GROGNation: “Sabemos que estamos Na Via para chegar onde queremos”

[ENTREVISTA] Gonçalo Oliveira [FOTOS] Sara Falcão

 

Final de uma tarde de Domingo, já com o céu escuro. O tempo não convida a sair mas lá fora, a poucos quilómetros de casa, está um dos grupos mais curiosos do hip hop nacional. Não são caras novas para ninguém. Para mim muito menos, que cresci bem perto deles. É sempre um prazer ver caras que se cruzaram connosco na escola, em miúdos, a seguir um trajecto tão interessante como o que eles têm desenhado, a pulso. E, deixem-me que vos diga, é também uma grande alegria poder sentar-me um bocado à conversa com estes cinco pois é impossivel estar a falar com eles sem soltar uma gargalhada a cada cinco minutos.

Encontro-me na estação de comboios do lado de Mem Martins com três deles, clássico ponto de encontro para quem cresceu por aqueles lados, e dali seguimos para casa do Neck. Na sala estão o Neck e o Prizko, que se encontra bastante empenhado numa letra que vai ganhando forma no seu caderno enquanto os minutos vão passando. Preparo o material para gravar a entrevista e antes de apertar o botão do rec colocamos a conversa em dia ao mesmo tempo que aproveito para fumar um último cigarro. Mas não foi apenas o lazer que me trouxe até aqui. Os GROGNation regressam a Lisboa no dia 23 de Janeiro para darem um concerto de apresentação do seu último EP, Na Via, e o Rimas e Batidas quer dar a conhecer aos leitores um pouco mais do que se passa dentro do universo GROG.

 


Fez em Janeiro quatro anos desde que se estrearam com a mixtape Segunda Vaga. Muito aconteceu desde então e vão agora apresentar o vosso quarto trabalho ao Musicbox, no dia 23. Viam-se a percorrer todo este trajecto tão cedo na altura em que decidiram apostar nessa primeira mixtape?

[HAROLD] Eu esperava que as cenas um dia fossem acontecer, conhecer as pessoas que conheci, ir ao Sudoeste e tudo mais. Mas tão cedo eu acho que não esperava. Não esperava que tivesse sido quase dois anos após a GROGNation ter surgido. Lançámos a Segunda Vaga. Dois anos depois o Dropa Fogo e no ano em que vamos lançar o Sem Censura é quando vamos ao Sudoeste. Para nós é muito fixe, todos os anos lançamos trabalho e tentamos nunca estar parados. Apesar de ter sido daquelas cenas que não prevês quando é que vai acontecer tu queres sempre que aconteça o mais rapidamente possível. E connosco as cenas foram assim…

[NECK] – Surgiram. Não foi nada forçado, aconteceu tudo naturalmente.

Desde cedo que se notou o vosso amor à camisola do hip hop com uma enorme vontade e disponibilidade da vossa parte em gravar com regularidade para ter temas para soltar na net. Como surgiram esses vossos primeiros encontros para gravarem juntos?

[FACTOR] – No principio éramos mais elementos e gravávamos em dois sítios. Maioritariamente em minha casa, mas também gravávamos em casa do Subjectivo – um dos elementos que já não faz parte do grupo – em Queluz. Na primeira mixtape houve para aí uns três temas que gravámos em casa dele e depois o resto foi tudo gravado em minha casa. A segunda mixtape foi toda gravada em minha casa. E a ideia na altura não era nenhuma, era mesmo gravar por esse amor à camisola. Gravávamos dentro de um armário.

[HAROLD] – Em casa do Subjectivo não, era mesmo no meio do quarto, raw shit!

 



 

E a nível de material e softwares, com que condições trabalhavam?

[FACTOR] Em minha casa era com um microfone que eu tinha, que está com o Harold agora. Mas não era mau, nós gravávamos as dicas. Tínhamos uma mesa de mistura da Yamaha que neste momento morreu, já não funciona. (risos) E pronto, gravávamos no computador com o Cool Edit, sem grandes misturas.

[NECK] Às vezes aquilo breakava.

[FACTOR] As duas primeiras mixtapes nem tiveram masterização, só misturámos.

E há algum momento caricato que tenha ocorrido durante essas gravações que vos tenha marcado e queiram partilhar connosco?

