Gaika: um self-made em protesto social

[TEXTO] Alexandre Ribeiro

 

Numa altura onde a violência policial e o racismo voltam a ser assunto em cima da mesa, alguns artistas exercem a sua força para tentar exprimir o que lhes vai dentro da alma e ajudar, da forma que podem, os oprimidos. Gaika é um rapper/produtor britânico, oriundo de Brixton, que se junta às vozes libertadoras e faz música com consciência, envolvendo as palavras atiradas num registo grimey a produções que devem tanto a Tricky como a FKA twigs.

Machine é a máquina em forma de mixtape que atropela todos os ditadores que nos tentam amarrar a língua e prender-nos com falsas realidades. A prisão da mente é derrubada por Gaika Tavares, um artista visual que numa noite de embriaguez arriscou rimar, percebendo que existia uma afinidade com o mundo da música. Um self-made man que se diz influenciado pela cena de Bristol, o grime e o garage de Londres, os The Melvins e a apocalíptica FKA Twigs. Uma mistura com diferenças consideráveis em termos de género, mas que se encontra no imediatismo e força com que vão de encontro ao público.

A bolha criativa que envolve a vida do MC leva-nos a um confronto com a miscelânea de géneros como dancehall, grime, electrónica disfuncional ou hip hop , um conjunto de ritmos pesados e desconcertantes com incidência numa voz carregada de reverb. Sufocante do início ao fim, a Dazed Digital chamou-lhe “a resposta da música electrónica a Basquiat”, um dos mais importantes artistas do século XX, sempre disposto a usar a sua arte para perverter o sistema.

O risco de se assumir como se as suas palavras fossem armas num campo de batalha torna-o fascinante e leva-nos a assumir que a paleta sónica do álbum era a única possibilidade, sendo o reflexo límpido do que é o mundo de hoje, um englobar de culturas que não conseguem calar o barulho que tanta informação junta acaba por causar. O concerto no Musicbox é a oportunidade ideal para compreender melhor (ou não) até onde poderá ir o artista britânico.