Georgia Anne Muldrow // Overload

[TEXTO] Miguel Santos

“Ela é incrível. É tipo a [Roberta] Flack, Nina Simone, Ella [Fitzgerald] (…) Eu nunca ouvi um ser humano cantar assim. (…) É algo diferente e conseguimos senti-lo”. O rapper Yasiin Bey descreveu assim Georgia Anne Muldrow numa entrevista em 2009 em que discutiu o que andava a ouvir. São factos de outros tempos, quando o artista norte-americano ainda assinava projectos como Mos Def, mas a verdade continua a ser a mesma: a artista nativa de Los Angeles é uma força voraz na música, detentora de um talento multifacetado. Cantora, rapper e produtora, parece não existir uma disciplina sonora pela qual Muldrow não deambule. E fá-lo com critério e alma irrequieta.

O som de Muldrow é expansivo, esbatendo as fronteiras entre géneros como o jazz, a soul e o hip hop nos seus instrumentais, que se unem à volta da voz da artista. A música é intimidante e denota uma confiança exuberante, por isso é de estranhar que esteja na berra em Los Angeles mas seja completamente desconhecida para o resto do mundo. Lançou o seu primeiro álbum Olesi: Fragments of an Earth em 2006 na mítica Stones Throw, e desde então a sua carreira tem sido proficiente e variada, colaborando com artistas como Madlib que produziu o seu álbum Seeds, Robert Glasper, Erykah Badu ou no novo álbum de Blood Orange. Overload chega agora, o mais recente de quase duas dezenas de projectos de Muldrow e o primeiro com selo da Brainfeeder, editora fundada por Flying Lotus, músico que é um dos produtores-executivos do álbum.

Ao contrário do seu lançamento anterior, A Thoughtiverse Unmarred, produzido por Chris Keys e considerado pela artista como o seu primeiro verdadeiro álbum de rap, Overload é um álbum mais leve. A produção inclui artistas como Mike & Keys, Khalil e a própria Muldrow, e a sonoridade é de r&b e neo-soul com alguns toques de hip hop nos instrumentais, algo que se nota logo no início do álbum após soar a profética introdução “I.O.T.A. (Instrument of the Ancestors)”, que nos atira para o meio da acção. “Play It Up” tem uma energia esmagadora e qualquer coisa de metálico na sua batida, enquanto Muldrow descreve um amor profundo que sente. A estrutura da música é repetitiva mas os arranjos de vozes e a expressão livre e desinibida de Muldrow nunca deixam que se torne estéril.

 



“Overload” continua a abraçar essa sonoridade. A faixa-título é um dos destaques do álbum, de hook doce absolutamente intoxicante com um suave soturno na voz da cantora que contrasta o instrumental possante, um tema em que Muldrow declara a sua paixão com muito sentimento. Não é só das suas emoções que a artista fala neste álbum, há músicas em que mostra um pensar sobre a sua realidade. “Aerosol” desliza como líquido disperso a vapor, contando uma história de alguém que muito viu e que viajou para todo o lado, alguém que vê que há realidades que nos dividem à distância de um caminho-de-ferro. “Blam” é uma questão para o mundo, com um teclado funk e um baixo discreto contrastados de forma interessante por uma guitarra taciturna engolfada por efeitos, um instrumental adequado à letra contemplativa de Muldrow, que termina a música entoando “Before I’ll be a slave/ I’ll be buried in my grave” como um mantra e de forma mais aguda e suplicada.

As telas sonoras sob as quais Muldrow tinge as suas melodias revelam-se vivas mas também acessórias para o principal aspecto da música em Overload: a sua voz. As verdades que Muldrow descreve são universais: amor, compaixão, ablução, catarse. Em “Vital Transformation” a artista usa a sua voz na procura de um equilíbrio cósmico, algo superior a si, clamando por uma transformação necessária e purificadora para o mundo. E em “Conmigo (Reprise)” ouvimo-la mais despida de ritmo, perfumada por jazz e pelo tilintar de um vibrafone. O contrabaixo dita a energia da música, ouve-se a bom som com graves que dominam por cima de tudo o resto, quase tão assertivos como a mensagem da letra de apelar à memória daqueles que nos são queridos. A entrega vocal de Muldrow torna estas palavras mais íntimas, mais específicas, dá-lhes corpo e desígnio, mostra-nos que é realmente Georgia Anne Muldrow a cantá-las, e quem é realmente a artista.

“Bobbie’s Dittie” soa num dos últimos momentos do álbum e demonstra que a sonoridade e a produção de Muldrow está em constante evolução com o decorrer da caminhada. A música é inspirada pelo caos electrónico de Flying Lotus, com uma voz tresloucada auxiliada e enaltecida por camadas de melodias secundárias que soam no meio de uma confusão sonora perfeitamente organizada. Muldrow prova mais uma vez que é uma artista que abraça o que a vida lhe traz, e mostra agora um projecto que descreve como uma “experiência em torno da contenção”. A adorável e dolorosamente curta despedida “Ciao” prova isso mesmo, fazendo soar pratos que nem asas de pássaros que depressa atingem o horizonte. Muldrow termina dessa forma um projecto conciso com muito para digerir, apresentando um guia de bolso para uma vida plena.

 


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