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Fuse: “A minha responsabilidade como músico e autor é hoje muito maior”

[ENTREVISTA] Rui Miguel Abreu [FOTO] Direitos Reservados

Homem dos Dealema, Fuse é um caso singular no rap nacional: alvo de um culto fervoroso, de uma devoção funda, Fuse mantém uma relação próxima com os fãs através das palavras de um humanismo consciente, mas também capazes de investigar os recantos mais sombrios da alma humana. Recentemente abriu a sua Caixa de Pandora, o trabalho mais recente na sua discografia a solo que inclui também trabalhos como Informação ao Núcleo ou Sintoniza.

 



És um MC que sabe o que é escrever em modo solitário e no contexto de um grupo. O que dirias que são as principais diferenças entre escrever sozinho e no âmbito dos Dealema?

Escrever em grupo obriga quase a um guião porque tens uma ideia que tens de partilhar com o resto do grupo, então tens de seguir esse guião para que tudo seja coerente. Lembro-me de nos primeiros anos da banda, o estilo dealemático, mesmo quando escrevíamos em direcções opostas, se encontrar sempre nalgum ponto de inspiração. Agora, é muito diferente escrever a solo ou em grupo. A entrega, o sofrimento, a inspiração, são muito maiores e a viagem é talvez mais intensa.

No caso de Dealema, há uma definição prévia dos temas que cada música deve abordar? Cada um traz ideias para a mesa?

O trabalho em banda é de equipa e começamos as músicas sempre da mesma forma: depois da selecção instrumental, fazemos em grupo um brainstorm para ver em que direcção cada música nos leva e escolhemos o tema – salvo se algum de nós tiver uma ideia melhor e seja pro-activo nessa escolha do tema. A fase seguinte é sempre a escrita de cada um, sempre na direcção do tema escolhido em conjunto.

E com Caixa de Pandora, o teu recente trabalho a solo, como é que esse processo se foi desenrolando, tendo em conta que há um hiato de 13 anos na tua discografia em nome próprio?

Foi um processo demorado. Além de usar alguns textos que já tinha apontados em cadernos antigos, foram três anos de escrita que resultaram naquilo que é o Caixa de Pandora, apesar de não ser um disco que retrata esses últimos anos da minha vida, mas sim toda a minha vivência, a pessoa e artista que sou hoje aos 40 anos e a forma como hoje vejo a minha vida. Quando elaborei a escrita do Caixa de Pandora, não foi propositado, ou seja, não fiz um esquema ou guião para o disco. Seguiu uma direcção um bocado aleatória, foi por instinto, mas houve sempre uma ligação aos trabalhos anteriores. Quem conhecer os textos dos discos anteriores, vai encontrar sempre uma ligação – seja numa palavra, numa frase ou num verso.

 


Fuse // Caixa de Pandora


Tendo em conta que estavas a escrever um novo disco, auto-desafiaste-te em termos de escrita a fazer coisas que nunca tivesses feito?

Sim, uma coisa que tinha em mente quando fiz o disco foi que nele tinha de ter uma ou outra faixa que fosse de storytelling. Para teres uma boa história, um texto com princípio, meio e fim, tens de te dedicar a isso de corpo e alma. Essas músicas deixei para a fase final do disco porque sabia que eram textos que não seriam fáceis de escrever, seriam quase como fazer um filme. Tenho de ver o filme e a história na minha cabeça e depois passá-la para o papel. Felizmente consegui superar esse desafio de fazer storytelling.

Quem consideras os teus mestres ou referências nessa área muito específica?

Essa é sempre uma pergunta muito difícil porque tenho várias influências de quem gosto bastante da escrita. No hip hop poderia lembrar-me do Masta Ace, por exemplo. É um MC que tem uma escrita muito simples, mas ao mesmo tempo muito visual. Nessa vertente do storytelling, talvez a minha maior influência seja o Killah Priest. As histórias dele são muito visuais, pormenorizadas, viagens autênticas. Lembro-me de ouvi-lo desde os nossos primeiros tempos de Dealema, ali no 2º piso a queimar o cérebro. Consumimos Killah Priest profundamente.

