GPU Panic e “uma dança um bocadinho diferente”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Nash Does Work

Entrar na Red Bull Music Academy é uma benção para todos aqueles que ambicionam fazer carreira no mundo da música. Se não é uma porta totalmente escancarada para um universo de glória, então estará lá muito perto. Funciona, certamente, como uma espécie de convite para particpar numa mesa redonda com os melhores dos melhores. Guilherme Tomé Ribeiro, mais conhecido como GPU Panic, teve a oportunidade de entrar na academia na edição de 2016, em Montreal, Canadá. E tudo mudou a partir daí.

O membro dos Salto e da banda de Moullinex foi um dos artistas que passaram pelo Teatro Sá de Miranda durante a edição deste ano do NEOPOP, para um concerto incluído na programação curada pela Red Bull Music.

Antes de subir ao palco no dia 10 de Agosto, o Rimas e Batidas sentou-se com GPU Panic e tentou perceber o que se iria passar em cima do palco — e que mais tarde pudemos conferir “in loco” — e de que forma é que olha para as suas próprias criações. Uma sessão de auto-descoberta com uma pequena ajuda do ReB.

 



O que é que se vai passar aqui? Conta-me lá tudo. 

Olha, acho que é um culminar de dois anos desde que começou GPU Panic. Foi ali entre vir da Red Bull Music Academy, em Montreal, começou um bocadinho antes, mas foi já a pensar em Montreal e no que é que ia receber e beber de lá. E estes dois anos em que cresci muito num projecto e num ambiente em que não estava assim tão à vontade. A cena fixe de hoje é que eu acho que é um culminar de muita experimentação ao vivo e de tentar pela primeira vez pôr-me completamente de pé na parte funda a tocar uma cena para a qual não me preparei nos últimos anos em que faço música. E estes dois anos serviram exactamente para preparar isso. Acho que hoje já chego aqui com um live em que estou mesmo confiante e que é uma viagem boa para as pessoas que estão aí. Normalmente é uma viagem mais fácil de ser feita para quem está de pé e quem está num ambiente menos intimista. Mas acho que neste ambiente intimista também vou fazer algumas cenas diferentes. Vou tocar piano, vou processar piano em tempo real…

Eu ia-te perguntar isso. Fala-me do lado técnico desta apresentação. Que ferramentas vais ter em palco e o que é que vais estar a fazer exactamente?

Eu vou estar a cantar, vou estar a tocar para aí dez sintetizadores, mas nove deles estão dentro do computador. E vou tocar piano. E vou processar o piano. Não é bem samplá-lo, mas vou transformá-lo completamente ao ponto de nem se reconhecer um piano. E é uma viagem. É completamente uma viagem que culmina a planar e vem de uma cena muito tensa. O set rapidamente fica tenso, e fica uma coisa um bocado dark até, mas acaba muito luminoso, a planar, a tocar piano…

Olha, para lá do não poderes editar os sons depois de serem executados, hoje em dia, num projecto como este que estás a apresentar, o que é que distingue o live do trabalho mais laboratorial de estúdio? Há um processo que é idêntico aqui ou não?

Sim. Estás à procura com a mesma acutilância de encaixares os sons num espectro que tu já sabes como é que soa num estúdio, e que o preparaste em estúdio e que viveu de uma pessoa estar focada num computador à procura de encaixar aqueles sons todos. Agora o que distingue de estar no estúdio é principalmente muitas coisas que são improvisadas na hora.

Mas tu também improvisas em estúdio?

Sim, mas aí fica registado uma vez e depois tu escolhes uma, não é? Aqui até podias querer aquela que ficou muito bem, mas a segunda não já ficou tão bem. Ou as pessoas nem repararam na primeira que tu curtiste mesmo.

Ou podias querer aquela que fizeste no soundcheck

Exacto, e não chegas lá. Por isso tem mais essa parte de durante o live estar à procura de uma cena e não estar já definido que vai ser isto e acaba ali.

E que música é esta? Como é que rotulas a coisa?

[risos] Eu acho que isso é onde tenho tido mais dificuldade, confesso. A cena básica das pessoas dizerem é que isto é música electrónica, mas isso é aquela generalidade que quase…

Que música não é electrónica hoje em dia?

Que música não é electrónica, não é? O hip hop é música electrónica, o rock é música electrónica, a pop é música electrónica, às vezes há música que não é electrónica dentro da pop. Mas dentro daquela componente electrónica mais industrial que bebe um bocado de techno, mas é o que muita gente diz da minha coisa. “Pá, tu raramente tens um bombo nos tempos fortes. Tipo, não há aquele 1,2,3,4, não há four-on-the-floor, não há nada disso. É quebrado [risos]”.

Portanto não será música de dança, não é?

