Fumaça Preta // Pepas

[TEXTO] Rui Miguel Abreu

O debate tem anos (décadas?…) e sem pretensões de o resolver, importa que aqui se clarifique o que deste lado se entende por psicadelismo, de forma a que a palavra não se esvazie como uma mera (e preguiçosa…) tentativa de ligação da música que os Fumaça Preta apresentam em Pepas a uma qualquer “cena”, presente ou passada. 

Sempre entendi o psicadelismo como espaço de invenção e procura, como terreno de colisão (entre ideias, géneros, abordagens técnicas), como um acto de criação laboratorial, exploratório, sensorial e cerebral também. Isso manifesta-se, na prática, encarando o estúdio como um tubo de ensaio, usando os seus recursos de forma plena, colocando a mesa de mistura, os instrumentos e microfones e os efeitos ao serviço não de simples tiques formais que alinhem a sonoridade com uma qualquer “onda”, mas de uma vontade de procura do que existe para lá do som, para lá da estrutura convencional de canção, como reais ferramentas de expansão: das possibilidades tímbricas e harmónicas, das noções de espaço sonoro. 

E assim entendido, o termo “psicadelismo” pode perfeitamente ser usado para descrever música dos mais variados géneros, do jazz ao hip hop, da electrónica ao rock dos mais diversos quadrantes. Os Fumaça Preta de Alex Figueira (bateria, percussões e voz), Stuart Carter (guitarra, oscilador, orgão) e James Porch (baixo) são, obviamente, psicadélicos. O que não significa que seja fácil alinhá-los com outros nomes conotados com essa mesma palavra.

Pepas, lançado em 2019 na Stolen Body de Bristol, sucede ao homónimo trabalho de estreia (2014) e a Impuros Fanáticos (2016), dois álbuns lançados pela londrina Soundway Records. E este é, talvez, o mais visceral, intenso e ambicioso trabalho que o trio carimbou desde os alvores do seu percurso, no início desta década, que começou por render um par de singles na Music With Soul! Records do próprio Alex Figueira.

Alex vive em Amesterdão onde opera uma loja de discos, lança singles na sua etiqueta, dá aulas de percussão e, sobretudo, opera o Barracão Sound, designação modesta para o seu estúdio/laboratório onde este novo e importante capítulo dos seus Fumaça Preta foi registado. Aí, Alex privilegia muito naturalmente equipamento analógico entre gravadores de fita, teclados clássicos como o orgão Farfisa, piano eléctrico Hofner e efeitos como o delay analógico da Dynachord ou o reverb Fisher Space Expander, ferramentas cruciais para se esculpir o som que um registo como Pepas ostenta. 

E que som é esse? Antes de mencionar coordenadas, permitam-me que tente descrever primeiro o seu carácter: a produção assumida por Figueira e Carter parte do input do trio responsável pela base de percussão, baixo, guitarra e teclados para uma paleta dilatada por músicos convidados que trazem para a equação instrumentos como os saxofones alto e barítono, flauta, violino e violoncelo. Com essa variedade de sons à disposição, a dupla de produtores desenha uma imagem carregada de grão analógico, com generosa amplitude e profundidade de campo, procurando criar múltiplas dinâmicas, entre a clareza absoluta e o denso nevoeiro, quase “wallofsoundesco”, num resultado de tons menos “brilhantes” do que alguns usos do termo “psicadélico” por vezes sugerem. O som dos Fumaça Preta em Pepas não é “caleidoscópico”, antes uma amálgama de tons sépia, mais terrenos e sombrios, mas ainda assim variados e ricos em texturas, mérito de uma assertiva escolha de instrumentos com forte carácter tímbrico e de uma inteligente mistura que sabe atribuir o espaço correcto a cada um dos sons. Ou dos tons, se preferirem a analogia visual.

Musicalmente, estamos perante um trabalho que percorre uma generosa distância a partir de uma base eléctrica e decididamente rock, com laivos punk (Dead Kennedys, Crass?), space (Hawkwind?) ou kraut (Eloy?…), mas com espaço para derivas variadas para territórios mais “exóticos” (melodias de carácter oriental, por exemplo), com cadências que se aproximam, no plano vocal, do rap, e, no plano rítmico, do funk mais exploratório e delirante da escola Parliament-Funkadelic. Pinceladas de jazz libertário e electrónica primitiva (à lá Silver Apples) surgem igualmente a espaços, ajudando a tornar ainda mais complexa a tarefa de encontrar o lugar dos Fumaça Preta no mapa estético corrente.

Pepas traz igualmente uma dimensão conceptual: com o português a ter sido língua preferencial nos trabalhos anteriores (Figueira é português-venezuelano), aqui é o castelhano que é eleito como língua político-poética, com Alex a usar a música dos Fumaça Preta como veículo para uma reflexão, feita à distância que a sua vida na Europa lhe impõe, sobre a condição complexa da Venezuela, sobre o sofrimento em que sente que vive a sua família, sobre a origem política de tal sofrimento. Há, igualmente, uma dimensão paralela, emocional, psicológica e espiritual, com Alex a servir-se da música também como terapia para combater a depressão em que se viu envolvido nos últimos anos, fruto de um questionamento pessoal sobre o sucesso ou a falta dele, sobre a música como fonte de equilíbrio financeiro, sobre o próprio espaço que os Fumaça Preta ocupam numa exigente e por vezes impiedosa indústria. 

A música que os Fumaça Preta apresentam em Pepas é resolutamente livre e independente precisamente porque não se conforma com rótulos fáceis, nem procura alinhamento oportunista com cenas mais ou menos revivalistas e com “ismos” que possam garantir cachets ou slots em festivais gourmet. Como a capa que parte de um complexo trabalho 3-D ou escultórico assinado pelo artista plástico colombiano Mateo Rivano, Pepas traduz um grito honesto, puro e visceral. Merece, claramente, os vossos ouvidos. 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
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