Gabriwell, a nova flor da Primavera do rap português

[TEXTO] Ricardo Farinha [FOTO] Direitos Reservados

Em tempos de Primavera frutífera, que assiste ao desabrochar de bonitas flores como KSX2016 de Keso, O Justiceiro Mike El Nite, OProcesso de Beware Jack e Blasph, os Perdidos & Hashados Orteum e o Soft Power Sagrado dos Pro’Seeds, entre vários outros no seio do rap nacional, que de facto mereciam um reconhecimento maior mas que têm um peso considerável no circuito underground desta cultura, surgiu um outro trabalho de que muito pouca gente ouviu falar, mas que merece, no mínimo, uma escuta atenta. Falamos de Arco-Íris na Babilónia, o primeiro álbum de Gabriwell, nome real de Gabriel Justino, luso-brasileiro de 20 anos, natural de Lisboa, que dá os primeiros passos no meio com um trabalho de originais.

O disco foi feito quase exclusivamente em casa do rapper/produtor, sem condições profissionais, mas é marcado por uma sonoridade orgânica e instrumental, autêntica e com influências do Brasil. “Metade dos instrumentais foram produzidos por amigos [J Rekam, Danny G, Kwanamari] e a outra metade fui eu. Estudei numa universidade que me ensinava algumas teorias e técnicas sobre como mexer com som e quando chegava a casa aplicava esses conhecimentos nas minhas músicas. Parti muito a cabeça para conseguir pôr as coisas a soar bem, ouvi o disco umas mil vezes… mas aprendi bastante”, diz ao Rimas e Batidas o artista, que também toca guitarra.

“Quis em algumas músicas dar essa sonoridade mais instrumental, menos electrónica. Hoje em dia as músicas da moda não são nada orgânicas… é tudo feito em computador e estão cheias de ruído. Tentei fugir desse padrão e misturar instrumentos mais clássicos com o rap, no disco até tenho um violoncelo! Na minha opinião, é importante criarmos o nosso próprio caminho de acordo com a sonoridade com que nos identificamos”.

Ao todo, são 11 faixas num disco que procura retratar grandes contrastes e opostos dentro da metrópole. “Comparar o que existe de bom e mau dentro de uma cidade – daí o nome Arco-íris na Babilónia – como a pobreza e a riqueza, a confusão e a calma, sempre criando extremos opostos, tal como a chuva e o sol”.



 

Gabriel Justino teve o primeiro contacto pessoal com a música aos 12 anos. “Havia uma viola lá em casa e eu escrevi uma letra em cima de uns acordes que a minha mãe me ensinou. Tinha dificuldade em cantar e tocar ao mesmo tempo, só consegui essa proeza quando já tinha uns 18 anos”. A partir daí, foi experimentando com amigos de forma despreocupada e pouco séria. “A primeira música que gravei foi no verão de 2013, em cima de um instrumental de reggae. A partir dessa altura fui gravando algumas coisas com amigos – Jimi Jah, Veríssimo, Cebolinha – se pesquisarem no Soundcloud ou no YouTube conseguem encontrar. Cantei também em algumas festas e concertos que me permitiram ter experiência em palco, tanto a fazer improviso como a cantar letras e rascunhos meus”.

A ligação ao Brasil e a sonoridades mais quentes e tropicais é notória. Gabriel nasceu em Portugal mas a família é maioritariamente brasileira. “Por causa disso eu sinto uma ligação muito grande com as pessoas e com a música do Brasil, está-me no sangue. Além disso, muitos amigos meus são de lá e isso acaba sempre por nos transformar mais um pouco”. E é também ao país do outro lado do Atlântico a que vai buscar mais referências. Gabriwell segue com atenção a cultura de hip hop brasileira e tem como inspirações nomes como Emicida, Racionais, ConeCrewDiretoria, Marechal, 3030 e Haikaiss. Em Portugal, ouve Valete, o leque de artistas da ASTROrecords e os GROGNation, mas tem uma referência maior. “De rap português costumo dizer que o Dillaz foi o meu Sam The Kid, identifiquei-me muito com o crescimento dele”.

É o despontar de uma nova talentosa flor na Primavera do rap português – e até colaborou com uma das promessas que marcaram os últimos 12 meses. Slow J mistura uma das faixas do disco. “Nós estudámos na mesma escola e quando ele lançou o seu EP convidou-me para participar no videoclip de ‘Tinta da Raiz’, daí ficámos amigos e eu senti que precisava de uma mão mais profissional para misturar pelo menos uma música, pensei logo nele”. Das outras faixas tratou Gabriwell, artista-embrião mas já bastante completo. E que bem soa este Arco-Íris na Babilónia.


 

Ricardo Farinha

Ricardo Farinha

Jornalista. Colabora desde os 18 anos com várias publicações culturais — as rimas e batidas sempre foram inerentes à vida.
Ricardo Farinha