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Funmilayo Afrobeat Orquestra

Funmilayo

Edição de autor / 2022

Texto de Adailton Moura

Publicado a: 12/12/2022

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Em 20 de novembro de 2019, comemorado no Brasil o Dia da Consciência Negra, a Funmilayo Afrobeat Orquestra trouxe um ar de esperança para a música instrumental brasileira, principalmente a que é influenciada pela diáspora africana. Até aquele momento, as bandas de jazz e afrobeat eram formadas por homens, sendo os brancos a maioria. 

É verdade que de lá para cá, praticamente nada mudou. Mas ao estrear com o singleNegração”, que faz uma ode à vereadora e ativista Marielle Franco, assassinada em 2018, e reafirma o poder da negritude, a primeira banda de afrobeat do país formada somente por pessoas negras, mulheres e não-binárias deu voz às suas iguais que não viam perspetiva dentro de um cenário tão masculino e elitista. 

Quando apresentou “Vazante de Verão”, no final de 2021, o grupo batizado com o nome de uma das mais importantes ativistas pela luta das mulheres por liberdade, direito ao voto justiça social na Nigéria, a Funmilayo Anikulapo Kutiaguçou, aguçou ainda mais a curiosidade do que estava por vir. A cobrança por um projeto mais completo era constante, porém, Rosa Couto, Stela Nesrine, Jasper Okan, Sthe Araujo, Afroju Rodrigues, Ana Goes, Tamires Silveira, Vanessa Soares, Larissa Oliveira, Bruna Duarte e Priscila Hilario estavam focadas nas icônicas e dançantes apresentações (ao vivo e online) e também na maturação de algo consistente. 

Praticamente quatro anos depois de iniciar um trabalho consistente, peculiar e instigante, a Funmilayo mostrou ao mundo o seu esperado álbum homônimo. Os quase 50 minutos, divididos em 10 músicas, são direcionados pelo swing cadenciado da textura clássica arquitetada por Fela Kuti, que recebe a inserção de elementos musicais da macumba e do candomblé (religiões afro-brasileiras). 



Apesar de dançantes, as canções possuem conteúdos líricos que para alguns pode gerar um certo incômodo pelo tom crítico que carrega. “Wikipreta” é uma delas. Os tambores criam uma base crua para que a mensagem seja entregue — sem desvios — a pessoas brancas que só abraçam as causas e lutas negras quando convém, e ainda usam pessoas pretas como uma espécie de Wikipédia para entenderem temas relacionados aos problemas vivenciados cotidianamente pelos afro-brasileiros. Monna Brutal (rapper trans com uma das canetas mais afiadas do BR) chega junto para complementar as ideias com suas rimas. “Manifesto” bebe da fonte do freejazz para servir de camada para um slam que denuncia as opressões sofridas por corpos femininos, negros, LGBTQIAP+.

Do protesto às trajetórias de luta, passando pelo autoamor e cuidado, o disco mantém as raízes “afrobeatianas” ao unir grooves festeiros com letras que levam a reflexão. Pode ser que por algum momento o “tesão” esfrie – e a dança perca a força – por tratar de dores. Mas existe a necessidade de tirar a casca da ferida para mostrar que ainda estamos num processo de cura que pode durar um bom tempo. Não que essa seja a estratégia. Faz parte da identidade do tipo de música que escolheram fazer. Porém, o choro não se faz presente a todo momento.

Seja em “Ondina”, “Para e Respira” ou “Fruta-Semente”, o poder ancestral ganha evidência. De alguma forma, as três se entrelaçam musicalmente e também na lírica. A primeira é um grito de libertação durante uma fuga, que leva o ouvido ao êxtase e fecha com uma cuíca chorosa, mas impactante. A outra aumenta ainda mais o frenesi, mas pede calma. Já a terceira, comandada por Josy.Anne, serve como um mantra para subtrair todo o veneno injetado por séculos na população negra. Nesta, as influências dos terreiros das religiões estão bem evidentes. O mesmo acontece com “Aaliyah”, a única completamente instrumental. Para ter uma experiência completa é necessário fechar os olhos e levar a mente para bem longe da realidade.

Funmilayo chega justamente no período em que o ciclo caótico da história do Brasil se fecha, e a tão esperada transformação começa a ser sinalizada. Como diz a composição leve e revigorante “Nascer pra Dentro”, que possamos voltar para o primeiro respiro.


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