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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 12/03/2026

Um nome histórico da cultura sound system britânica pela primeira vez em Portugal.

Gary Clail: “Percebi que, se continuasse naquela vida, ia acabar mal”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 12/03/2026

Durante o final dos anos 80 e o início da década de 90, Gary Clail tornou-se uma das vozes mais reconhecíveis do universo da editora On-U Sound, colectivo liderado pelo produtor Adrian Sherwood. Saído da cena musical de Bristol, Clail passou de presença regular nos concertos da editora a figura central do projecto Gary Clail & On-U Sound System, onde o dub jamaicano e a cultura dos sound systems britânicos se cruzavam com electrónica, house e um estilo muito próprio de declamação politizada. Nessa época, editou discos como End of the Century Party (1989), Emotional Hooligan (1991) e Dreamstealers (1993). O single “Human Nature” tornou-se um sucesso internacional em 1991 e colocou o seu nome no centro das pistas de dança.

Apesar desse sucesso, Clail afastou-se inesperadamente da indústria musical em meados dos anos 90. Durante décadas viveu várias outras vidas fora da música — do surf em Cornwall ao trabalho com pessoas sem-abrigo, dependentes químicos e jovens em risco. O regresso começou a ganhar forma em 2014 com Nail It To The Mast, disco gravado com o saxofonista Tony Wrafter, músico bastante activo na cena de Bristol, tendo já tocado com gente como Massive Attack ou Tricky e Portishead.

Em Março de 2026, o artista britânico prepara-se finalmente para actuar pela primeira vez em Portugal, com concertos a 13 de Março no Ferro Bar, no Porto, e 14 de Março na Casa Capitão, em Lisboa. Antes dessa estreia, falou connosco sobre o sucesso inesperado do início dos anos 90, a decisão de abandonar a indústria no auge da carreira e as muitas vidas que viveu fora da música.



Vai actuar pela primeira vez em Portugal. Como encara estes concertos?

Bem, é sempre bom saber que ainda há pessoas interessadas na minha música. A verdade é que eu próprio estive longe deste mundo durante muito tempo, por isso saber que ainda existe esse interesse é algo especial.

Afastou-se da música no início dos anos 90. O que aconteceu nessa altura?

Basicamente afastei-me de tudo por volta de 1992 ou 1993. Entre 1988 e 1991 trabalhei muito com o Adrian Sherwood. Nesse período fizemos alguns álbuns e singles e as coisas começaram realmente a acontecer. Depois acabei por assinar com a RCA. Foi nessa altura que tudo ficou um pouco louco, sobretudo quando “Human Nature” começou a ganhar dimensão global. Depois da RCA fui para a Sony em França. Foi razoavelmente bem-sucedido, mas para ser honesto tudo estava a tornar-se demasiado intenso. Eu estava a viver uma espécie de vida dupla com aquela imagem de estrela pop. Na altura vivia em Brighton e estava constantemente a beber, a sair e a viver em festa. Um dia acordei e pensei: isto não está nada bem. Percebi que, se continuasse assim, aquilo ia acabar mal. Então simplesmente fui-me embora.

Foi mesmo um corte radical?

Sim. Fui para Cornwall. Tinha algum dinheiro da venda da minha casa e apareceu uma antiga igreja, uma capela, à venda. Comprei-a, renovei o edifício e transformei aquilo numa guest house para surfistas. Eu sei que parece louco [risos], mas foi exactamente isso que fiz. Vivi em Cornwall durante cerca de dez anos. Depois a vida deu outra volta inesperada. Recebi um convite para fazer um concerto único num sítio chamado Paimpol, na Bretanha. Fui lá tocar, adorei o lugar e acabei por vender a igreja em Cornwall e mudar-me para lá. Trabalhava num pequeno clube como DJ e também em barcos de pesca. A minha vida tem sido cheia de voltas inesperadas.

Como regressou ao Reino Unido?

Voltei para Inglaterra e fui viver perto de Bath. Na altura não tinha muito dinheiro. Cheguei a comprar um pequeno barco no rio e estava basicamente a tentar perceber o que fazer a seguir. Um dia estava num bar e alguém me reconheceu. Perguntou-me: “Você é o Gary Clail, não é? Porque é que já não faz música?” E eu disse: “Neste momento estou desempregado.” A partir daí comecei a trabalhar com uma organização chamada Julian House. O meu trabalho era apoiar pessoas sem-abrigo, muitas delas com problemas graves de drogas e álcool. Fiz isso durante cerca de oito anos. Depois fui para Viena durante três anos trabalhar num projecto semelhante. Mais tarde comecei a trabalhar com jovens que tinham acabado de sair da prisão, procurando reorientá-los. Nos últimos anos tenho trabalhado com uma pessoa com autismo severo. Vou a casa dele três dias por semana e faço turnos de 24 horas. Foi isso que fiz durante muito tempo.

