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Fotografia: Direitos Reservados

Repensar o formato e idealizar moldes paralelos para se chegar ao mesmo sítio.

h0b0: “Sei que é pelo fazer o que é desconfortável que se descobrem novas formas de existir”

Fotografia: Direitos Reservados

h0b0, e consequentemente redo, é daqueles projectos que podiam nem ter existido, mas que depois de ouvir parece impossível imaginar a sua inexistência. Dotado duma estética difícil de equiparar a nível nacional, mas que pode fazer ressonância com ouvintes de Bon Iver, Sufjan Stevens, Patrick Watson ou James Blake, o músico Rolando Babo estreia-se com um introspectivo e ambicioso EP de 17 músicas.

Totalmente comandado por h0b0, este trabalho foi arranjado à volta da guitarra acústica de 12 cordas, da voz e do computador. Na estrutura composicional, podemos pensar em Choker ou Tierra Whack, tanto pelo desenrolar narrativo como pela duração das músicas, pequenos átomos que constituem um todo no universo – dá para observar isoladamente mas também na íntegra (que é, sem dúvida, como funciona melhor). A ambição do EP relembra um pouco – à devida escala – a transversalidade de Blonde (com a sua revista Boys Don’t Cry e todo o trabalho visual que rodeia esse disco), seja na cassete ou no site interactivo criado por h0b0.

Mas falar de todos estes pormenores parece, no fundo, uma leitura bastante superficial, ou demasiado técnica, do que é este trabalho, que se compõe com uma escrita musical simples e coesa, particularmente bonita nas melodias e espaços detalhados que cria. Vem duma caixa muito pessoal — é impossível ignorar o sentimentalismo inerente a redo — e isso transparece ao longo destes 15 minutos. “De vez em quando façam coisas que vos assustem”, diz o artista nos agradecimentos do EP, reforçando esta fuga à sua zona de conforto.

Não sabem o que sentir no meio disto tudo, não é? Compreensível, mas Rolando consegue sintetizá-lo em conversa connosco: “Felicidade e amor, insegurança e confusão, ruptura e harmonia”. É desses elementos que se constrói redo.



Este projecto aparece logo com um EP em grande. Fala-nos, antes de mais, do teu background. Como te tornaste no h0b0?

h0b0 apareceu em 2017 para fugir de outras coisas. Um espaço que se criou para continuar a experimentar e para alinhar a minha forma de ver e estar na música. Uma espécie de recreio onde me pudesse divertir sem pensar em limites. Fazer por fazer. Começou por ser electrónica inspirada nos anos 80 com todos os devidos e divertidos clichés e foi-se moldando ao que ia gostando de fazer.

Em Março, na altura de começar a fazer as músicas do EP, pensei que h0b0 era o que eu quisesse ser. Fosse o que fosse. Uma forma de me poder conhecer e expandir através do que faço.

Como se deu a tua relação com a Chilli Pepper Fields e qual foi a sua importância para o EP?

A Chilli é feita de pessoas com quem partilho alguma vida. Desde Lemon Lovers a Bearbug, tours pela Europa a festas no Stop. Acho que somos uma espécie de bom “empurrão” uns para os outros. Cada um vai fazendo por percorrer o seu caminho e ver os outros a andar faz-te querer andar também. O concerto no Sá da Bandeira é um exemplo disso; exigiu esforço e vontade de cada um para que fosse o melhor possível.

Se não fosse o Victor Butuc, este EP provavelmente existiria, mas estaria guardado no meu portátil. A Chilli acaba por ser um compromisso de que é para tentar alguma coisa. Muito grato por os ter por cá.

Há aqui um universo muito etéreo, que é indie, electrónica, mas também tem elementos de hip hop e de folk. Quais são as ferramentas que constroem redo?

redo foi feito com (uma das minhas melhores compras até ao momento) a minha guitarra de 12 cordas, o meu portátil e o meu microfone. Depois da tour de apresentação ter sido cancelada, perdi algum interesse em continuar a construir músicas assumidamente electrónicas. Peguei na guitarra e fui experimentando todos os dias gravar alguma coisa. Ia construindo a base da música e divertia-me a processar as guitarras e a ouvir aquilo infinitamente. Disseram-me, em relação ao EP, que cada música parece uma amostra de uma emoção e, em retrospectiva, percebo o turbilhão que aquela altura foi. Felicidade e amor, insegurança e confusão, ruptura e harmonia. Acho que é isso que faz com que existam elementos de diferentes géneros. Cada um permite explorar outros estados e abordagens.

O trabalho com a tua voz soa-nos a uma junção interessante entre Bon Iver, James Blake, Kanye West e ainda Sufjan Stevens. A própria forma como algumas das estruturas se desenvolvem, e o formato online tão visual com que apresentaste este disco pode relembrar Boys Don’t Cry, a revista de Frank Ocean que nos trouxe Blonde. Reconheces alguns destes como influências tuas? Quem são as figuras artísticas que mais te fascinam?

