Folclore Impressionista: hauntology à portuguesa em edição de luxo

[TEXTO] Rui Miguel Abreu [IMAGENS] Folclore Impressionista

O colectivo Folclore Impressionista prepara-se para editar, através da Nariz Entupido, o trabalho de estreia CAMPOS ESPECTRAIS vol. 1 – Who is This, Who is Coming?, cassete em embalagem de luxo limitada a 100 exemplares.

Neste projecto militam João Paulo Daniel e Sérgio Silva (ambos ligados também aos Beautify Junkyards) e António Caramelo. “Mais do que uma banda, é uma plataforma aberta para trabalhar em colaboração com outros artistas, não apenas da área musical”, adianta João Paulo Daniel em missiva enviada ao Rimas e Batidas.

 



Depois dos Beautify Junkyards – cujo percurso os conduziu agora até à edição do seu novo álbum na britânica Ghost Box -, os Folclore Impressionista representam o passo seguinte na imposição de uma sensibilidade hauntológica entre nós. O género – que tem em etiquetas como a já mencionada Ghost Box ou Folklore Tapes relevantes depósitos de edições e ideias – define-se pela ideia de que o nosso presente é assombrado por memórias espectrais de lugares e momentos da história específicos e de que existe um diálogo entre essas duas dimensões. Simon Reynolds escreveu abundantemente sobre a hauntology em Retromania – que versa sobre “a adição da cultura pop ao seu próprio passado”, conforme se indica no subtítulo – e Rob Young também lhe dedicou bastante atenção no seu incontornável Electric Eden, tomo que evolui em torno da investigação da ideia de folk — ou folclore, se quisermos — e de como essa ideia foi sendo apropriada por diferentes gerações e correntes musicais, incluindo, no passado mais recente, por estéticas tão particulares como a que a Ghost Box explora.

 


Booklet_Cover


CAMPOS ESPECTRAIS vol. 1 – Who is This, Who is Coming? começa por se apresentar como um precioso objecto de colecção, claramente inspirado em algumas das edições da Folklore Tapes: uma caixa que contém não apenas uma cassete com a obra musical, mas também um vasto conjunto de “artefactos” – entre postais, fotografias, ilustrações e mapas – que procuram ilustrar a específica ideia de lugar a que este lançamento se refere, no caso o mágico, remoto e especialíssimo Vale do Côa.

O trabalho, que é dedicado à memória do recentemente desaparecido escritor Mark Fisher, ele mesmo um dos autores centrais da hauntologia, sobretudo no material que assinou em Ghosts of My Life, constrói-se com uma inteligente e muito bem conseguida mistura de electrónica, gravações de campo que ancoram toda esta música num lugar e num momento precisos e rendilhados acústicos de assinalável poder evocativo: quase que se pode ouvir a própria paisagem, brutal na sua escala, mágica no seu primitivismo, misteriosa de tão densas as camadas de história que acumula como muito bem sabe quem já por ali caminhou.

João Paulo Daniel lançou luz (ou sombras…) sobre as coordenadas que guiam o pensamento dos Folclore Impressionista no esclarecedor email que enviou ao ReB com a apresentação do primeiro volume de Campos Espectrais.

 


postcard_3


[CAMPOS ESPECTRAIS]

“CAMPOS ESPECTRAIS é o primeiro trabalho editado por Folclore Impressionista. A cassete editada em 2017 (também pela Nariz Entupido) tratou-se de um registo colectivo organizado por Folclore Impressionista, que contou com a participação de Jejuno, Ondness e António Caramelo.”

 

[HAUNTOLOGIA]

“Os Folclore Impressionista têm afinidades estéticas com a hauntologia. Mas não teremos todos? Não será esta uma condição contemporânea incontornável? Talvez não seja exagerado dizer que a hauntologia é o equivalente, no plano estético, ao conceito de fim da história de Fukuyama!

Os Folclore Impressionista são hauntologistas que acreditam na existência de espaços hauntológicos próprios, gerados por memórias culturais e geografias específicas, e nas estratégias operativas da Psicogeografia para investigar as espectralidades do lugar.

