Gonçalo Penas: “Estou constantemente a tentar aproximar-me daquilo que tenho na cabeça”

[TEXTO] Gonçalo Tavares [FOTO] Direitos Reservados

Ego De Espinhos é o título do primeiro álbum de Gonçalo Penas, produtor portuense de 22 anos. O novo lançamento da Subtext Recordings, casa de nomes como Paul Jebanasam, Roly Porter, Emptyset e Xin, já está disponível em vinil e em plataformas digitais como Bandcamp e Spotify.

 



Ensaios para uma Forma Só, EP que lançaste em 2017, já aponta na direcção deste álbum, mas é menos refinado. “ž e n y“, que lançaste poucos meses depois, já lhe é mais próximo. Olhando para o teu trabalho anterior, como chegaste aqui?

Acho que foi um processo natural de investigação e de experimentação. Ainda para mais, este álbum tem uma camada de produção posterior à criação muito maior [que os anteriores], que vem do mesmo sítio [que a criação] embora não seja tão crua. Basicamente, tem mais níveis de produção em cima e, depois de estar tudo gravado, o processo de produção foi mais cuidado e aperfeiçoado.

Portanto, abordaste este álbum de uma forma mais séria?

Sim, em termos de compromisso e do que eu queria. Eu continuo à procura de coisas que estão na minha cabeça, ideias que tenho muito abstractas e que devagarinho tento pôr nas timelines. O EP foi uma primeira abordagem a isso. Depois veio a “ž e n y”, onde eu consegui ir um bocadinho mais à frente nesse processo, e depois veio o álbum. E estou a contar que no meu próximo trabalho isso seja mais sofisticado e aperfeiçoado, porque a minha linguagem e técnica vão evoluindo. Mas também não diria que as minhas ideias vão mudando, pelo menos necessariamente. Estou constantemente a tentar aproximar-me daquilo que tenho na cabeça, e isso aprende-se.

Outra diferença muito relevante deste álbum é o facto de ser lançado pela Subtext, o que me faz sentir concretizado. Uma boa parte do catálogo deles é composta por referências minhas enquanto criador.

Este álbum foi criado somente com instrumentos virtuais desenhados por ti. Como se desenvolveu este processo na construção do disco?

Isso tem muito a ver com o meu processo [criativo]. Eu não uso samples, tudo o que faço vem de instrumentos que crio, que sejam minimamente complexos e que me cativem. Eu brinco muito com a aleatoriedade [da síntese sonora], com LFOs, etc..

Eu penso como se estivesse a criar seres que vivem por si, que depois tento tocar e explorar. Às vezes partem só da experimentação, em que vou à procura de timbres que tenho na cabeça e isso induz-me a criar uma faixa, por exemplo. Outras vezes vou à procura de uma ideia, imagem, etc, que construo com som e depois exploro.

Sinto que há muita violência contida nestes synths, na distorção que os acompanha, nas suas entradas e saídas abruptas. A tua electrónica é uma forma de expressão violenta? De libertares violência?

Isso é algo que cada vez me interessa mais em perceber, nomeadamente a psicologia do que eu faço. Porque é como se eu buscasse terapia. Por exemplo, quando estou a produzir, a distorção que uso traz-me conforto e prazer, físico e psicológico. Como se fosse o clímax de um alívio.

Prazer físico?

É uma sensação de libertação. Como se eu estivesse a bater nas colunas, ou no sistema digital. É um bocado aquela coisa de tentar arrebentar com a escala de dBFS e ver o que há a seguir, mas não há nada. Então os sons somam-se uns aos outros e ficam encurralados, acumulando muita tensão. É quase uma luta constante entre mim e os meus meios [de criação]. E sentir que com isso provoco um overload no sistema traz-me um tipo de satisfação.

Isto vem de uma ligação muito emocional e física com aquilo que eu faço. Eu não falo de coisas extremamente conceptuais, a minha música é só um desabafo. É uma forma de expressão pessoal, que eu tenho necessidade de fazer. Quando estou bem não tenho necessidade de compor.

Mas nomes de faixas como “A Besta_Quanto Mais Me Bates”, “Flores de Corpo” ou “Tecto Falso” parecem remeter para memórias tuas.

Sim, e isso já tem a haver com o que é o álbum enquanto ideia. Quando me apercebi da minha necessidade em utilizar o som como método de escape, comecei a organizar o álbum como se fosse uma colectânea desses momentos e situações. Alguns momentos registei-os na altura, outros um bocadinho a seguir, outros já são pensamentos que foram ficando a partir de situações, contextos, atitudes, e está muito relacionado com auto-análise.

2018 foi um ano em que eu mudei muito, e onde comecei a batalhar com o que achava que era a minha pessoa, com a frustração por não ser exactamente como gostaria de ser mas também a validar a minha integridade. Isso passou para o álbum.

”Ego De Espinhos”, o avanço deste LP, está cheio de uma beleza distópica. Tu pareces ser um produtor preocupado com o impacto estético da tua música. É uma preocupação tua?

Não, pelo menos no sentido convencional de “apresentar coisas bonitas”. Eu preocupo-me em apresentar coisas com que me identifico na altura. A “Flores De Corpo”, por exemplo, é distorção pura, e eu sentir que isso pode não agradar à grande parte das pessoas é algo que eu gosto e que me interessa. Ó seja, se a música for bonita no sentido de ser honesta é um accomplishment pessoal, mas não estou a tentar chegar a uma utopia de beleza, nem é essa a intenção. Se calhar pode vir a aparecer, mas nesse caso será só para mim.

Músicas como “Introdução, Umbigo” e “Tecto Falso” foram gravadas num só take, em tempo real. Porquê este processo de composição?

É assim que eu trabalho. Às vezes o difícil para mim é estar a registar aquilo que faço em tempo real, isso seria o ideal. Há tracks que são suficientemente simples para à primeira conseguir chegar onde quero.

A “Introdução, Umbigo”, por exemplo, consiste em cinco ou menos instrumentos [virtuais] que eu toco em uníssono, com um teclado MIDI. E como têm todos características muito diferentes o ambiente cria-se por si. Chego só a uma estrutura harmónica e a umas brincadeiras de melodia que funcionam e com isso construo a track que quero. E é por isso que soa como soa, com instrumentos que se atropelam uns aos outros, coisas que não se ouvem ao início mas ouvem-se a seguir, LFOs que entram em cima e depois em baixo e o resultado é diferente. Mas de um ponto de vista de execução é tudo bastante simples.

Aliás, eu toquei a “Tecto Falso” com o teclado do PC. Foi uma daquelas músicas que eu toquei logo a seguir a uma situação que me deixou mesmo fodido. Eu já tinha as ideias em banho-maria mas não lhes estava a conseguir dar destino. Tinha o PC comigo, abri-o, comecei a experimentar até funcionar para mim, organizei uma track e gravei-a.

 


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