geleia lenta: “Sentíamos falta de uma estrutura que nos desse liberdade para perseguir a nossa visão artística”

[TEXTO] Gonçalo Oliveira [FOTO] Direitos Reservados

A mixtape de estreia dos geleia lenta saiu na semana passada. O grupo é formado por João Isaac, Joel Lucas, Miguel Marinho e Tomás Frias, quatro amigos que trabalham juntos desde o início da presente década nos JUBA, banda pela qual editaram, em 2013, o álbum Mynah, antes de colocarem um ponto final no projecto que encontrava força de expressão no rock matemático.

O conceito de geleia lenta nasce em 2016, fruto da necessidade de criar música sem barreiras e com um cunho mais pessoal. “Sempre fizemos música em conjunto, mas sentíamos falta de uma estrutura que nos desse liberdade para perseguir a nossa visão artística, tanto em conjunto como individualmente”, destaca Joel, que goza agora de um maior controlo no seu input através do alter-ego miianmar. Dentro do colectivo, Isaac passou a responder por AMIK, Miguel assina como Lagoa Laguna e Tomás é TOMMY BOY, sendo o vaporwave o género que une todas as peças nesta primeira amostra artística que é composta por 10 faixas.

O Rimas e Batidas falou com o colectivo lisboeta sobre o que esteve na génese do projecto, os contornos de música para divorciados e os planos para o futuro.



Em primeiro lugar, gostava que se apresentassem individualmente aos nossos leitores. Quem são e o que fizeram até agora o Tomás, o Joel, o Miguel e o João?

[João Isaac] Não querendo individualizar a resposta, somos apenas quatro gajos nos 20 tardios a passar por alguns dos dramas comuns desta geração, o que acaba por ser o tema central do disco.

Antes disto, destilámos a energia pós-adolescente/pré-responsabilidades em JUBA, em que apresentávamos uma estrutura de banda, mais tradicional, em que o João tocava bateria, o Joel e o Miguel guitarra e o Tomás baixo e voz.

Quando e como é que surge esta ideia e necessidade de arrancar com o projecto geleia lenta?

[Joel Lucas] O conceito que deu origem a geleia lenta começou por volta de 2016, surgindo da necessidade de fazer as cenas à nossa maneira. Sempre fizemos música em conjunto, mas sentíamos falta de uma estrutura que nos desse liberdade para perseguir a nossa visão artística, tanto em conjunto como individualmente.

Vocês os quatro integravam uma banda de rock — os JUBA. Como se processou toda esta mudança para um universo mais ligado à electrónica?

[Miguel Marinho] Sinceramente, os ensaios de JUBA estavam uma seca. O processo criativo estava saturado e as coisas não surgiam naturalmente. Os instrumentos eram sempre os mesmos, o que tornava as dinâmicas repetitivas. Entretanto, em casa, cada um já produzia umas cenas no Live: o Tomás mais vapetuga, o Miguel mais trap, o Joel mais pop e o João mais experimental. Isto tudo acabou por criar a estética sonora de geleia.

Porquê o vaporwave?

[Tomás Frias] O vaporwave é apenas uma das influências na editora. Atrai-nos sobretudo o sentimento de nostalgia que está bastante associado ao estilo, assim como a estética visual e sonora.

Sentem que é um género ainda pouco explorado em Portugal?

[João Isaac] Pelo menos o TOMMY BOY explora. De certeza que devem existir mais cenas fixes na tuga, mas sendo o vaporwave originário da Internet, a sua localização geográfica acaba por ser irrelevante.

Que artistas têm acompanhado recentemente e que criadores estão no vosso top de referências musicais?

Beyoncé, Travis Scott, Tyler, Steve Lacy, HOMESHAKE, Mariah Carey, ProfJam, Ariana Grande, Blood Orange, Yellow Magic Orchestra, LON3R JOHNY e mais uns quantos.

Sendo que agora assinam de forma individual, como foi o processo criativo destes 10 temas que nos apresentam na mixtape de estreia? Existiu algum tipo de preocupação em envolver todos os membros do colectivo em cada faixa, mesmo quando não creditados no tema?

[Joel Lucas] Apesar de termos malhas creditadas apenas a um/dois/três artistas, para a mixtape acabámos por contribuir todos. Pode acontecer o beat começar num, a melodia ser contribuição de outro e a letra ainda ser escrita por outro.

[Miguel Marinho] Houve essa preocupação, pois conceptualmente para o disco era o que fazia sentido, o que não obriga a que assim seja no futuro.

Que planos traçam para o futuro de geleia lenta? Vai continuar a ser tudo mantido entre amigos ou tencionam crescer e recrutar outros talentos para vos acompanharem nesta nova jornada?

[Tomás Frias] A ideia de montar a estrutura para lançar as nossas cenas também trazia o pressuposto de ajudar mais malta. Queremos colaborar e trazer artistas que se identifiquem, para fazer geleia crescer.


Gonçalo Oliveira

Gonçalo Oliveira

Filho bastardo do jazz e da soul que encontrou no hip hop uma nova forma de abordar linguagens musicais perdidas no tempo. Não tem uma música favorita porque Jimi Hendrix e J Dilla nunca trabalharam juntos.
Gonçalo Oliveira

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