Gazelle Twin: por detrás da máscara


[Foto]: ©Direitos Reservados

Se a única referência são as fotos e os vídeos promocionais, então não há nada que nos prepare para o autêntico choque que é o encontro cara-a-cara com a britânica Elizabeth Bernholz, a mulher que se esconde – ou revela… – por detrás da máscara de Gazelle Twin, a artista responsável por um dos mais assombrados e assombrosos momentos de 2014, o álbum Unflesh. Sem o hoodie azul, sem a máscara que lhe deforma o rosto, sem os efeitos na voz, Elizabeth é “apenas” uma mulher absolutamente normal e tranquila, dona de um discurso pausado e lúcido, uma pessoa de uma simpatia desarmante. E de uma tranquila e clássica beleza. Uma jornalista espanhola, representando um órgão generalista local, confessa-se nervosa e até um pouco assustada por ir entrevistar a figura que só conhece de um par de vídeos. Na verdade, Gazelle Twin não morde, não arranha, nem sequer nos toma os sonhos de assalto. Mas a conversa revela uma cabeça tão complexa como a música que se agrupa em Unflesh.



As questões do corpo, da pressão dos pares, da identidade, são abordadas com total franqueza num álbum em que a voz é uma arma de arremesso, uma alavanca terapêutica que lhe permite abordar problemáticas complexas e pouco comuns tendo em conta a moldura sonora que a rodeia – escombros de hip hop e r&b, fragmentos de electrónica pós-Aphex Twin, ecos de uma cultura de graves ouvidos através da parede de um quarto de isolamento numa qualquer clínica de tratamento de adições. Os beats soam tão cortantes quanto as palavras, gerando um desconforto que só se pode medir na realidade com a nossa própria capacidade de lidar com essas questões complexas de vida e de morte, de sobrevivência e colapso, de afirmação e esquecimento. Fazer o esforço de navegar por Unflesh garante, no entanto, a profunda recompensa de nos revelar uma artista singular, completamente focada na arte – por oposição a eventuais códigos de coolness ou até de resultados comerciais – e incapaz de ceder um milímetro na tradução da sua visão.

 

Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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