Four Tet no NOS Primavera Sound: a virtude está no ecletismo

[TEXTO] Diogo Pereira [FOTO] Direitos Reservados

Four Tet é um daqueles artistas que prefere deixar a sua obra falar por si. Isto explica a forma como se apresentou ao público português ontem à noite, no Palco Super Bock do Parque da Cidade: discreto, de t-shirt vermelha e casaco escuro, sem o auxílio de quaisquer jogos de luz estroboscópica ou projecção de vídeo megalómana atrás de si. Só a sua presença modesta e despojada, envolta pela escuridão do palco, o seu rosto alumiado por nada a não ser aquelas pequenas lâmpadas que iluminam o equipamento (um conjunto minimalista, feito de um portátil e algumas estações de loops). No fundo, um reflexo da sua música: parca em meios, rica em conteúdo.

Foi também com essa subtileza característica que começou o seu set, lenta mas auspiciosamente, com a sua habitual fusão de música étnica com ritmos modernos de dança. Mas cedo chegámos a um dos momentos altos do concerto (e um dos mais brandos): o memorável “Two Thousand and Seventeen” e o seu inesquecível e dulcíssimo riff de santur, em cima de uma batida pesada (cortesia de Henri Salvador) e um baixo profundo, que fez corar este repórter, que finalmente teve a oportunidade de ouvir uma das músicas mais bonitas do catálogo de Four Tet ao vivo.

 



O que se seguiu foi uma mistura muito bem conseguida entre os dois géneros que o tornaram conhecido: a música de dança e a música étnica. A maior parte do set incidiu sobre New Energy (do alinhamento fizeram parte, além de “Two Thousand and Seventeen”, “LA Trance”, “Lush”, “SW9 9SL” e “Planet”), mas ainda ouvimos “Kool FM” de Beautiful Rewind, bem como “Locked” e “Jupiters” de Pink. Ou seja, foi uma viagem por obras anteriores, mas que não foi além de 2012.

O pulso do techno foi uma presença constante, a não ser nos pequenos interlúdios (usados como transições entre as músicas) onde se ouviram texturas ambientais e vozes etéreas deslocadas.

De resto, ouvimos ontem todos os elementos que compõem a sua inconfundível sonoridade: os instrumentos exóticos, como cítaras, tablas, gongos balineses e tambores de água, os arpeggios à Oneohtrix Point Never, as batidas hipnotizantes. As passagens mais étnicas deram à música uma faceta mais onírica e algumas das melodias fizeram corar os mais susceptíveis. E houve surpresas, como um breve regresso aos tempos de Beautiful Rewind (com “Kool FM”) e o seu fascínio pelo garage britânico, e saxofones infrenes dos seus tempos free jazz de Dialogue.

E o modus operandi foi o mesmo de sempre (o que partilhou com a Red Bull Music Academy): Kieran foi introduzindo linhas melódicas de faixas conhecidas, prolongando-as ou misturando-as com percussão agressiva. Foi provocando o público (criando tensão, como o próprio disse) com elementos familiares da sua obra, mas manteve-os encobertos numa neblina de glitch e efeitos que lhe permitiram dilatar certos sons (aumentando a sua duração), ou conferir-lhes um aspecto mais surreal e onírico (fez sobretudo grande uso do filtro passa-baixo, que fez a música aos poucos soar cada vez mais distante, como se estivesse a fugir dos nossos ouvidos, e depois regressar em força acompanhada de percussão ribombante). Por vezes despia a música de todos esses elementos, tornando-a esquelética, nada mais que bombo, tarola e baixo a martelar-nos os ouvidos, fazendo-nos sentir como se estivéssemos mergulhados debaixo de água e ouvíssemos tudo meio amorfo, e depois voltássemos à superfície para respirar. E aproveitou bem o sistema de som, sobretudo para quem esteve perto do palco, e sentiu a caixa torácica estremecer com o baixo e a percussão.

E embora tenha sido muito mais house do que chillout, muito mais dançável do que relaxante, concebido para as massas, foi um set ecléctico, musculado e pujante, capaz de satisfazer tanto o mais ardente raver como os fãs do seu trabalho de estúdio. De facto, ouviu-se ontem um pouco de tudo, desde deep house a two-step, de ambient a world music. Não nos podemos queixar que não houve algo para toda a gente.

E não podia ter acabado de melhor forma, com o produtor inglês a brincar à Morton Subotnick, despedindo-se com um jogo de bleeps e bloops aleatórios de sintetizadores de antanho, como que a dizer-nos “Não pensem que me esqueci do meu lado mais avant-garde”.

O concerto soube a pouco (apenas uma hora de música), e foi uma desilusão não termos visto um bonito jogo de luzes como no seu Boiler Room de Londres (terá havido um problema de última hora?). E peca por não termos ouvido sequer um pouco da folktronica de Pause e Rounds, provavelmente não aptos a um festival de massas. Por isso esperemos que regresse a Portugal num futuro próximo com um set mais longo, que dê espaço para mais surpresas. Ficaremos à espera. Até lá, é ouvi-lo de novo e sonhar. Nunca é demais.

 


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