Este entendimento da hauntologia enquanto sensibilidade construída à volta da ideia de espectro, do simultaneamente presente e ausente, mas sempre assente em memórias culturais e geografias específicas, é fundamental. Pois se, por exemplo, no universo da Ghost Box faz todo o sentido vermos a hauntologia associada às memórias de um tempo caracterizado pelas expectativas criadas pelo modernismo popular (um futuro nunca concretizado e interrompido pelo neoliberalismo) ou aos espectros de algumas séries e outros registos televisivos, como os public information films, que tanto marcaram as gerações de 60s e 70s, essas mesmas associações tornam-se caricatas, e até mesmo desonestas do ponto de vista intelectual, se apropriadas por alguém quem não possua essas memórias nem tenha participado dessa experiência geracional. Portanto, esta questão da especificidade e subjectividade das memórias e das geografias é uma questão fundamental, uma vez que a hauntologia é uma condição estética que em nada tem a ver com um certo tipo de sonoridade, estilo musical ou imaginário particular. Se assim não fosse estaríamos a falar de hauntologismo em vez de hauntologia. Mas o hauntologismo não existe…”

 

[BANDA SONORA PARA O VALE DO CÔA]

“A declaração inicial de Folclore Impressionista, ‘inspired by lost memories and hauntological geographies’, continua, por isso, actual, e reflecte-se de forma clara em CAMPOS ESPECTRAIS, que no texto que dá o contexto à edição é apresentado como: ‘An imaginary soundtrack for the eerie landscape of the Côa Valley. Considered one of the most important open-air sanctuaries of Palaeolithic Art in the world, the Côa Valley was, during our childhood, our secret garden, a parallel place of escapism and wonder. This soundtrack is all about spectralities: the hazy memories and the ghostly atmospheres of a haunted landscape, that invades our present from the past’.”

 

[A MÚSICA]

“A música de Folclore Impressionista pode, até certo ponto, ser vista como um exercício de construção de atmosferas, em que os temas se desenvolvem num tempo espectral em que o passado, o presente e o futuro coexistem. Os temas não são estruturados como canções, nem seguem uma narrativa temporal. Pertencem a um tempo que não existe e não têm um tempo próprio. O seu sentido surge quando, em conjunto, funcionam como uma banda sonora imaginária.”

 


cassette box_1


[A INSPIRAÇÃO]

“Existe um grande respeito e admiração pela forma como algumas labels, como a Ghost Box, a Clay Pipe Music ou a Folklore Tapes, foram capazes de construir estéticas hauntológicas com uma identidade muito própria, partindo de diferentes formas de construção conceptual e de estratégias operativas distintas. São os universos imaginários ou half-remembered das primeiras edições da Ghost Box, tais como Mind How You Go (2005) de The Advisory Circle, The Willows (2004) de Belbury Poly ou as colagens sonoras de The Focus Group, que desde logo estabeleceram as coordenadas do que viria a seguir. São as incursões psicogeográficas da Clay Pipe Music, em trabalhos como Plinth, Tyneham House ou 52. E são também os vários projectos de investigação e edição da Folklore Tapes, sempre à volta dos mistérios e mitologias das ilhas britânicas.

Mas se houve influencias que se sentiram de uma forma quase permanente ao longo da elaboração deste trabalho, estas vieram principalmente da atmosfera hiper-floral do filme Valerie and her week of wonders, de Jaromil Jires, da estética psicogeográfica do filme em super 8 de Derek Jarman, Journey to Avebury, e de dois filmes que fizeram parte das “christmas ghost story” transmitidas pela BBC nos anos 70: The Stone Tapes, escrito por Nigel Kneale, e Whistle and I’ll come to you de M. R. James, do qual foi retirada a frase que dá o subtítulo ao álbum, ‘Who is This, Who is Coming?’.”

 



CAMPOS ESPECTRAIS vol. 1 – Who is This, Who is Coming?

Side A:

1. The Secret Garden
2. Canada do Inferno
3. Subir “Os Trinta”
4. Everyday Ceremony
5. Vale dos Moinhos
6. The Energy Programme

Side B:

7. In the Summer
8. Pagaja
9. Ancient Ritual
10. Crosses
11. Who is This, Who is Coming?

Composed and Performed by Folclore Impressionista (João Paulo Daniel, Sérgio Silva and António Caramelo) // Field Recordings by António Caramelo and JP Daniel // Hydrophonic Recordings by António Caramelo // Recorded, Mixed and Produced by João Paulo Daniel // Cover Artwork by João Fonte Santa // Postcards by António Caramelo // Poster Landscape Artwork by Xavier Almeida // Poster Map Artwork by Pedro Petiz // Booklet Artwork by João Paulo Daniel // Design by JP Daniel, A Caramelo, P Petiz and J Castro // Risograph printing by Pedro Petiz // Screen printing by Gonçalo Duarte

To Mark Fisher

Edição limitada de 100 unidades Nariz Entupido NE03 | Fev.2018

Abaixo, quatro mixes que os Folclore Impressionista disponibilizaram na sua conta Mixcloud e que ilustram bem o universo musical em que se movem.

 


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu