Ghost Hunt: “as máquinas são o menos importante na nossa música”

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [FOTOS] Vera Marmelo

Ao vivo, os Ghost Hunt soam como a improvável descendência de um caso romântico entre os Neu, Juan Atkins, Ashra Tempel e Stereolab. Ou algo que o valha. E a profusão de referências resulta apenas de uma infrutífera tentativa para os situar no vasto universo musical para que remetem: vêem-se e ouvem-se guitarras, mas Ghost Hunt não é um grupo rock convencional; vêem-se e ouvem-se sintetizadores e sequenciadores, mas não se pode dizer também que este duo se encaixe tranquilamente no campo mais familiar da electrónica. É a natureza híbrida destes fantasmas de Coimbra que lhes dá a identidade particular.

No final da apresentação que realizaram no encerramento do Festival Indie Lisboa, depois da estreia de Tecla Tónica de Eduardo Morais, os Ghost Hunt dos Pedros Chau e Oliveira tocaram uma versão de “TVOD” dos The Normal, o fugaz projecto de Daniel Miller, fundador da Mute, que em 1978 cruzou o legado dos Kraftwerk com a inescapável energia punk da época acrescentando-lhe uma visão negra da realidade subtraída às páginas distópicas de JG Ballard. Os Ghost Hunt ainda não contam nenhuma edição discográfica, mas depois desse concerto gravaram a versão de “TVOD” que agora se disponibiliza através do canal YouTube do Rimas e Batidas.

Em discurso directo, Pedro Oliveira e Pedro Chau desvendam um pouco mais sobre o particular universo dos Ghost Hunt. Mais abaixo, a contribuição do duo para a série No Ar da Antena 3.


 

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Como, quando e onde nasceram os Ghost Hunt?
P. Oliveira: Nascemos no final de 2014 e começámos a tocar ao vivo em 2015. A ideia de tocarmos juntos surgiu em Lisboa. Na altura, uma amiga sugeriu-me o Pedro Chau como a pessoa certa para tocar comigo e quando nos encontrámos, falámos no assunto e decidimos experimentar.
P. Chau: Foi uma experiência que decidimos fazer, combinámos um dia para tocar e correu bem. Depois desse momento, decidimos continuar e pensar num nome. Quando tocámos pela primeira vez, para mim foi uma surpresa, não imaginava que o Pedro tocasse com tantas máquinas. Tinha-o conhecido nos tempos do liceu em Coimbra e associava-o mais à guitarra eléctrica. Foi impressionante  ver como manipulava tão bem sintetizadores, uma drum machine e uma guitarra electrica. Foi logo nesse primeiro ensaio que fizémos, que nasceu o nosso tema “Disconnection”, longo, repetitivo e hipnótico, com um ritmo 4/4  motorik.

O vosso universo particular aponta para uma época especial da música quando a tecnologia ainda carregava uma promessa algo ingénua de futuro. Quais são as vossas maiores referências?
P. Oliveira: Em termos musicais, no que diz respeito à electrónica, a nossa inspiração vem muito mais do passado do que da actualidade. Algumas das nossas referências são os Kraftwerk, Klaus Schulze, Cluster, Cabaret Voltaire, The Human League, Juan Atkins, Drexciya, 808 State e muitos outros. Obviamente, não queremos soar como nenhum deles, até porque somos igualmente influenciados por muita coisa que nada tem a ver com electrónica. Essa ideia de promessa de futuro surge também do gosto pela ficção científica clássica.


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Têm-se apresentado ao vivo com alguma regularidade: apesar de ser feita com máquinas, a vossa música também vive de um pulsar humano muito especial, sobretudo em palco, certo?
P. Oliveira: Eu prefiro pensar que as máquinas são o menos importante em Ghost Hunt. Quando fazemos as músicas, usamos o equipamento que temos no nosso estúdio, que é, basicamente, o mesmo que usamos ao vivo. Ou seja, as máquinas servem apenas o nosso propósito, como qualquer instrumento musical.
P. Chau: Esse pulsar humano existe porque o Pedro Oliveira toca as máquinas em tempo real, tudo é feito ao vivo e nada pré-gravado de casa. Acho que há máquinas que são equivalentes a intrumentos musicais. É muito importante quem as toca. Apesar de não estar presente na nossa cover, o uso do baixo eléctrico em grande parte das músicas, dá a estas um corpo mais orgânico.

Este TVOD dos míticos The Normal era um bocado punk, um bocado Kraftwerk, um bom bocado JG Ballard. Lembram-se de quando ouviram este tema a primeira vez?
P.Oliveira: A primeira vez que ouvi o tema fiquei impressionado, era um verdadeiro tema de punk electrónico, com mais atitude que a maioria das bandas punk que tinha ouvido até então.
P. Chau: Já não me lembro bem quando ouvi o single pela primeira vez, mas é certo que não fiquei nada indiferente, nunca tinha ouvido nada igual ou parecido, tão electrónico e punk ao mesmo tempo, muito primitivo. De qualquer forma  a nossa versão não é tão agressiva como a original.

Abordar um tema como o TVOD é levar o presente para o passado ou tentar trazer o passado, este passado, para o presente?
P. Oliveira: Não sei se podemos dizer que estamos a trazer o tema para o presente, acho que estamos mais a levá-lo para o final dos anos 80. já que a nossa versão soa um pouco a acid house e a techno.
P. Chau: Penso que são as duas coisas ao mesmo tempo. Trazer o passado para o presente mas com uma abordagem nossa.



Querem enviar um recado ao Daniel Miller?
P. Oliveira: Dou-lhe os parabéns pelo trabalho que desenvolveu desde a década de 70, tanto através da sua música como da editora Mute.
P. Chau: É uma personagem que respeito muito e admiro, a sua forma de estar na música, o que fez com a Mute Records e não só. Identifico-me  com o gosto musical dele. Gostava que um dia pudesse ouvir a nossa versão mas também o resto do nosso repertório ou mesmo assistir a um concerto nosso.

Quando e em que circunstâncias poderemos esperar a estreia formal dos Ghost Hunt?
P. Oliveira: Desde o início que nos temos concentrado mais em tocar as músicas ao vivo e ir melhorando as ideias, a gravação ficou um pouco para trás, mas contamos editar ainda este ano.
P. Chau: Sacar um disco vai ser um dos nossos próximos passos, mas a nossa primeira preocupação é tentar fazer com que as músicas estejam sempre preparadas para serem tocadas ao vivo. Gravámos 5 temas que queremos editar em formato físico, é mais um mini album, tem à volta de 30 minutos e reflecte aquilo que temos andado a tocar desde 2015 até agora. Três desses temas já se podem ouvir online (you tube) atravéz da nossa participação no programa No Ar (Antena 3). Esperamos que até ao final do ano o processo de lançamento se possa concretizar.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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