[HAROLD] Eu faltei bué vezes às aulas [para gravar], sei lá… Lembro-me é daquela vez no concerto no Stairway (risos).

[NECK] Há muitos momentos caricatos mas não podem ser falados (risos).

 


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Curiosamente crescemos todos nesta zona. Para vocês quais são os factores-chave presentes em Mem Martins que são importantes no desenvolvimento de jovens criativos? 

[NECK] Eu acho que Mem Martins tem a sua própria cultura. Não só musical mas também no desporto, teatro, o que for. Está incutido. Vive-se mesmo o espirito da arte. Falando mais a nível de hip hop, nós já tínhamos as nossas referências e eu acho que agora já começamos a ser referência para quem está a começar. E isso é de valor.

Agora há muita gente de Mem Martins a lançar-se.

[HAROLD] Sim, mas em termos de apoios… Sabes que aqui [em Mem Martins] não há apoio nenhum. É tu acreditares e fazeres a tua cena.

[NECK] Eu acho que aquilo que fazemos também ajuda muito a incutir o espirito da zona. Não ser uma cena de violência. Porque às vezes há bué pessoal que tem uma má imagem de Mem Martins.

[PAPILLON] Da Linha de Sintra no geral.

[HAROLD] Mas há um dado interessante, quase ninguém de fora conhece Mem Martins. As pessoas conhecem a Linha de Sintra e pouco mais que isso. Eu sinto que agora com esta onda – nós aparecemos, o Bispo também – tem-se espalhado mais o nome de Mem Martins e o pessoal já começa a saber: 2725.

[FACTOR] E nem sabem que os Rádio Macau eram daqui. E os Excesso não eram de Mem Martins mas eram da freguesia de Algueirão – Mem Martins.

[NECK] E havia a Nucha e a Mónica Sintra (risos).

E como é que é a vossa vida aqui agora? Mudou alguma coisa nas vossas rotinas com o impacto que a GROGNation causou?

[PRIZKO] Eu passei a ter mais rotinas (risos).

[PAPILLON] Eu continuo igual. Às vezes vou a andar pela rua e aparecem miúdos que querem falar ou tirar fotos. Nada de especial.

 


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Mas sentem o carinho dos fãs nessas alturas?

[PAPILLON] Sim, mas isso é dentro e fora de Mem Martins.

[FACTOR] Eu por acaso até acho que já fui mais abordado em Lisboa do que propriamente em Mem Martins.

[NECK] Aqui nota-se que o pessoal tem um bocado vergonha. Às vezes vamos a andar e notamos que há gente a olhar para nós mas nem sempre falam.

[FACTOR] Eu comecei a conhecer muito mais gente depois de fazer rap. São pessoas que vivem aqui, que gostam e se identificam com o nosso trabalho, e acabei por ficar conhecido e até mesmo amigo de algumas dessas pessoas que viviam aqui mas que eu não as conhecia.

Como vêem o panorama do rap nacional de momento? Acham credível para um novo artista pensar que no futuro pode vir a conseguir viver da música?

[HAROLD] Eu acho que já começa a ser cada vez mais possível. E é fixe porque o pessoal mais velho, de certa forma, é que nos abriu a porta para que pudéssemos acreditar nisso. Desde o NGA ao Regula, Sam The Kid e tudo mais. Começaram a mostrar que é possível viver da música e o facto de termos essa possibilidade e pensarmos que podemos viver disto faz com que todos encaremos as coisas mais a sério. Como um trabalho, uma profissão. Por isso ya, acho mega credível.

Actualmente seguem mais rap internacional ou nacional?

[PRIZKO] Internacional.

[NECK] Um pouco de tudo. Mas mais nacional neste momento.

[HAROLD] Eu consumo bué rap em portugês, não tem de ser só de Portugal. Brasil, Angola, Moçambique…

E no ano de 2015 que projectos é que vos marcaram mais?

[FACTOR] De rap internacional senti Tory Lanez, Kendrick.

[HAROLD] Bryson Tiller. Também curti o álbum do The Game.

[FACTOR] O álbum do Dr. Dre… Eu álbuns não ouvi muitos por completo, fui ouvindo sons que iam saindo. Também já tinha saudades de ouvir Kanye West e ele lançou alguns sons. Nacional tens o Bispo que lançou o álbum dele, o Slow J.

