Gonçalo Vaz aka Luciano Barbosa (1959-2019)

[TEXTO] Pedro Tenreiro [FOTO] Direitos Reservados

Quando o Rui Miguel Abreu me perguntou se queria escrever estas palavras de tributo ao meu amigo Gonçalo, conhecido no meio artístico como Luciano Amaro Barbosa, já as tinha feito e desfeito mentalmente algumas dezenas de vezes. Em primeiro lugar, como forma de me preparar para o pior, depois de ter sido informado sobre o seu internamento e o seu débil estado de saúde. Mas, acima de tudo, porque a importância do Gonçalo na minha vida foi absolutamente decisiva. Tal como foi determinante para a história da música portuguesa moderna, embora, em abono da verdade, esse reconhecimento nunca lhe tenha sido devidamente concedido.

Sabendo que seria sua vontade, e da sua família, que o assunto fosse tratado com recato, sem o folclore típico das redes sociais – e parecendo-me que nada do que pudesse escrever lhe faria justiça – num primeiro momento, abstive-me de verter o que sentia para o papel.

Agora que a sua morte foi amplamente noticiada, e admitindo que palavra alguma poderá estar à sua altura, resolvi aceitar o espaço que me foi oferecido e fazer-lhe uma homenagem que será, como é inevitável, muito pessoal e subjectiva.

Conheci o Gonçalo a meio dos anos 80. Acabara de chegar de Londres, onde tinha passado grande parte da sua infância e juventude, e tinha escolhido o Porto para viver e para deixar a sua marca.



Era sete anos mais velho do que eu que, depois de uns anos a animar festas de liceus e de Clubes Sociais e Recreativos, assumira finalmente a cabine de um bar – o No Sense – onde, juntamente com o Pedro Lencastre e o Zé Marques Pinto, era um dos três Djs residentes.

O Gonçalo fazia parte de um grupo de frequentadores assíduos, senão diários, do No Sense. Distinguia-se por andar sempre impecavelmente vestido, com fatos à la Kid Creole/ Coati Mundi, brogues bicolores engraxados com todo o aprumo, um pente no bolso de trás das calças (que o ajudava a manter o penteado imaculado) e umas baquetas num dos bolsos interiores do blazer, com as quais acompanhava a música, sempre que pousava o copo de extracto de absinto.

Era uma época de descobertas. Para um puto convencido, como eu, que estava a sair dos teens, de repente encontrava ali um dos meus mentores.

O chamado Som da Frente, que havia alimentado a minha iniciação nestas lides, tinha praticamente cristalizado e dado lugar à pop solarenga, inspirada num jazz para “Absolute Begginers”, no revivalismo mod e na soul dos 60, personificada pelos Style Council, Working Week, Antena, Scritti Politti, Matt Bianco, Blow Monkeys, Orange Juice, Curiosity Killed the Cat ou Swing out Sister. O pós-punk resistia timidamente via The Au Pairs, The Fall, Gang of Four, Bush Tetras e pouco mais; a electrónica, que me havia chegado através dos New Romantics, já não se resumia aos Spandau Ballet, Soft Cell, Gary Numan, Human League ou Heaven 17 e incluía, agora, os Cabaret Voltaire, os devaneios dub de Mark Stewart e de Adrian Sherwood na On-U Sound ou o novo som dos New Order. E a forte apetência que, sem me dar conta, começara a sentir pelo groove e pela música negra, exprimia-se através de bandas como os Talking Heads (que para mim permaneciam na luz, quando já tinham partido para parte incerta), os A Certain Ratio ou os Pig Bag, por um lado, e pelo funk de James Brown, de Hamilton Bohanon, de Prince e dos seus cúmplices de Minneapolis, ou pelo rap de Grandmaster Flash, dos Sugarhill Gang ou de Kurtis Blow, por outro.



A generosidade do Gonçalo, ao partilhar comigo os seus discos e a visão de alguém que tinha vivido por dentro fenómenos londrinos que não encontravam eco entre nós, acabou por ser decisiva na formação do meu gosto e na paixão que desenvolvi por todas as coisas soul – e que, pouco depois, encontrou no acid jazz e no rare groove o ponto de partida para o caminho que percorri até aos dias de hoje.

