Giant Swan: “Nós não estamos a reinventar a roda”

[TEXTO] André Forte [FOTO] Nacho G Riaza

Giant Swan é um caso atípico de música de clubbing, que canaliza uma série de energias e vibrações diferentes para um único canal emissor: ao vivo, a dupla de Bristol vai além do portátil e traz uma série de sintetizadores, pedais de efeitos e drum machines que usa para processar uma torrente de sons avassaladora, violenta, mas verdadeiramente inspirada e dançável. É um caso sério de diluição de fronteiras e de identificação de novas oportunidades para se ser e estar numa pista de dança.

Claro que uma receita destas tem uma dose de elementos inusitados num mundo de produtores e de computadores, em que a possibilidade de fazer, aqui e agora, e de reagir, improvisar e mudar o contexto de algo é a fonte de alimentação essencial da sua performance. Há, quase, um cisma entre o que se pode ver numa cabine e no que os britânicos fazem num palco. É algo que se sente no sistema de som e nos amplificadores, e que se vê na forma como Harry Wright e Robin Stewart abordam o estrado, abraçando o movimento e andamento de cada malha que constroem live, fruto da mesa pejada de material e equipamento de som com que se munem. O resultado é, invariavelmente, um derrubar de barreiras entre palco e audiência e, de uma maneira muito singular, uma presença mais semelhante a um concerto punk, ou uma performance noise, do que a algo expectável de um DJ ou produtor — e sim, a energia escala a níveis tais que tirar a roupa em palco é inevitável. Não se trata de um mero elemento performativo que levam consigo, mas antes de uma necessidade de aliviar o peso no corpo e não sobrecarregar os ombros (cheios de carga eléctrica).

Em vésperas de se assinalar uma terceira aparição em terras lusas dos Giant Swan, que têm actuações marcadas para o Lux, em Lisboa no dia 12 de Março, e para o Pérola Negra, no Porto, no dia 13, o Rimas e Batidas lançou uma série de perguntas a Harry e Robin sobre a forma como abordam o estúdio, o palco e a cena clubbing, e também sobre o que ouvem — seja isso feito em Portugal, ou não.



É impossível dissociar Giant Swan das suas performances em concerto. Quão diferentes sentem ser para as audiências de música electrónica?

[Harry] “Audiências de música electrónica” e outras audiências não é uma linha de separação que nos interesse traçar. Interessa-nos mais diluir as duas.

[Robin] Eu acho que o clima dentro da cena, em relação aos live sets, é baseado em levar o que se cria no estúdio para um club, criar uma relação entre os dois ambientes. Um pouco, “olha para o meu 909 e para o meu tube compressor”. E eu diria que a nossa abordagem cria uma clivagem com essa receita para experienciar techno num formato live. Nós não estamos a reinventar a roda, mas gosto de pensar que mesmo as pessoas habituadas a ver música electrónica ao vivo, quer em live, ou em DJ set, ficam surpreendidas quando nos vêem tocar.

Quão diferente é a vossa abordagem ao estúdio e ao concerto?

[H] É muito diferente. Primeiro, tentámos recriar o set que fazemos ao vivo no disco, mas neste momento aceitamos que há uma separação entre ambos, e apreciamos isso. Isto permite-nos ser mais criativos e flexíveis quando escrevemos. É tudo mais sobre criar uma palete de sons a partir das gravações que nos sirva de inspiração para os concertos, apesar de haver avanços e recuos no processo. Não começa tudo no estúdio, isso é certo.

Vocês usam muito material, principalmente numa altura em que toda a gente produz com computadores. Consideram-se “gearheads“? Têm inveja de quem leva um set inteiro numa pen?

[H] Sou muito menos um gearhead agora do que há algum tempo. Especialmente, ao entrar na cena mais electrónica, percebi que muitas vezes uma obsessão com material pode levar a uma espécie de elitismo e promover uma série de ineficiências. Todo o material que eu uso para tocar custa menos de 400 libras, mas cada um com a sua abordagem. E sim, sinto-me invejoso de todos os DJs que andam a tocar de pen. Levam uma mochila mais leve, mas a cabeça bem mais pesada [risos].

[R] Não somos gearheads, mesmo. O equipamento que usamos é, acima de tudo, circunstancial. O Harry tem uma abordagem mais utilitária em relação ao que usa e como usa. Já eu estou mais interessado em ter a capacidade de improvisar livremente nos nossos live sets — na forma como manipulo percussão, um sintetizador, ou a minha voz da forma mais simples possível com o máximo de impacto no momento. É difícil ter de carregar esta bagagem toda para onde quer que vá, e sim, faz-me sentir invejoso de qualquer pessoa que faça tudo com uma pen. [Risos]

Analógico contra digital é, sequer, uma discussão quando se fala em Giant Swan?