E quando voltou a fazer música?

Entretanto conheci um produtor chamado Andy Chapman. Ele abordou-me e perguntou se eu não queria voltar a fazer discos. Acabámos por fazer um álbum chamado Nail It To The Mast e depois fizemos Violence. Agora estamos a trabalhar num terceiro disco. Ele é um engenheiro de design que trabalhava para a Toshiba e construiu o próprio estúdio. Ele diz que a minha imaginação é enorme. Eu digo-lhe o que quero e ele consegue criar isso tecnicamente, por vezes construindo as coisas propositadamente para alcançar aquilo em que eu estou a pensar. Isso tornou tudo muito excitante para mim outra vez.

Nos primeiros tempos tinha uma forma muito particular de actuar ao vivo. Chegou a usar vários decks de cassetes em palco.

Sim, exactamente. Naquela altura eu fazia concertos sozinho. Tinha um saco de compras cheio de cassetes — talvez umas vinte — e no rider pedia quatro leitores de cassetes, uma mesa de mistura, um microfone e um delay. Depois ia misturando tudo ao vivo. Eram gravações das sessões do Adrian Sherwood, coisas do Dub Syndicate, Tackhead, Mark Stewart & The Mafia, e eu cortava e colava tudo em casa com um gravador de cassetes duplo. Fazia uma espécie de sound system sozinho em palco, com os decks e mesa de mistura e efeitos. As coisas nunca eram exactamente iguais de uma noite para a outra.

Foi assim que começou a ganhar notoriedade em Londres?

Sim. Eu estava a tocar em bares e clubes em Londres e os concertos começaram a crescer. Uma noite estava a actuar e apareceu um tipo chamado Paul Oakenfold. Ele perguntou-me: “Que música é esta?” Eu expliquei que eram colagens das sessões da On-U Sound e que eu estava a improvisar por cima. Ele disse que nunca tinha ouvido nada assim e perguntou se eu estaria interessado num contrato discográfico. O contrato acabou por ser com a RCA. Foi assim que tudo começou a escalar.

Como olha hoje para os discos que fez com o colectivo On-U Sound?

Sinto-me muito orgulhoso. Mas esses discos não são apenas meus. Há ali muitas pessoas extraordinárias: Mark Stewart, Skip McDonald, Doug Wimbush, Keith LeBlanc… e claro, o Adrian Sherwood. Eu tinha uma das melhores secções rítmicas do planeta a trabalhar comigo: os Tackhead tinham sido a house band da Sugarhill, imagine-se! Tocaram em todos aqueles clássicos de hip hop. Na altura foi um período muito intenso e assustador para mim. Eu era um rapaz de Bristol que, de repente, estava a fazer vídeos e a aparecer na televisão. Hoje consigo ouvir esses discos com um sorriso na cara.

Sente que o sucesso de “Human Nature” mudou tudo?

Foi muita sorte também. O Paul Oakenfold fez um remix e de repente as rádios começaram a passar a música. Tornou-se um grande sucesso na Europa, na Austrália e no Reino Unido. Na América estava a começar a crescer nas rádios universitárias, mas houve uma reunião numa editora e perguntaram: “O que é ele exactamente? É rap? É música negra? É música branca?” E acabaram por desistir do projecto porque não me entendiam como artista. Na altura fiquei desapontado. Mas hoje penso que talvez tenha sido melhor para a minha sanidade.

Hoje olha para esse período de forma diferente?

Sim. Agora faço concertos como uma pessoa mais velha e mais tranquila. Já não tenho a pressão de vender discos ou de provar alguma coisa. Tenho uma casa, tenho uma vida estável e faço concertos porque gosto. E quando ouço aqueles discos penso: são realmente bons.

E o novo material segue a mesma linha política?

Sim, completamente. O mundo está num estado caótico. Há desigualdade em todo o lado, pessoas cada vez mais pobres e os ricos cada vez mais ricos. Vejo líderes como Donald Trump e penso que estamos a caminhar para algo muito perigoso. Por isso as letras do próximo disco vão falar muito sobre isso: sobre pessoas a serem manipuladas, sobre propaganda, sobre a necessidade de lutar pelos seus direitos. Mas também com algum humor. Quero fazer isso de forma inteligente.

O que pode esperar o público português dos concertos?

Vou tocar material novo e também algumas coisas antigas. Mas a forma como faço os concertos agora é muito livre. Trabalho com o saxofonista Tony Wrafter e improvisamos bastante em palco. Ele é um tipo do jazz e sabe encaixar-se muito bem nos meus improvisos constantes. Misturo tudo ao vivo e deixo a música fluir como um verdadeiro sound system. E estou muito orgulhoso da música nova. Não a tocaria ao vivo se não acreditasse realmente nela.


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