De repente, os pontos altos dos meus sets eram “Contort yourself” de James White + The Blacks, “Soul Makossa” de Manu Dibango, “Don’t Go Lose It Baby” de Hugh Masekela, “Bustin’ Loose” de Chuck Brown + The Soul Searchers, “Pump Me Up” dos Trouble Funk, “Who Comes to Boogie” de Little Benny + The Masters, “Money’s Too Tight” dos Valentine Brothers, “Straight to the Bank” de Bill Summers e muitos outros discos que o Gonçalo me apresentara e dos quais me fizera fiel depositário, alargando os meus horizontes e convidando-me para uma viagem sem retorno, presidida pelo humor e pelo sentido crítico, sem lugar para dogmas ou preconceitos.

A minha admiração pelo Gonçalo intensificou-se ao testemunhar o percurso artístico que ele viria a iniciar em 1985, na companhia do Zé Ferrão e do Anselmo Canha, com a formação dos Volúpia Mundana.

Durante cerca de dois anos, o trio, munido de guitarra, teclados, caixa de ritmos e percussões electrónicas, deu concertos memoráveis em locais como o Aniki Bobó (e, se a memória não me trai, o Meia Cave). Compôs algumas grandes canções, entre as quais “Lobo Mau” – um potencial hit, cujo refrão ainda hoje consigo cantar, e que chegou a gravar num Fostex de quatro pistas – e preparou o terreno para se assumir como Repórter Estrábico, ao incluir António Olaio, Paula Sousa e Paulo Lopes na sua formação.



Embora demasiadas vezes esquecido, o Repórter Estrábico foi um dos projectos mais importantes, originais e inovadores da música moderna portuguesa. Foi, por exemplo, um dos primeiros a introduzir o sampling e as estruturas rítmicas das várias vertentes da (então emergente) música de dança no universo da canção pop.

Uma pop mordaz, irónica e inteligente, que se construía através de uma teia singular e surpreendente. Que se alimentava de uma catadupa de referências ao que existia de mais estimulante na história do rock, abrindo as portas da música portuguesa a coisas que viriam a ficar tão em voga como o dub, o krautrock ou a electrónica.

E, no centro de tudo isto, esteve sempre o Gonçalo, a sua vontade férrea e o seu génio criativo. Génio, esse, que se concretizava nas canções, mas também noutro tipo de criações, que muitos desconhecem: slogans, pregões ou provérbios fictícios, ilustrações, adereços e até roupas.

O “Líder”, como lhe chamam Anselmo Canha, Paulo Lopes e Manuel Ribeiro – os membros que se mantiveram juntos após as passagens de João Bruschy, de Nuno Pires e a desvinculação do trio inicial de fundadores – foi sempre a alma do Repórter Estrábico.



E aquilo que a música da banda reflectiu foi sempre o universo desconcertante do Gonçalo.

A sua visão única e genial da vida e da sociedade, comandada por um apurado sentido de humor, que deve tanto aos Monty Python ou a Little Britain como ao jargão popular utilizado por empregados de mesa em tascas e cafés. Tudo alvo de crítica e de ironia, desde os subprodutos televisivos à política e à economia, do consumo à publicidade e ao lifestyle, do amor ao sexo e à religião. E fá-lo-o evocando um universo iconográfico em que a fronteira entre arte e entretenimento, a existir, será muito ténue, e em que a citação de um filme de culto ou de uma novela merdosa, de um pedaço de literatura, de um edital ou de um anúncio perdido numa página de classificados, assumem o mesmo valor formal e estético.

Sempre sem ponta de desdém. Porque ria quando nos fazia rir e porque se questionava quando punha tudo em questão.

Porque nunca “jogou o jogo” e porque ainda somos pequenos para alguém como ele, não lhe foi permitido viver da sua produção artística. Mas jamais deixou de ser o Gonçalo.

Só temos por que lhe agradecer.


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