Guia ReB para o NOS Primavera Sound 2019: olhar para lá do óbvio

[TEXTO] Miguel Alexandre [FOTO] Julian Broad

Junho é o mês das temperaturas altas, dos Santos Populares, dos Casamentos de Santo António, do São João e, nos últimos anos, de novas e cada vez melhores edições do NOS Primavera Sound. Aqui, o foco central é única e exclusivamente a música, que movimenta pessoas dos quatro cantos do mundo e que as faz convergir no mesmo sítio durante três dias no Parque da Cidade. Este ano, o Porto abre as suas portas já amanhã, mantendo-as abertas ainda na sexta e no sábado — dias 6, 7 e 8 — para a oitava rodada do festival e o cartaz que apresenta é de peso. Headliners como Rosalía, Solange e Erykah Badu fizeram com que os primeiros bilhetes esgotassem em pouco dias; mais tarde, com os anúncios das presenças de Interpol, J Balvin e James Blake, o interesse aumentou. A verdade é que o festival desprende-se dos restantes em Portugal devido ao ecletismo com que se apresenta: há géneros para todos os gostos e, primordialmente, um destaque especial a cantores e bandas que não teriam outra grande hipótese de exposição em palcos portugueses. A edição de 2019 não foge à regra e haverá boa música portuguesa, rock, electrónica, r&b e hip hop.

E em véspera do arranque do festival, chegou a altura de arrancar em viagem, confirmar o aluguer do Airbnb e fazer o roteiro do que vai ser possível ver para não escapar nada. Tendo em conta a qualidade dos artistas que vão pisar os palcos da cidade invicta, o Rimas e Batidas faz uma lista dos nomes que merecem atenção e que vão para além dos destaques principais.


[Let’s Eat Grandma] 6 de Junho, às 23h45, no palco Pull & Bear

Estas duas irmãs são uma aposta forte para o futuro da música pop: não só misturam e dobram géneros musicais distintos, como os apresentam de uma forma andrógina e completamente desprendida de qualquer norma. Há momentos industriais, claustrofóbicos e arrepiantes, mas grande parte das suas canções está envolta numa camada caleidoscópica e doce. No fim do primeiro dia do festival, esta será a banda sonora para quem ainda estiver com alguma energia para dançar os sons psicadélicos do fim do mundo.


[Kate Tempest] 8 de Junho, às 22h30, no palco Seat

Kate Tempest é uma voz incontornável nesta nova geração do hip hop britânico: como uma artista experiente, cada palavra, cada ritmo e cada som são vividos ao máximo através da natureza expressionista da rapper. Let Them Eat Chaos e Everybody Down apresentam-se como uma mistura interessante entre teatralismo desmedido e sensibilidade política. O novo registo, The Book of Traps and Lessons, promete seguir o mesmo caminho e será devidamente apresentado no Porto.



[MorMor] 6 de Junho, às 21h25, no palco Super Bock

A voz de MorMor é passiva, calma e não levanta muito alarido. No entanto, quando a ouvimos isolada, não nos conseguimos focar em qualquer outra coisa. Com apenas dois EPs, a estreia deste músico canadiano em solo português faz-se com a distinção de várias publicações internacionais: há várias semelhanças com Rhye, Lana Del Rey ou até mesmo Cocteau Twins, mas a maneira como salta de técnica para técnica, de instrumento para instrumento, é inteiramente personalizada e a sua abordagem sincera é a cereja em cima do bolo. Por outras palavras, quem quiser um concerto mais introspectivo, que pese no pensamento pelas palavras não ditas, os relacionamentos quebrados ou todo o degredo existencial da casa dos vinte, MorMor é uma boa hipótese.



[Nilüfer Yanya] 7 de Junho, às 18h50, no palco Super Bock

A estreia de Yanya é, sem dúvida, das mais surpreendentes deste ano. O primeiro álbum, Miss Universe, é uma junção de poliritmos, composições ilusórias e uma voz tão sedutora quanto nervosa. A artista foi capaz de criar uma obra original em que todas as faixas se encaixam perfeitamente nos tons musicais como na carga emocional, que atingem vértebras diferentes por razões igualmente diferentes. O impacto é controlado nas suas aberturas, mas ousado e despreocupado na sua execução, nem que seja pelos riffs de guitarra sujos de Yanya ou pelos sintetizadores abrasadores.



[Sons Of Kemet XL] 7 de Junho, às 20h20, no palco Pull and Bear

É difícil categorizá-los e ainda mais complicado descrever a panóplia de emoções que a música deles cria. Este grupo tem sido apontado com dos mais inovadores da nova geração de jazz e ganhou ainda mais reconhecimento quando chegou à fase final do Mercury Prize. A partir daí, a aclamação foi surgindo. É, no entanto, fácil perceber que a música constrói uma ponte entre o passado e o futuro, entre África e Europa, devidamente alimentada por experimentações e improvisos. Esta música não é de máquina e serve para mexer o pé, a cabeça e a alma.



[JPEGMAFIA] 7 de Junho, à 1h, no palco Pull and Bear 

JPEGMAFIA poderá ser um sucessor exemplar para o concerto monumental de Tyler, The Creator no ano passado. Satírico e metafórico, tanto no seu trabalho lírico, como na produção, o rapper batalha contra as noções básicas do estoicismo e apresenta-nos uma versão de Hendrix bastante pervertida e emocionalmente destruída. A personagem é enigmática e ao vivo faz-nos confrontar o mundo actual: é político, controverso, extremista, e inesquecível.



[Tirzah] 8 de Junho, às 22h, no palco Pull and Bear

É verdade que pouco tempo depois, começa a concerto de Rosalía, mas uma oportunidade de ouvir a voz enigmática de Tirzah é bastante rara: a compositora britânica tem a capacidade de hipnotizar e atrair ouvintes com a sua voz doce, dorida e honesta. Em entrevista, explica que na sua música se encontram “verdadeiras histórias de amor” e Devotion, o álbum de estreia, funciona como um livro de ajuda para casais a passarem por fases complicadas. A produção experimental é, estranhamente, o ambiente perfeito para se falar sobre corações partidos, últimos beijos e palavras por dizer. Estás com problemas amorosos? Pega numa cerveja e ouve as lições de Tirzah.



[Joy Orbison] 8 de Junho, à 1h15, no palco Primavera Bits

Existe acid-rock, acid-jazz e acid-house, mas Joy Orbison dá todo um novo significado aos efeitos alucinogénios da música. Em dois EPs, o estilo do britânico é temperamental, penumbroso e não deixa qualquer nota obsoleta. Há um peso, uma lentidão em todos os seus trabalhos, mas nos últimos dois anos o resultado final tem-se mostrado mais melancólico e impassível – e também aberto a novas experimentações e ritmos. Com ou sem efeitos psicotrópicos, o mecanismo encadeante e atmosférico do seu trabalho prende, cativa e vicia.


[Yves Tumor] 8 de Junho, à 1h, no palco Pull and Bear 

A música de Yves Tumor funciona como uma catarse: tem uma necessidade inebriante de se libertar de todas as opressões, sejam elas sociais, políticas ou musicais. A verdade é que não há propriamente uma maneira exacta de descrever o estilo dele, pois o que se nota à superfície é um trabalho sem limites nem restrições, que se envolve numa capacidade notável de evocar humor, melancolia, medo e frustração. Ao vivo, Yves prospera à boleia de intensidade e excitação, e neste concerto será devidamente acompanhado por uma banda, que promete puxar cada espectador para dentro da sua própria confusão emocional.

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