Ghostemane no Lisboa ao Vivo: trap metal em doses industriais

[TEXTO] João Daniel Marques [FOTOS] David Breda Silva

Um dos concertos mais alternativos, simples e impactantes que passou pelo Lisboa ao Vivo nos últimos tempos contou com um cartaz de quatro nomes. De hip hop ao metal mais hardcore, e sem esquecer o noise ou as letras mais depressivas e os encontrões, deu para ouvir e sentir de tudo na sala de espectáculos lisboeta.

Parv0 é o DJ e produtor que trabalha com Ghostemane (o main event da noite) e que se juntou nesta tour pelo continente europeu, encarregue do aquecimento para os rappers, MCs e cantores que completaram o cartaz da noite no Lisboa ao Vivo (LAV). Ainda nem 30 segundos tinham passado quando o público manifestou a vontade de se amontoar no meio da plateia, aos encontrões. Foi o primeiro dos vários moches que foram decorrendo ao longo da noite deste lado do palco, e que apenas foram ficando mais agressivos à medida que se ia avançando no espectáculo.

O set do DJ de serviço, que se manteve nos pratos toda a noite, passou por alguns originais, mas sobretudo por temas mais badalados que flutuavam entre o noise e o trap mais pesado e que deixavam a plateia a cantar. Plateia esta que parecia demonstrar uma capacidade invulgar para andar aos encontrões e cantarolar em simultâneo. O DJ e produtor serviu para encher a casa, mas nem por isso foi menos interessante e nunca deixou de ser uma boa performance.

Entretanto o espaço ia sendo ocupado por todo o tipo de gente, desde punks a metaleiros sem descurar os adeptos do trap e mesmo quem parecesse não se enquadrar na multidão. Havia espaço para cristas, cabelos verdes, azuis, vermelhos (e alguns até bastante criativos), botas pretas, casacos com tachas, calças de pijama, troncos nus e até para um cabelo e barba grisalhos encostado a um poste sob um foco violeta. Estas pessoas iam-se concentrando na parte central da plateia, uma vez que as filas da frente tinham sido preenchidas imediatamente após o abrir das portas e que os balcões permaneciam bastante desocupados.  E foi assim se passou a primeira meia hora, entre trap e sons mais pesados, mais ou menos cantados por todos, mas também com espaço para a surpresa: a última música do set de Parv0, “Smack My Bitch Up”, de The Prodigy, passou despercebida por boa parte da multidão que aparentemente não a reconheceu.



Seguindo a ordem prevista das actuações, Horus The Astroneer juntou-se à festa com um ar chateado. Puxou pelo público uma e outra vez, até ter a reacção que pretendia, mas o estilo parecia não conjugar com o que o público mais agressivo e já bem aquecido pretendia escutar. A música pedia antes um sing along ocasional ou um esbracejar que lá iam acontecendo nas filas da frente, enquanto isso o “poço” permanecia aberto enquanto umas duas dezenas de fãs de Ghostemane esperavam pelo drop, ou pela mais pequena aberta que justificasse meia dúzia de encontrões. Não aconteceu e houve mesmo quem se deitasse no meio do enorme espaço vazio “como que a dormir uma sesta”.

Para quem não conhece o reportório do rapper, a música de Horus é algo diferente na maneira como aproveita instrumentais simples para promover a sua lírica niilista (até mesmo depressiva) e anti-sistema, perante um público que por ser mais conhecedor consegue acompanhar, mas baixinho. O rapper projecta uma voz que se prolonga, em vários temas, para além do instrumental num tom melancólico quase choroso, que remete mais para a letra do que para o som – e isso sim, é agradável. Mas ainda assim, esta actuação não só chocou com a performance de Parv0 como com as que se sucederam, uma vez que o volume alto e distorcido parece ter sido uma constante, menos nesta parte. Foram poucas músicas do jovem rapper que certamente teriam sido melhor aproveitadas noutro contexto, mas ao menos o seu nome fica na memória de quem seguiu a tour de Ghostemane.



A plateia estava então totalmente preenchida e os balcões também bem compostos naquilo que não sendo uma casa cheia deixava toda a gente confortável e com espaço para se mexer ou fumar um cigarro sem queimar ninguém. E foi com este cenário que entrou Wavy Jone$, o rapper canadiano que está a trabalhar num álbum conjunto com Ghostemane. E ele sim parecia fazer os gostos da generalidade do público que dançava desde a primeira música.