[H] Pessoalmente, eu sigo o ethos do “faz o máximo que podes com o que tens”. Há mais de dois anos que ainda não acrescentei um único equipamento novo para o nosso set e, no entanto, estou sempre a descobrir novas formas de usar o que tenho e novas limitações nesse material que me permitem dar uma nova vida à sua utilização e ao contexto em que cada peça opera. Prefiro conhecer super bem uma peça miserável do meu material e usá-la até à exaustão para conseguir criar um novo som ou atribuir-lhe um novo papel. Há sempre uma reacção de âmago para querer soar como X e por isso comprar o sintetizador Y, o que torna as coisas bastante despidas de imaginação para mim. E não gosto mesmo da ideia de que só com X dinheiro consegues criar aquele som em específico. Isto só alimenta ideias de que certas estéticas estão fora do alcance de pessoas sem recursos ou conhecimento para as implementar. Sou imensamente dedicado a empoderar e encorajar pessoas com pouco material, ou dedicado a encorajar contextualmente pessoas a criar música dentro de uma cultura popular conduzida ao sabor dos avanços em Inteligência Artificial e moda. São duas indústrias nada reconhecidas pela sua inclusividade, e que não são de acesso fácil para a pessoa comum. Portanto, sim, para mim digital é a cena. Softwares de produção de música livres de custos são a melhor coisa que qualquer pessoa pode usar neste mundo.

[R] Não creio que isso seja uma discussão, uma vez que nenhum de nós se interessa pela dicotomia, sequer. Pessoalmente, eu gosto do som do meu equipamento, mas estou ciente da posição em que me coloquei, e por existir algo tão específico no qual me posso apoiar. #firstworldproblems.

Falar de géneros de música convosco parece-nos uma perda de tempo. Mesmo assim, há que perguntar: que inputs é que levam para o estúdio, quando produzem?

[H] Entre os dois, acho que posso dizer que ouvimos muita música diferente. A grande maioria das vezes somos inspirados pelos nossos amigos e por pessoas que vimos tocar quando estamos na estrada. Eu ouço muita música pop, pela sua estética e pelas razões técnicas do costume, mas também porque gosto mesmo da sensação de unidade e comunidade que sentes ao ouvir algo que tem todos os elementos necessários e feito para juntar o máximo de pessoas possível de todo o mundo. Faço uma menção especial aos The Knife, que trouxeram firmemente as questões de género e os problemas do elitismo para a frente e o centro das pistas de dança. Usar a plataforma deles para destacar ideias de inclusividade e DIVERSÃO são duas coisas fulcrais, para mim.

[R] Vamos beber a todos os tipos de música. Adoramos géneros [risos]! Não ouvimos apenas música electrónica, vamos além disso. Começámos a tocar e a passar tempo juntos quando ouvíamos bandas de rock e discutíamos as opções de indumentária deles. A próxima fase passa pela credo inevitável no poder da música funk e soul, como se fosse algo que pudesse salvar-nos e trazer arrependimento por termos passado os nossos 20s a ouvir “club traxxx”.

Ambos são produtores prolíficos, e que não se ficam por Giant Swan. Têm novidades dos vossos projectos a solo? E de Giant Swan, têm novidades?

[H] Tenho uma série de coisas novas enquanto Mun Sing alinhadas para lançar ainda durante este ano, assim como uma data de colaborações e produções que fiz para e com alguns cantores. O Rob também está a preparar uma série de projectos excelentes naquele que será conhecido como “o ano do Robin”. O meu parceiro prolífico poderá elaborar melhor. Sobre novidades de Giant Swan, há coisas novas a caminho, sim.

[R] Eu acabei de lançar um EP solo na Triology Tapes. Tudo eu, apenas com o meu nome, e desta vez com uma t-shirt vestida.

Esta será a vossa terceira vez em Portugal e não será a primeira vez que contactam com música feita aqui. Como tem sido tocar aqui, e que impressão levam da cena de música de dança de cá?

[H] Gostei muito de todas as vezes que passei por Portugal e mal posso esperar por passar mais tempo aí. Há uma série de músicos de Portugal que eu respeito muito. Obviamente, a malta da Príncipe Discos é incrível, e tenho alguns discos da Nídia e do Nigga Fox que comprei quando os apanhei no Reino Unido. E fui totalmente incapaz de parar de me mexer de todas as vezes que vi o Marfox.

[R] Adoramos Portugal — a Lovers & Lollypops e a ZDB têm-nos acarinhado muito. Artistas de Portugal ou que se mudaram para aí nos últimos anos são algumas das nossas maiores inspirações, também, como é o caso da Príncipe e da Bonaventure (produtora norte-americana com base em Lisboa), que sempre nos permitiram viver bons momentos, quer pessoal, quer através de colunas. Por isso, sim, estou mesmo entusiasmado por voltar. Eu gosto de estar a passar por ambientes menos poluídos da cena de clubbing portuguesa — conseguimos sempre evitar clubs altamente comerciais e tocar apenas em ambientes mais esotéricos em Coimbra, no Porto e em Lisboa, sempre para audiências atenciosas e de coração aberto.

A pergunta da praxe: o que é que podem dizer para quem vos vai ver pela primeira?

[H] Terão de ir ao concerto e descobrir por vocês próprios

[R] Como é que se diz “bring the mutha fuckin ruckas” em português?


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