Get Recognition or Die Tryin’: O motto dos $uicideBoy$

[TEXTO] Alexandre Ribeiro [ILUSTRAÇÃO] Bruno Lisboa

A credibilidade ainda é algo bastante importante no rap –talvz mais do que em qualquer outro género musical –, mas, com o avançar dos anos, as nuances à volta dessa “cred” tornaram-se diferentes. Se os carros, o dinheiro e as jóias sempre foram (e são, de certa forma) a maneira de medir o statuos quo de cada rapper — como se isso tivesse alguma ligação com a música que fazem… –, o mesmo se pode dizer de toda uma nova geração que se expressa da maneira mais vulnerável possível, “erguendo” a depressão e o uso excessivo de drogas como as bandeiras de uma luta interna em que se sai sempre a perder. No meio deste furacão, os $uicideBoy$ são a banda sonora de uma comunidade que vai à Internet, mais concretamente ao SoundCloud e Bandcamp, procurar a “terapia” para controlar os seus demónios — aqueles que a medicação não consegue afastar.

Com um sucesso que se mede pelos números , digressões pelo mundo inteiro e concertos esgotados — amanhã, no Lisboa ao Vivo, não será diferente –, a dupla composta pelos primos $crim e Ruby Da Cherry surgiu como um escape ao insucesso e à monotonia da vida. A quantidade de música lançada nos últimos quatro anos é avassaladora — o registo que inaugurou o seu Bandcamp é o primeiro volume da saga Kill Yourself (que neste momento já vai no número quinze).

 


https://www.youtube.com/watch?v=0WvTBRgw9tM


Directamente de Nova Orleães, as influências da dupla são díspares, algo que afecta directamente a sua sonoridade e estética. O punk de Aristos Petros, que tocou durante mais de 10 anos (foi guitarrista, vocalista ou baterista), junta-se ao amor pela criação de beats de Scott Arceneaux, um “real life junkie“, como se auto-intitulou na primeira entrevista que o duo deu, em 2015, à No Jumper, um podcast de Adam22.

“Eu queria ser o Lil Wayne quando tinha sete anos”, revelou Ruby Da Cherry na conversa de estreia. Os acontecimentos no seu percurso levaram-no por outros caminhos musicais, mas, depois de alguns desgostos (“10 anos numa banda punk e nunca fui a nenhum lado com isso”), o hip hop voltou a ser a sua forma de expressão primordial. Wu-Tang Clan e NWA “trouxeram-no de volta”, disse à Mass Appeal. No entanto, o punk não deixou ser uma parte importante, principalmente nos vídeos. À conversa com a XXL, o artista contou que os Leftover Crack, uma das suas bandas favoritas juntamente com os Misfits ou Minor Threat, eram uma influência fundamental para a estética visual dos $uicideBoy$.

 



Suicide Christ, um dos alter-egos de $crim, foi DJ e host de mixtapes durante vários anos, vendeu drogas e, aos 19 anos, encontrou Deus T-Pain, o músico que o levou até ao Garage Band, programa com que começou a produzir os primeiros beats. Lex Luger e Three 6 Mafia (os $uicideBoy$ têm trabalhado bastante com Juicy J) são pilares para entendermos as estruturas sónicas (prioridade aos graves, claro) que constrói. A criação da banda foi o último recurso para evitar o suicídio. “Se isto não resultar até eu fazer 30 anos, dou um tiro na cabeça”, afirmou durante a conversa com a Mass Appeal.

De Lil Wayne a Future, passando pela influência de algumas bandas punk que conseguiram alcançar algum sucesso mainstream no início dos anos 2000: as novas rockstars nascem de um estranho e confuso cozinhado sónico. Contudo, Lil Peep, que já não se encontra entre nós, XXXTentacion, Denzel Curry, Pouya ou os próprios $uicideBoy$ vestem a mesma camisola que os “rockeiros” utilizavam nas décadas de 70, 80 e 90. Só as “cores” é que mudam.

Os $uicideBoys$ já fizeram o mais difícil: sobreviveram para contar a história e conseguiram alcançar milhões de plays e views, tudo isto de forma independente — têm a sua própria editora, a G*59 Records. Sem guitarra, baixo e bateria, $crim e Ruby Da Cherry representam o que o punk representou noutros tempos: o anti-establishment e a perversão das regras.