Fred no Lux Frágil: e o amor encontrou-nos no fim

[TEXTO] Vera Brito [FOTOS] Inês Ventura 

Sempre fez parte da natureza humana a necessidade de estarmos próximos uns aos outros, de partilhar experiências, trocar ideias, de dar e receber amor por encontros e desencontros numa aprendizagem que nunca cessa. Mas na verdade, muitas vezes, parecem ser os momentos de solitude aqueles que nos trazem um maior conhecimento sobre nós próprios e para os quais é quase sempre necessária uma dose cavalar de coragem para enfrentar o estranho que do outro lado do espelho nos olha com desconfiança e para conviver com os nossos pensamentos mais secretos. O Amor Encontra-te no Fim é resultado do diálogo que Fred Ferreira manteve consigo próprio no último ano, numa prova estóica de coragem de um artista que, em todo este tempo de carreira, sempre se deu a conhecer em colectivo nos muitos projectos que integrou e por todos os músicos que impulsionou, e que agora neste disco (mesmo com todos os pontos de contacto, sobretudo evidentes aos seus trabalhos com os Orelha Negra) parecemos estar a redescobrir.

Um processo de auto-conhecimento que deve ter sido extremamente exigente, por isso imagine-se agora o peso de apresentá-lo a uma sala cheia, com muitas caras amigas (por vezes é mais fácil abrirmo-nos a desconhecidos), com toda a honestidade, entrega e vulnerabilidade que lhe seriam exigidas. Com isto em mente e instantes antes do concerto começar, ao embalo da profética “Numb” na voz inconfundível de Beth Gibbons, já estávamos certos de que nesta noite seríamos testemunhas de momentos irrepetíveis.



De “309” a “Para Nunca Mais Cair”, deixando reservada a visita a “True Love Will Find You In the End” para a despedida da noite — original de Daniel Johnston e seguramente a inspiração do nome escolhido para este trabalho, que resultou num dos títulos de discos em português mais belos e desarmantes de que temos memória -, as quinze faixas de O Amor Encontra-te no Fim soaram irrepreensíveis, com o músculo da bateria de Fred Ferreira, ao lado de Ricardo Riquier, ali a cargo das guitarras, mas também responsável na sua produção, ajudados por Ricardo Dias Gomes no baixo e Alberto Vieira nos teclados. Uma noite que se sentiu em crescendo, na qual fomos mergulhando gradualmente na nossa própria viagem a sós, desde a relaxante batida jazz de “Expectativas”, até às arritmias tensas de “Fica”.
Pelo meio vários momentos marcantes: o primeiro quando na sua interpretação AMAURA e Francis Dale carregaram de alma “Amor Sincero”, assim como todas as músicas que trazem a participação de gravações de muitas vozes amigas: a mensagem de apoio de Valete, a definição de amor por Marcelo Camelo, o manifesto ao equilíbrio das coisas importantes da vida por Carlão, em que cada palavra ia sendo forjada na instalação de luz ao fundo do palco, e aquela que, mesmo já conhecendo em disco, nos apanhou completamente desprevenidos na torrente de comoção de mais uma vez recordar Zé Pedro, nessa saudade que não se apaga nunca, sentida por todos os presentes, mas que terá sido especialmente emocional para Fred Ferreira.

Até perto do final vivia-se um concerto com as doses certas de energia e emoção, com boa fluidez em palco e sinergia com o público, estando nós prontos para abandonar o Lux mais elevados do que quando entrámos, pelo que nada nos preparou para aquele momento final que acabaria por transformar todo o curso da noite. Sozinho em palco, Fred sentou-se aos teclados, fora do seu “habitat natural”, de costas para a plateia, e foi preciso algum tempo (demasiado) para que o público acalmasse o burburinho das conversas e caísse em si para o que se estava a passar. Quando por fim o silêncio se instalou, ficámos todos perplexos, de olhos presos e coração apertado, durante a frágil interpretação de “I See a Darkness” que arrancava aos dedos e à voz que lhe fugiam atraiçoados pelos nervos e pela emoção. E nós, sufocados pelo nó na garganta, sentindo-nos espectadores intrusos de um momento que sabíamos estar a ser demasiado pessoal, por um lado desejando que terminasse rápido, por outro eternamente gratos por assistirmos a tamanha entrega, tão despojada e real. Porque o amor encontra-nos sempre quando conseguimos receber na mesma dose em que nos damos. Nesta noite acabaria mesmo por nos encontrar no final.


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