[HAROLD] Eu estou a curtir bué Corona! Ando mesmo a sentir a onda dos gajos.

 


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Voltando à actuação no Musicbox, vai ser a apresentação oficial em Lisboa do EP Na Via. É um trabalho muito mais descontraído do que os anteriores não abdicando nunca da qualidade. Como surgiu a ideia desse conceito?

[NECK] Nós quisemos mesmo explorar. Explorar novos sons, cenas que sentimos no momento e criámos aquilo que estávamos a sentir.

[FACTOR] E a direcção continua a ser essa porque também não faz sentido fazeres cinco/seis discos todos com a mesma sonoridade, todos iguais. Lembro-me que para o “Na Via” o Papillon me disse “tens de produzir um beat que seja característico e que tu quando ouvires vai-te soar só àquele beat. Não pode soar a outra cena qualquer.” Tás a ver? Foi mais por ai. Ir mais à procura de coisas próprias do que seguires certos caminhos.

[HAROLD] Isso foi mais ou menos na altura que nós também íamos pegar no nosso álbum e decidimos fazer um EP, uma cena curta. Até tínhamos mais sons que acabaram por ficar de fora. E a dica foi mesmo essa. Não haver promoção, foi tudo no mesmo dia. Não lançámos qualquer single ou videoclipe antes. Promovemos só mesmo na net [redes sociais]. Dissemos só “olhem, pessoal, a cena vai sair hoje”.

[FACTOR] Foi a 1 de Junho. De manhã anunciámos [nas redes sociais] que o projecto ia sair ao final da tarde. Entretanto fomos dar um concerto no Estádio da Luz, a propósito do Dia da Criança, que até foi muita bacano (risos). Depois entrevistaram-nos da Benfica TV e aproveitámos para fazer a nossa promo (risos). E ao final da tarde a cena saiu.

[PAPILLON] A cena do Na Via é também porque de certa forma achamos que ainda não chegámos onde queremos. Apesar do que as pessoas vêem – temos beats do Sam The Kid, fomos ao Sudoeste – nós ainda não fizemos quase nada. Estamos praticamente a meio do caminho. Se é que já chegámos a meio. Então Na Via é por ai. De certa forma somos nós a assentar os pés na terra e a dizer “ainda não somos ninguém” mas ao mesmo tempo sabemos que estamos no caminho – estamos Na Via – para chegar onde queremos chegar.

Houve alguma alteração na vossa metodologia de trabalho tendo em conta que desta vez os instrumentais vieram todos do Factor?

[FACTOR] Só produzi um beat, para o “Na Via”. Os restantes fomos resgatar ao meu arquivo. Fui mostrando cenas [ao resto do grupo]. O “Granda Parvos” surgiu quando estavámos a gravar o “Na Via”, tinha comigo mais alguns beats. Aliás, o “Granda Parvos” até surgiu de um erro que o Neck deu na rima dele.

[NECK] Não foi um erro! (risos)

[FACTOR] Não foi um erro, era mesmo suposto, nós é que começámos a gozar e fizemos o som. No Na Via já tivémos mais essa preocupação [de estruturar os temas]. Tu quando começas a fazer rap normalmente tens bué aquela cena de juntar barras com um refrão cantado – que às vezes nem é cantado, podem ser só rimas. E nós agora estamos mais preocupados em fazer estruturas. Em fazer canções. É rap à mesma, é exactamente a mesma coisa mas com cabeça, tronco e membros. Porque a música é assim mesmo e funciona muito melhor. É uma evolução. Crescemos.

 



 

Quanto ao concerto em si, vão rimar apenas o Na Via ou vai haver espaço para material mais antigo e, quem sabe, temas novos?

[HAROLD] Vai haver temas antigos. Novos, só se for mais a solo. Em conjunto não deveremos rimar nada de novo. Mas ainda vamos a tempo! (risos) Esperem para ver, apareçam lá! Pode ser que sim… Há temas antigos que o pessoal nos pediu bué para cantar. Não vai ser só Na Via! Vamos rimá-lo na integra com convidados mas não podemos confirmar nada, contem com tudo!

[PAPILLON] E contem com nada! (risos)

[FACTOR] Isto vai ser um concerto ao vivo, por isso tudo pode acontecer!

