizemos umas quantas. O Kalaf já foi um convite. Eu queria-o para um momento específico da música. Cresci a ouvi-lo a fazer este tipo de participação e quis que o fizesse na minha faixa. Ele trouxe mesmo o que eu esperava, deu o toque certo. O Vado é um artista que eu já acompanho há muitos anos, conseguiu trazer uma energia ao álbum que eu queria ter.

Vamos falar do álbum, em termos da escrita. Sentiste que havia aí uma direcção pessoal que te interessava seguir? Há um conceito, digamos assim?

No geral, o álbum aborda a questão do tempo. Para já, cada um de nós lida com a questão do tempo de maneira diferente. E tudo tem o seu tempo. Como tenho na minha intro, é uma questão de aceitarmos que tudo o que acontece, bom ou mau, é um aprendizado e é um caminho que nós atravessamos até chegar a um certo ponto. E muitas das vezes é o melhor remédio para curar as feridas e ajudar-nos a perceber porque é que certas coisas aconteceram de determinada maneira para que hoje em dia consigamos lidar com uma abordagem completamente diferente. O álbum, no geral, é muito introspectivo e pessoal, eu vou contando histórias e vivências minhas, algumas desmotivantes. E eu nessa desmotivação consegui encontrar uma motivação e foi mesmo através daí, de perceber que as coisas acontecem a seu tempo, e que o próprio tempo ajuda a crescer. Esse é, basicamente, o conceito-base do álbum e tentei até que muitas das músicas tenham essa questão temporal.

Há mesmo muitas referências ao tempo.

Há referência ao tempo que passa e há, como no “Relógio de Sol (Praia)”, a referência ao tempo “atmosférico”.

É impossível não falarmos do “Causa-Efeito” à luz do que se passou com o “BFF”. O tema já estava obviamente escrito antes, pelo que tu me dizias.

O tema já deve ter um ano e qualquer coisa. Mas vês uma relação? [Risos]

Vejo o teu “Causa-Efeito” quase como se fosse uma espécie de reverso da medalha. É como eu leio o tema. E eu percebi, até a própria escrita indica que isso, que a faixa foi escrita noutra altura, mas é impossível não ligar os dois.

Em relação ao tema “Causa-Efeito”, conto uma história da perspectiva em que estamos só a pensar em nós. Sou eu que não estou a ser correcto porque só estou a pensar em mim, não estou a pensar na minha acção e o que é que pode causar. Tem a minha causa, que é o facto de envolver com a pessoa, mas o efeito está na questão de sentir o peso de tê-lo feito. Depois a consequência aparece quando entra o Azagaia e conclui a música. Há duas consequências, o peso emocional e o peso físico, por assim dizer.

O que é que achaste de todo o debate? Debateu-se os limites à criatividade, debateu-se a permeabilidade ou impermeabilidade dos artistas à crítica, debateram-se uma série de questões e, obviamente, debateu-se a representação das mulheres na música. O que é que te pareceu todo esse debate?

Sinceramente, eu não dei demasiada atenção, por assim dizer. Eu tenho essa ideia da arte ser livre. Eu quando ouvi a música não senti o que grande parte das pessoas sentiram. Ele está a contar uma história, que não é uma história que seja impossível de acontecer — e acontece. É verdade que em termos de visuais se calhar chocou mais as pessoas, mas, assim como existem cenas de violência nos filmes e séries que vemos, porque é que isso não pode estar representado num videoclipe, que é uma representação artística? Não foi uma questão de diminuir a mulher, mas foi uma questão de representar coisas que acontecem.

Mas preocupa-te enquanto artista que te venham dizer, “pá, podes falar sobre tudo, menos sobre aquilo”. Achas que corremos o risco disso poder acontecer?

Nunca pensei nisso. Para já, grande parte do que eu escrevo são vivências minhas, coisas que fazem parte do mundo real. E se estou a falar de coisas que fazem parte do mundo real, e se as pessoas nunca lidaram com esse tipo de situações, eu não estou a inventar algo só para criticar ou rebaixar alguém, estou a falar de coisas que acontecem e que existem realmente. Faz ainda menos sentido alguém dizer que eu não posso falar de algo que realmente acontece e é verdadeiro. Por exemplo, o Azagaia, que eu sempre ouvi muito, levava um certo tipo de censura por ter temas de política que chocavam muita gente. Mas ele nunca se censurou e acho que a magia dele também está muito por aí, pelo facto de ouvirmos tanta verdade que ninguém quer dizer. Porque nós sabemos que isto acontece e ali podemos ouvi-lo da forma mais crua e directa. Há um som do Azagaia que se chama “Louca Paixão” em que ele conta uma história sobre abuso de menores. Em que ele conta, quase na primeira pessoa, que está a abusar de uma menor. Uma senhora que tem uma sobrinha que vende aos clientes e o tema conta a história como se fosse ele o cliente a ir abusar da miúda. Ouvi aquilo de uma maneira… O som é genial porque tem ali um twist que te deixa assim meio abananado. Acho genial porque nunca ouvi aquilo daquela maneira e é uma realidade, aquilo acontece, tanto que ele depois no final do som fala de dados estatísticos de Moçambique. Os casos aconteceram, ele não está a inventar, ele está a meter uma coisa que é verdade de uma forma crua para as pessoas ouvirem.

Olha, “Liberdade Capoeira”, um título muito curioso, e que nos faz pensar logo no “Sentimento Safari”. O que é que andam a meter na água em Mem Martins? Isto é a nossa Atlanta?

[Risos] Ya, está a sair muita coisa boa, e acho que há ainda mais coisas para sair que ainda não chegaram ao público mainstream. Realmente há miúdos que estão a aparecer que têm muito skill e são aqui de Mem Martins. Se tudo correr bem, o pessoal também vai ouvir falar. Porque não são só um, dois ou três…

Por falar em Mem Martins e em GROGNation, o sucesso do Papillon mexeu com a banda de alguma maneira? Ou é uma coisa que vos impulsiona?

Nós dizemos sempre, e o Papi diz também, às vezes é como as corridas. Se o boy que está ao lado treina e a corre muito, nós também vamos querer correr mais. Não é uma questão de competir, mas é uma questão de ser um desafio, de sentires que a pessoa que está ao teu lado está a apresentar um trabalho muito bom, está a conseguir as coisas. Acaba por também motivar o resto do pessoal a trabalhar e a elevar cada vez mais a fasquia. Isto de nós termos trabalho a solo foi algo que nós falámos desde o início, que iria existir um período da nossa carreira que o pessoal também ia querer fazer coisas individuais. Nós, como GROG, já temos duas mixtapes, dois EPs, e um álbum. Só a partir do quinto projecto é que o Papi lançou o álbum dele, e eu já tinha lançado o meu em 2016, e a ideia é continuar. Temos o EP com o Sam The Kid que já está muito adiantado e temos mais coisas que vamos fazer. Vai surgir mais trabalhos a solo, não só meus, mas do resto do pessoal.

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