E fora do hip hop, talvez dentro da literatura ou cinema, há quem escreva, seja para ecrã ou papel, que te inspire?

Outra pergunta difícil (risos). A nível de escrita do Caixa de Pandora, e se estivéssemos a falar de um ponto de vista cinematográfico, poderia mencionar [Martin] Scorsese, [Quentin] Tarantino ou talvez Stanley Kubrick.

Se olhares para as tuas estantes de casa, que livros me podes apontar?

Mensagem do Fernando Pessoa. Admirável Mundo Novo [de Aldous Huxley]. Curiosamente um livro que sempre repesquei foi O Diário de Jack, O Estripador [de Shirley Harrison]. Tanta coisa. É curioso que outro livro que me acompanhou a vida toda foi O Alquimista, de Paulo Coelho. É um livro que faz muito sentido para mim.

4:44, disco que Jay-Z lançou recentemente, é um trabalho muito diferente. Ele está próximo de completar 48 anos e fez um disco que é um auto-retrato de uma honestidade absolutamente incrível. É um disco que nos obriga a pensar numa questão que o hip hop português também começa a debater: nós sempre equacionámos o hip hop como uma manifestação artística muito juvenil, mas a verdade é que há pais, e daqui a pouco avós, no hip hop em Portugal. Como é que tens lidado com esse avançar dos anos perante este meio específico que escolheste para te expressares?

Tudo depende da forma como nos virmos enquanto artistas e criadores, e deduzo que haja aí artistas cuja visão sobre a própria arte é muito objectiva ou limitada. Quando a tua criação, a tua arte, se transpõe para a visão que tens da vida, então acho que isso é intemporal e não tem idade.

Actualmente sinto que a minha responsabilidade como músico e autor é muito maior e está ligada a um grupo maior de pessoas do que há 15 anos. Tenho pessoas que vão dos 16 anos até à terceira idade que estão atentas ao que faço. Por exemplo, tenho uma ligação ao Centro de Paralisia Cerebral, no Porto, onde os meus alunos de música têm paralisia cerebral. Por sua vez, os próprios terapeutas que trabalham lá conhecem o meu trabalho. Também pertenço à Associação de Pais da escola do meu filho, onde os outros pais conhecem o meu trabalho. Ou seja, temos aqui uma responsabilidade que transcende muito os versos que escrevo. Aí tudo se torna intemporal, não tem idade, ganhas uma missão muito maior do que aquele objectivo ou sonho inicial que te fez arrancar na música. Agora, deduzo que haja artistas que ainda não descobriram a sua missão, que estão a começar essa viagem e a fazer música apenas pelo entretenimento. A música é uma linguagem universal com um poder incrível que chega a pessoas de todas as idades e nacionalidades, é a língua mais universal que temos no planeta. Sinto-me feliz por ainda fazer música com esta idade, faz cada vez mais sentido.

 



Já pisaste imensos palcos por essa estrada fora – tanto a solo como com os Dealema. Qual foi a coisa mais extraordinária que já te disseram à saída de um concerto em relação às vossas palavras?

Foram muitas. Das mais grandiosas foi ouvir, por exemplo, de um miúdo que se tornou grande fã nosso porque nasceu e cresceu a ouvir Dealema através do pai. Ou seja, temos pai e filho fãs de Dealema, a passar de uma geração para outra. Isso é muito bonito.

Outra foi um rapaz que disse que a nossa música foi o melhor amigo dele a ultrapassar o cancro. Conseguiu vencer, tornou-se num dos nossos maiores fãs e hoje é nosso amigo. Há uma fotografia dele na fase inicial da quimioterapia a assistir ao primeiro concerto de Dealema. Ele diz que a partir daquela noite a vida dele mudou.