Não será de dança… Não é música de dança no sentido lato e naquilo que as pessoas se habituaram a ouvir como música de dança. Isso não é. Agora eu tenho visto quando tenho tocado é que passado alguns minutos começa a apoderar-se das pessoas como dança, mas como uma dança que não é tão óbvia para quem está a ouvir house, techno ou drum’n’bass, embora seja uma dança difícil de dançar. Não é à primeira música de dança, mas acho que é uma possível música de dança. Uma dança um bocadinho diferente… Não sei se é nova. Para algumas pessoas é, sem dúvida.

Tens pensado em aplicações para esta música? O Clark, por exemplo, vai ter gente a dançar em palco. Tu tens pensado de que formas é que a tua música poderia resultar para lá dessa relação que se estabelece entre o que tu fazes e o par de ouvidos que está do outro lado a ouvi-la?

Sim, tenho pensado muito nisso, mas ainda não cheguei a grandes conclusões. Por um lado, queria que a cena tivesse uma parte ímpar. A parte de teres pessoas a projectarem coisas, de teres luzes altamente sincronizadas, de teres pessoas a dançar — é mais raro — mas são tudo coisas que já começa a haver bastante. E não que eu não gostasse de ter essas todas a funcionar comigo, mas estou a tentar procurar uma cena que seja um bocadinho diferente…

Cinema?

Pois, quem sabe. Isso por acaso é uma cena que me fascina. A cena de sonoplastia a acompanhar uma narrativa-vídeo, mas não uma narrativa tão abstracta assim que pareça só uma projecção ou um efeito. Mas ainda não consegui pensar muito bem nisso. Pronto, lancei dois EPs, estou agora a preparar o terceiro e já tenho para aí 50 ideias, mas acho que só uma é que ainda está fixe. Já pensei se devia arrancar para um álbum, que é uma coisa mais rara dentro deste ambiente. As pessoas costumam fazer muitos EPs e só fazem um álbum se justificar uma tour ou justificar um marco na carreira de 10 anos ou o que for. Alguns artistas só fazem álbuns, mas é raro. Mas também me foco em alguns exemplos de artistas que gosto que também se habituaram a essa componente de contar uma história maior e não viverem de duas ou três malhas.

E que artistas são esses?

Acho que o Four Tet é uma grande inspiração. O Burial é uma grande inspiração. O Floating Points sempre foi. O Nils Frahm, de uma forma diferente, mais pela parte quase cénica só com o som. Ele consegue criar um cenário só com a música. E isso fascina-me muito e vou beber muito aí. Embora isto seja bastante mais agressivo. Para muita gente, eles sentem a minha música perto do techno e acham até que eu sou uma pessoa que tem uma afinidade grande com esse estilo e que ouço isso há anos. Mas de todo. Gosto, mas a minha playlist nunca viveu à volta disso. Esses artistas têm sempre uma componente, tal como disseste, e bem, cinematográfica. Têm mais qualquer coisa além de uma batida que te faz dançar. Tem ali mais uma parte cénica que muitas vezes está só no som. Ainda agora vi o set do Four Tet e estava sem ecrãs, sem luzes, tudo preto, só uma luz de presença e ainda assim leva-te a viajar. É impressionante. Acho que hoje em dia ele consegue fazer isso bem. Mas se eu tentasse fazer esse statement de não ter luzes, não tenho ainda linguagem musical para conseguir transportar as pessoas da mesma maneira. Mas é fixe essa dualidade em teres muita coisa a acontecer num palco ou às vezes teres pouca, e saber gerir isso bem, eu acho que estou um bocado à procura. E quero que o live fique bem feito e que as pessoas percebam que está bem feito e que não seja só uma coisa que está na minha cabeça.

E os próximos passos? Falavas aí de um terceiro EP. Quais são os planos?

Este ano houve algumas coisas e também foi bom para rodar o segundo EP. Agora também saíram uns remixes, ainda há mais um para sair de umas australianas… E a ideia agora é acabar o terceiro EP e pensar num espectáculo diferente já a partir daqui para ter alguma coisa que justifique a uma pessoa que não me conhece querer ver porque sabe que é um espectáculo diferente e não é mais um gajo da música electrónica… porque há muitos! E há muitos cada vez mais em todos os géneros de música, e isso é óptimo, mas a minha postura está a ser um bocado andar à procura do que é que eu vou levar de especial. E acho que hoje aqui já vai acontecer um bocado isso. Se calhar pode ser um futuro, andar pelo ambiente que vou andar hoje aqui. Não sei se vou ter estrutura para isso sempre, mas o caminho é um bocado por aí. Tornar a cena mais orgânica mas dentro de um ambiente que transporta as pessoas para uma cena que não estão habituadas.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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