Gosto muito do que eles fazem. Todos acabam por ser uma inspiração por terem acrescentado novos elementos ao universo artístico e por serem pessoas que tinham algo que lhes é único para dizer e fizeram-se cumprir. Ouvi muitas vezes o For Emma e o Illinois, assim como o Grace, o Parachutes e a discografia do Kendrick [Lamar].

É bom pensar na ideia de que cada pessoa acorda todos os dias, mais ou menos cansada, vai à casa de banho, toma o pequeno almoço e vai fazendo decisões que alinham o caminho que quer seguir. Alguns caminhos levaram a esses álbuns. Espero saber cumprir o meu. E gosto muito de complementar a música com meios visuais. São mais ferramentas para comunicar. O site é fixe por isso. É uma junção de meios que podem ser mais ou menos interactivos e onde podes falar de outras coisas.

[Não conhecia a revista que o Frank Ocean fez, óptima partilha, obrigado.]

A estrutura das canções não parece ser um foco particularmente importante na tua música. Parece, antes disso, que há um maior foco na estrutura do disco no seu todo, e de como estes loops se conjugam entre si. O que está por trás desta concepção característica, de temas tão curtos?

Sempre tive dificuldade em escrever músicas nos padrões de duração considerados aceitáveis. Experimentava acordes na guitarra e depois de encontrar uma melodia e uma letra que fossem a “mensagem” daquela música não fazia sentido, para mim, estar a acrescentar outras partes ou variações se tudo o que eu queria dizer já lá estava. Foi assim que fiz para estas músicas, aceitar o valor da mensagem. São lembretes musicados.

Quando comecei a fazer não pensava em formar um EP, cada música existia perfeitamente isolada. Ao ouvir em playlist no telemóvel é que me apercebi que pareciam uma história. Uma viagem de comboio onde o cenário está sempre a mudar. Acho que resultou bem, podes ouvir a mesma música quantas vezes quiseres porque gostas muito dela ou podes deixar seguir e aproveitas a viagem.

Apesar de serem músicas curtas, os arranjos ao longo do EP são muito cheios. Cada faixa está sobrelotada de timbres. Quando é que sabes quando deves parar de juntar ideias ou instrumentos no arranjo?

Honestamente ainda não sei bem! Sou um bocado caótico na forma de trabalhar. Por um lado, gosto de ir gravando ideias, mesmo que não estejam perfeitas, por capturarem aqueles primeiros momentos onde apareceram, de encher as músicas com coisinhas que acho bonitas para que a cada audição se possa descobrir novas coisas e também gosto de pegar numa guitarra de 12 cordas e experimentar mil e um sons. Por outro lado sei que essa abordagem não me permite resultados mais “limpos” e “orientados” para quem ouve. Tenho muito que aprender e explorar ainda. O facto de ser eu a misturar, que é um processo por vezes doloroso, também ensina a pensar com mais intenção nos elementos com que quero pintar a mensagem. Acho que é essa a aprendizagem. Apurar e refinar a intenção que se coloca nas coisas. Por isso é que há músicas como a “be_until_you_are” e a “if_sorry_misbehave”.

Este redo parece ser um projecto bastante introspectivo e individual. Dás-te bem a trabalhar com outros músicos? Pretendes com h0b0 colaborar com alguns artistas em particular?

É uma energia muito diferente quando tocas ou fazes música com outra pessoa, [exige] compromisso e cumplicidade. Acho que ainda não desenvolvi o à vontade suficiente para me lançar a esse desafio sozinho. Mas sei também que é pelo fazer o que é desconfortável que se descobrem novas formas de existir, de experienciar outras realidades. Gosto da ideia da vulnerabilidade que implica criar e partilhar algo em conjunto. Por isso sim, há muita boa gente a fazer muito boa coisa que terei muito gosto em conhecer.

O que tens planeado para o futuro de h0b0?

Essa pergunta é tramada porque faz pensar qual o próximo passo. Ou qual se alinha melhor.

Tenho algumas coisas pensadas, um lançamento de uma banda sonora, um álbum que é uma carta, outro álbum que já era para ter saído. Se esses planos vão ver a luz do dia quando esperado? Não sei bem. Quero reorientar-me para perceber o que é melhor fazer. Experimentar coisas. Seja electrónica, seja folk, seja vídeo, seja um jogo, seja o que for. Quero continuar a descobrir.

Espero honestamente continuar a partilhar o que faço. Se continuarem a ouvir/ver-me, será um sinal de que estou a cumprir-me. Quero fazer muita coisa; não me perder no pensar.

Conto existir de uma forma mais assídua pelo site: h0b0.me. Obrigado.


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