Golden Mist Records: uma expedição com dois anos

[TEXTO] Gonçalo Salgado

 

Quando me sentei em frente ao computador para escrever esta crónica sobre a ainda curta história da Golden Mist Records que celebra agora dois anos, não sabia bem por onde começar… Mas antes de tudo, gostaria de agradecer a todos os artistas que contribuíram com a sua incrível música e que fizeram da editora o que ela é hoje; aos incansáveis ouvintes que compram a nossa música; a todas as pessoas que vieram aos nossos eventos e permitiram que a editora subsistisse até hoje; a todos os jornalistas e críticos de música que dedicaram o seu tempo a divulgar e expor o nosso trabalho ao público; ao Diogo [Lima, DJ Khabal] que está comigo desde 2014 por ter acreditado no projecto e demonstrar diariamente uma total dedicação e comprometimento para com a Golden Mist, que nos permitiu alcançar coisas incríveis sobretudo este ano; e também agradecer ao Nuno e à Catarina pelo seu enorme investimento e apoio. Posto isto, gostava de falar-vos um pouco da editora, uma vez que já existem alguns artigos muito bem escritos sobre a Golden Mist, inclusivamente uma vídeo-entrevista aqui no Rimas e Batidas com o Rui, e mais sobre o que ia na minha cabeça quando decidi começar a editora em 2013.

A Golden Mist Records é o reflexo das rápidas mudanças que têm ocorrido a nível global devido ao desenvolvimento tecnológico. Não me quero aprofundar muito sobre o termo globalização ou de que forma a tecnologia tem contribuído para este fenómeno porque é um tema bem mais vasto e complexo do que se possa imaginar, uma vez que teve início séculos antes, durante os Descobrimentos, com invenções tecnológicas usadas na navegação das naus que permitiram mais tarde as trocas culturais e comerciais entre povos, etc..

Vou-me restringir aos últimos anos da revolução tecnológica, com a proliferação da internet e a facilidade com que qualquer indivíduo adquire um computador ou qualquer outro instrumento electrónico. Este simples facto desencadeou alterações abismais na forma como se consome música hoje em dia, levando grandes editoras discográficas à falência ou a verem os seus lucros drasticamente reduzidos, não só porque facilmente qualquer um dia de nós encontra uma versão MP3 da nossa música preferida num qualquer fórum pirata, mas porque neste momento podemos escolher o que queremos ouvir e quando queremos ouvir sem comprar a dita música.


 

Há uns dias estava à conversa com o IVVVO e ele dizia-me “o underground já não existe”, e acho que tem razão até certo ponto; hoje em dia praticamente nada é desconhecido, antes de um concerto já podemos saber tudo sobre uma banda, ouvir tudo o que ela lançou, e até decidir desta forma se queremos ou não ir ao concerto.


O facto de podermos começar o dia acedendo ao YouTube ou qualquer outra plataforma e ouvir um álbum do David Bowie ou de Vatican Shadow, uma composição de Schubert ou um instrumental do Wiley, é para mim uma das razões para considerar esta a época artisticamente mais estimulante para se viver, onde as possibilidades são infinitas e a liberalização da música é uma realidade. Deixamos de estar agarrados a revistas de música, rádios e canais de televisão por cabo como a MTV, ao serviço destas colossais editoras discográficas (que certamente condicionavam o que cada geração ouvia), onde os mais insatisfeitos tinham que se contentar com rádios pirata e concertos de bandas locais, ou esperar digressões de bandas desconhecidas das quais só conheciam o nome porque um amigo vivia fora do país e lhes disse que o concerto tinha sido incrível, mas que só podiam confirmar por eles próprios no dia do concerto ou através de uma cassete manhosa gravada durante o espectáculo ou encontrada numa garagem que o tal amigo encontrou. De certa forma, isto era muito estimulante, mantinha o underground efervescente e era parte vital no surgimento de nichos e contra-culturas. Cada cidade era um círculo fechado, incubadora dos seu próprios movimentos e estilos, com os seus ideais e manifestos, distintos entre si. Actualmente tal não acontece. E apesar de achar os dias de hoje estimulantes, não considero a internet uma ferramenta que nos tenha vindo salvar, nós artistas pequenos e desconhecidos, apesar de nos ter dado a todos uma hipótese de sermos ouvidos.

Não só as grandes editoras sofreram as consequências, como já referi anteriormente, mas talvez também toda a contra-cultura tenha sofrido com os avanços tecnológicos. À uns dias estava à conversa com o IVVVO e ele dizia-me “o underground já não existe”, e acho que tem razão até certo ponto; hoje em dia praticamente nada é desconhecido, antes de um concerto já podemos saber tudo sobre uma banda, ouvir tudo o que ela lançou, e até decidir desta forma se queremos ou não ir ao concerto, acabando o concerto por ter 10 ou 15 pessoas, muitas vezes… encolhidas a um canto de braços cruzados, em vez de 100 ou mais, onde, mal entravas numa sala de concertos minúscula completamente lotada, sentias a ansiedade de cada uma das pessoas, desejosas de ouvir algo novo e diferente. Sentias a energia das pessoas aos saltos e a picarem o vocalista da banda por ser uma personagem carismática merecedora da sua atenção… A energia da sala era uma simbiose perfeita entre artistas e ouvintes ficando apenas memórias inesquecíveis e vídeos manhosos em VHS para gerações como a minha desejarem ter nascido naquela altura. Na música electrónica era igual, cada um se exprimia da forma que queria sem tabus, cada um dançava como se sentia bem e tocava o que queria. Hoje dançamos todos da mesma forma aborrecida e enfadonha (excepto o Rodrigo) e apesar de existir muito mais acesso à musica, ouvimos quase todos o mesmo.

Acho que já me perdi um pouco na linha de raciocínio. Queria concluir dizendo que a Golden Mist Records é só mais uma das muitas caravelas portuguesas, que se aventura neste mundo dual, com uma realidade bastante definida atrás de si e uma à sua frente ainda por explorar e de futuro incerto. Vivemos numa das épocas mais incríveis para a música. Ainda bem que existimos para testemunhar e se possível fazer parte desta aventura.

 

Gonçalo Salgado, aka Lake Haze, é o fundador da Golden Mist Records. Sigam a editora no Facebook e no Bandcamp.

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