Por altura da subida de Obama ao poder, escreveu-se muito sobre como o hip hop foi uma força transformadora de mentalidades e dinâmicas sociais na América. Achas que o hip hop é também uma força transformadora na sociedade portuguesa? O país é hoje diferente daquele país que vocês conheceram quando começaram a dar os primeiros passos com Dealema?

Sim, hoje o país é diferente, sem dúvida. Não podemos dizer que é diferente por algum tipo de influência do hip hop, mas é muito importante e que se valorize cada vez mais a cultura em Portugal. Não só a profissão de músico, mas também outras profissões ligadas à cultura. O Estado tem de valorizar mais a arte porque esta é mágica, faz bem às crianças e jovens, ajuda-nos a crescer exterior e interiormente. Essa visão em relação à arte e música progrediu muito, apesar de ainda termos um longo caminho a percorrer.

Em relação ao hip hop, acho que tem é um poder enorme porque é um movimento que pode chegar às pessoas de uma forma grandiosa. Aliás, acho que é o movimento musical mais grandioso nesse aspecto. Prova disso é quando vemos nos festivais dos últimos anos uma grande quantidade de público jovem que ouve hip hop. Acho que agora temos fãs de hip hop em todas as escolas do país, é uma coisa assustadora.

Eu estou ansioso e curioso para que este ciclo do boom do hip hop enquanto entretenimento passe a um ciclo de uma geração que vai estar mais velha, compreender melhor e estudar mais a cultura e ter melhor cultura em relação ao hip hop. Esta geração de fãs que torna o hip hop num género musical muito escutado em Portugal ainda não tem cultura suficiente para entender a grandiosidade e toda a história do hip hop. Quando passarmos este ciclo e a cimentarmos melhor nesta geração, o hip hop terá um poder enorme no desenvolvimento do nosso país.

O hip hop no Porto assumiu com orgulho a sua identidade regional, por exemplo, através do sotaque. Que palavras podem ser rimadas no Porto por causa do assumir dessa identidade que não seriam possíveis de rimar no Alentejo ou Algarve ou Lisboa?

(risos) O calão é muito lindo, é bonito ver as diferenças de sotaque e calão de região para região, é muito saudável. Espero que isso sobreviva e que haja sempre essa diferença de estilos entre hip hop feito no Porto ou no Alentejo ou na Margem Sul. Lembro-me de surgirem no Porto expressões e palavras como ‘grande cena’, ‘moço’, ‘a nossa gera’, que se usavam há 15 ou 20 anos e que agora tendem a dissipar-se porque temos visto cada vez menos hip hop do Porto a figurar nas rádios e redes sociais, apesar de achar que há muito pessoal com potencial no norte.

A palavra “som” no Porto poderia rimar, por exemplo, com qualquer coisa acabada em ‘ão’. É uma coisa que também se faz no Brasil, forçar rimas através da forma como as palavras são de facto faladas. Isso mostra-nos que existem muitas maneiras de entender e falar o português.

Sem dúvida. Lembro-me de em várias situações estar com colegas de Lisboa e estudar e analisar rimas e dizerem, “isso é uma rima imperfeita”. Não é imperfeita, para nós faz sentido. Posso dizer que estou a rimar neste “sõm” com “emoçõm”. Se calhar vocês dizem “emoção”, mas para nós não faz sentido. Já vi também a acontecer o contrário, os MCs do norte, nos últimos anos, a tentarem adaptar o sotaque cada vez mais ao sul. Acho que não há necessidade disso, é característico e acho bonito que [o sotaque e calão do norte] não desapareça.

Olhando para a tua carreira em específico – e alargando a Dealema -, elege um poema que aches que é um bom exemplo da tua melhor escrita.

“Crisálida”, do Caixa de Pandora é um texto que gosto mesmo muito.

 


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