Entrou em palco com a cara coberta numa toalha que removeu assim que teve que proferir a primeira palavra: como que para manter um suspense aniquilado à custa da enorme tela dos efeitos visuais que pairava por cima da sua cabeça, com o nome escrito em letras garrafais. Depois do primeiro tema Wavy pediu desculpas pelo adiamento do espectáculo — “estivemos detidos em Espanha”. E durante alguns minutos confundiu mesmo o nosso país com o de “nuestros hermanos”, referindo-se a Portugal como Espanha. Erro que o público não deixou passar impune com vaias e assobios. Mas não demorou muito até que uma conversa com o DJ Parv0 o pusesse ao corrente do erro. A emenda foi feita e ficou tudo amigo como antes e com um novo grito que se repetiria ao longo da noite.

O hip hop inspirado no nu-metal de Wavy Jone$ não durou muitas músicas, e antes de se retirar o MC transmitiu uma mensagem de Ghostemane: “Ele disse-me para vos passar que não queria telemóveis na primeira música”. E assim foi, mas não sem antes se gritar “F*** Spain” em alto e bom som por toda a sala.



Era precisamente isso que se ouvia quando o instrumental do primeiro tema de Ghostemane se fez ouvir. Sem luzes, muito fumo e um burburinho da multidão que entretanto acalmara para receber o main event. O rapper/cantor apresentou-se em formato banda com um baterista, Parv0 atrás dos pratos e Mark Bronzino na guitarra, todos com máscaras – mas sem esquecer a “mascote” de cabelos longos que ia gatinhando pelo palco de forma intimidante. Com o fim do primeiro tema seguiu-se mais um pedido de desculpas pelo elefante na sala, entretanto tornado trivial. A resposta foi cópia da última, um “F*** Spain” que Ghoste cuidadosamente corrigiu para “F*** Spain Police”.

Nos minutos que se seguiram viu-se porque estava o LAV praticamente cheio, e com representantes de todos os estereótipos musicais possíveis. A actuação incorporou músicas dos vários álbuns e EPs de um já relativamente extenso reportório, demarcado por fases mais ligadas aos metais pesados (relembramos que Ghostemane fez parte de mais do que uma banda de metal), noise e uma vertente mais recente que descai para o trap mas sem nunca esquecer as raízes. E por isso o concerto tornou-se numa lição para os fãs mais recentes, melhor representados em número e visivelmente mais jovens, que desconheciam claramente o passado do músico. Poucos temas depois só o tal senhor de barba e cabelos cinzentos encostado a um poste sob uma luz violeta não abanava o pé ou a cabeça ao som do que vinha do palco — tudo isto enquanto se ouviam os incentivos do cantor para que partissem o que estivesse à mão ou que saltassem para o bar.

Entre as músicas que compuseram o alinhamento, destaque para “Trench Coat”. A música cuja letra deixa ler “Police will put you in a wooden box in the ground / if you look at em wrong in the wrong part of town” foi alvo de uma dedicatória especial. Também “Squeeze” foi dedicada às bonitas mulheres lisboetas e “My Heart Of Glass” foi escutada em acústico com apenas Ghoste e o guitarrista em palco. No entretanto, Ghostemane ia-se empoleirando no público e os membros da plateia que via crowdsurfing chegavam à fila da frente eram removidos pela segurança.

Os moches iam subindo de intensidade, o volume não parecia mais baixo apesar dos ouvidos dessensibilizados, e uma e outra fã repetiam vezes sem conta o seu amor pelo vocalista. Apesar de tudo, o público parecia algo incomodado pela variedade de reportório do artista, respondendo melhor aos temas mais recentes. Destaque ainda para algumas das últimas faixas tocadas com a ajuda de Wavy Jone$ e para o anúncio que daí saiu. Juntos, Ghostemane e o convidado tocaram uma colaboração anterior e uma faixa ainda não divulgada que constará no álbum conjunto a editar pela Triple B Records. O tema acabou à boa e velha moda do rock n’ roll – a partir uma guitarra cujos restos mortais foram distribuídos pelo público.

Quem comprou bilhete à procura da sonoridade mais trapper do cantor/rapper veio enganado. Houve largos minutos em que o LAV parecia estar a promover um concerto de metal e é, sem dúvida, essa a magia de um concerto de Ghostemane. Do death metal ao noise e do screamo ao rap deu para ouvir de tudo e agradar aos fãs de cada fase da sua carreira. Um espectáculo que primou pela simplicidade em cima de palco e pela multiplicidade da obra de um dos artistas que mais tem desafiado as barreiras entre o metal e o trap nos últimos tempos.


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