[HAROLD] Antes de nós vai rimar o Haze, de Vendas Novas, que lançou um EP em Dezembro. Depois temos o Grilocks que o pessoal também já conhece e que lançou a mixtape Carisma.

[FACTOR] Esta vai ser a apresentação [do Na Via] em Lisboa. Já fizemos a apresentação no Porto e em Braga.

[HAROLD] No Porto correu muito bem mesmo! E agora queremos ver se em Lisboa consegue ser igual ou melhor! Não só encher a casa mas também criar uma grande vibe.

[FACTOR] Até porque no Porto foi do caraças! E quando vens a Lisboa estás à esperas que o people também reaja da mesma forma.

[HAROLD] Aquela sensação de quando acabas um concerto e pensas “isto foi lindo, valeu mesmo a pena!”

E neste momento encontram-se a preparar algum projecto novo? Fala-se num álbum…

[HAROLD] É verdade, mas ainda não há nada em concreto, não há datas… É tudo o que podemos adiantar. É surpresa! O que interessa é que estamos a preparar um projecto novo para este ano, em princípio. Agora convidados e produtores, isso é algo que vamos revelar depois aos poucos. Soltar [na net] um ou outro som, quando estiverem prontos.

 


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Também é possível ver que alguns de vocês já começam a revelar alguns planos a solo. Principalmente o Harold, que prepara um projecto com o Holly e o Tamura e tem também um álbum a solo na calha. Querem falar sobre os vossos planos paralelos à GROGNation?

[HAROLD] Antes de mais queremos esclarecer ao people que isto não é uma carreira a solo. Obviamente que eu vou ter trabalhos a solo. Mas a cena vai continuar a ser sempre GROGNation! Este vai continuar a ser o meu grupo! [Relativamente ao álbum a solo] não foi um plano, não posso dizer que tinha isto estruturado há muito tempo. Foi algo que me deu na cabeça. Começou com a ideia de ser uma mixtape, queria mesmo fazer alguma cena! Estar a praticar, estar a treinar, evoluir. Depois passou para um EP. Entretanto por intermédio de umas conversas decidi fazer um álbum. Comecei a trabalhar nisso em 2014, depois de virmos do Sudoeste. Fiz sons, depois meti de lado. Peguei neles novamente e voltei a deixar de lado. Isto falando dos sons que tenho feito no geral. Porque para o projecto fui escolhendo desses sons aqueles que têm a onda que eu procuro, os que eu mais gostava. O álbum era para ter sido lançado em Outubro, estava bem encaminhado nesse sentido. Só que acabei por ter mais ideias e quis melhorar aquilo que já tinha. Agora está agendado para este ano e tudo aponta que vai sair antes do Verão. Só depois disso é que deve sair o meu projecto com o Holly e o Tamura. Mas em principio, este mês, ainda lanço o single do álbum. E vai ser nestes próximos meses que vou começar a revelar mais pormenores sobre o trabalho – capa e nome do álbum.

A nível de convidados e produtores, já tens nomes que possas revelar?

[HAROLD] Há ainda um ou outro produtor que ainda estou na dúvida. Mas os que estão mesmo seguros são o Last Hope, Solid Movement, The Kid, METAMVDNESS

[FACTOR] E eu sou um dos que estão na dúvida? (risos)

[HAROLD] Já me estava a esquecer do Factor (risos). O single até é num beat dele! Tenho também o Intakto e depois os restantes ainda não sei bem. Quanto a convidados, já revelei alguns: Batoré dos Cone Crew Directoria, o Blasph… Mas o pessoal depois vai vendo!

 



 

Em último lugar, querem deixar alguma mensagem para quem está a pensar em marcar presença dia 23 no Musicbox?

[FACTOR] Levem dinheiro! (risos)

[HAROLD] Apareçam! Vamos ter CDs à venda, t-shirts… Apareçam mesmo para o espectáculo! Já não actuamos em Lisboa há quase um ano, fora uma festa de uma faculdade. Agora um concerto mesmo à nossa maneira já há algum tempo que não o fazemos em Lisboa. Das outras vezes o people curtiu bué! E desta vez esperamos a mesma cena ou melhor! Vai ser uma noite bacana de hip hop. É num Sábado à noite, não há desculpas!

Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira