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Fotografia: muyfrancescoli
Publicado a: 31/03/2026

Quatro pontas de vitalidade.

Garfo: um precioso utensílio na funcionalidade do jazz

Fotografia: muyfrancescoli
Publicado a: 31/03/2026

Amiúde designa-se como banda um grupo de tocadores, ao que no campo jazzístico se reserva tantas vezes o nome de formação. Ora, intuitivamente, “banda” soa mais a aventura, mais a estrada fora e espontaneidade, frescura e irreverência, como que de algo surgido numa garagem como sala onde tudo se congemina. Por outra parte, chamar “projecto” é trazer um designativo que parece apontar a uma acção demasiada limitada no tempo. Garfo, como grupo (e desta forma livra-se de ambas designações), é um estimulante exemplo de uma banda dentro das formações no jazz, formada no encontro de quatro companheiros pela vontade de formar uma conjunto.

São um grupo surgido em 2019 para tocar e pôr em prática as ideias de cada um dos jovens músicos, e que teve na ideia de Bernardo Tinoco (um deles) esse toque inicial. Quatro mentes frescas que se encontram em Lisboa para mergulhar nas águas do jazz. O nome Garfo surge a propósito: um objecto funcional para levar música à boca, (as)segurando a função através de quatro espíritos indomáveis e criativos. Bernardo Tinoco em saxofone tenor, João Almeida em trompete, João Fragoso no contrabaixo e João Sousa na bateria são este utensílio que dá pelo franco e directo nome que nos traz os alimentos.



O ano de 2020 leva-los-ia ao compromisso de estúdio, para no ano seguinte — em que a fulgurante etiqueta Clean Feed comemorava duas décadas de edições contínuas — trazer Garfo como disco homónimo e um novo grupo à estampa. Passaram-se meia-dúzia de anos, e o tempo deu razão a Garfo, não como mais um projecto, mas como uma banda com formação no jazz. Dispostos a fazer do segundo disco uma refrescante demonstração de como quatro instrumentos habituais, nas mãos e mentes de quatro músicos e criadores, podem soar a novas possibilidades, em 2023 surgiam com Órdia, selado pela Robalo. Para além de uma palavra inventada, trouxeram a confirmação da frescura nas linguagens entre saxofone, trompete, contrabaixo e bateria.

Garfo é directo na forma, franco no som, servindo-se da naturalidade dos timbres intrínsecos de cada um dos instrumentos e fazendo surgir o seu próprio som pelo modo como são tocados e combinados osdiferentes sabores. Exemplos sobejam (noutros colectivos) de como é o recurso tecnológico, do processamento dos sons postos ao serviço das ideias em detrimento do contrário, que se tornam novidade. Em Garfo, esse é um não lugar. Soubemos que o terceiro registo está gravado e a escuta em palcos bem recentemente garante que não arrepiam um caminho que tem sido verdadeiramente livre.

Esta Primavera surgem na estrada para uma digressão que os trará até ao Centro Cultural de Belém (dia 11 de Abril) e que teve início no passado 27 de Março no centenário Clube União Portimonense. Pelo meio já passaram por palcos pela Andaluzia e Évora, havendo também datas no Porta-Jazz (Porto, dia 9 de Abril) e no Liquidâmbar (em Coimbra, a 10 de Abril). Porque Garfo se fazem na (e pela) estrada fora. Aos dias de hoje, juntar os quatro músicos torna-se mais viável por força do compromisso de uns quantos palcos planeados. Cada um por si encontra-se ligado a múltiplas acções (e, lá está, projectos e formações). Desde a Rhythmic Music Conservatory em Copenhaga (no caso de Bernardo Tinoco), à Porta-Jazz (caso de João Fragoso) e ao indomável selo editorial Facada Records, onde João Almeida é co-editor. Isto a par de bons exemplos de música onde se relacionam cada um dos elementos de Garfo: de Nomad Nenúfar a Chão Maior, Duques do Precariado ou Old Mountain, e tantos outros que ficam por mencionar.

Musicalmente, Garfo situa-se nessa linha contínua da livre tradicional-recriação jazzística. Tem nos dois elementos de metais a sua definição da forma. De entre os uníssonos que ligam o sopro envolvente da palheta de Tinoco ao bocal intrépido de Almeida, surgem as derivações que conduzem aos lugares onde Grafo se presta a ir. Sendo que nessa viagem é tantas vezes força motriz — vinda da combinatória do tempo e ritmo — o contrabaixo e bateria que vemos Fragoso e Sousa operar, uma mutação em tempo real. É como se a imagem surgisse à contra-luz, e num dispositivo diáfano se fizessem passar súbitas camadas de cor, permitindo-nos ver outra paisagem de rompante. Uma melodia estável acometida por desafios aparentemente inesperados. Esse modo preferencial de fazer a música acontecer coloca Garfo nos domínios da improvisação, mas sem os tornar numa efectiva perda de rumo para campos do incerto.

Em palco fazem repartir os temas compostos entre francos espaços de inesperabilidade. Dando voz plural, sem uma liderança assumida, onde os quatro são autores e contribuintes do universo colectivo. Melhor será escutá-los como fazedores de amplas deambulações, improvisando entre margens do seu curso natural. Bem próximo de uma imagem dos deltas feitos por canais de meandros, ora convergentes ora divergentes, mas compondo o curso no desaguar das águas. Se a Tinoco se devem, em grande medida, ideias melódicas que (e lá está) nos conceitos dos termos das formações o designariam como alguém a liderar, é a Almeida que se reconhecem rasgos de frescura divagante — ora por ciclos de repetições, ora por timbres e fraseados. Das cordas graves saltam-se atrevimentos vários, indo do tempo trazido do arco ao som magicado pela mente de Fragoso, que tanto encontra no que está para além e aquém do braço do instrumento num espaço de criação. E é nas peles (soltas) da bateria de Sousa que esta música se atreve a melhor definir um lugar, mais concreto — um Sul a caminho do Magrebe, onde habita a ancestralidade dos berberes ou imazighen (no sentido semântico dos homens livres) — ao que sabe esta música praticada por Garfo.


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