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Flying Lotus: um dos donos daquilo tudo lá em Los Angeles

[TEXTO] Diogo Santos [FOTO] Direitos Reservados

Não lhe bastava a genealogia de fazer inveja ao Ryan Gosling no La La Land. Flying Lotus, aos 33 anos, é já um dos criativos mais cobiçados um pouco por todos os cantos onde se sampla, rima, produz, filma… Embebido em desenhos animados, atalha caminho pela mítica Stones Throw (J Dilla, Madlib, Aloe Blacc, Dam-Funk, Washed Out, Knxwledge…) onde acaba por não editar. Salta nesse trampolim que é a Red Bull Music Academy e aterra na Warp, um dos selos mais insuspeitos da música sem fronteiras. E é por esta altura, já no topo do mundo, que decide lacrar a carta de amor a Los Angeles, ao fundar a Brainfeeder. Abraça amigos, agrega fazedores de beats, gente que experimenta, e regista novas coordenadas na cena da cidade dos anjos.

Antes, importa entrar de rompante pela discografia a solo do californiano. Em nome próprio, Flying Lotus tem crescido de disco para disco. Da entrada tímida pelos caminhos do IDM e do hip-hop instrumental é, em 2008, com Los Angeles, que cria a sua marca e ganha as comparações com Madlib e J Dilla. Com Cosmogramma, em 2010, dá-se a verdadeira explosão ecléctica num dos registos mais infalíveis do novo milénio. Em 2012, FlyLo brinda ao jazz do futuro com Until the Quiet Comes. E em 2014, You’re Dead! confirma-o como um dos mais inspirados e inspiradores compositores da sua geração. Sim, este ano haverá mais.

 



Não fez o caminho sozinho. A lista de ilustres que têm acompanhado Flying Lotus é do infinito e mais além: The Gaslamp Killer, Thom Yorke, Thundercat, Erykah Badu, John Greenwood, Kendrick Lamar, Snoop Dogg, Ennio Morricone… Enfim. É o que dá ter muito talento e, em cima disto, poder dizer ao telefone “Está? Daqui fala Steven Ellison, sobrinho-neto do John Coltrane e da Alice Coltrane”. Convenhamos que é só um bocadinho nada mais impactante do que dizer ao interlocutor “Viva! Daqui fala o Paulo, filho da Célia, teclista dos Nunca Gravaram Um Single e do Tó, o vocalista dos Ninguém Quer Saber”.

Embora tenha ganho grande impulso pela forma como destruiu as formalidades tipicamente balizadas em palavras como jazz, hip-hop ou electrónica, FlyLo é, ao fim de contas, um produto de uma Los Angeles esponja de culturas. São os clubs de jazz, os low-riders, os bairros de gangues, as tabelas de basquetebol, o skate em Venice Beach e os bairros mais urbanos onde há dinheiro para ter amplificadores. É a não negação do que está plasmado nas ruas. Do velho e do novo. E a abertura para o que há-de vir. É Lavoisier. É assim a Brainfeeder, um selo que se estende desde a California até Essex (Lapalux), Paris (Mr. Oizo), Nova Iorque (Taylor McFerrin), etc. É também a casa de Thundercat, autor de um dos discos mais aclamados de 2017 (Drunk) e figura preponderante na afirmação (popular?) de Kendrick Lamar…

 



E juntaram-se os três à esquina. Flying Lotus, Thundercat e Kendrick Lamar formam a nova tríade de Los Angeles. FlyLo e Thundercat colaboram pelo menos desde 2010 e até hoje não mais se largaram. É Thundercat com aparições nos últimos três álbuns de Lotus e este a assinar a produção quase por inteiro de Drunk. Ambos entraram no estúdio com Kendrick aquando da germinação de To Pimp a Butterfly. FlyLo, qual mãos largas, deu um monte de beats a K-Dot – muitas destas composições nem chegaram a ver a luz do dia. Nos créditos, Lotus surge somente como produtor da faixa “Wesley’s Theme”. Já Thundercat tem mão em quase tudo o que é produção na obra-prima de K-Dot. E também tem dedo na compilação Untitled Unmastered e é ele quem trata do baixo em “Feel”, tema de DAMN., o mais recente longa-duração de Kendrick.

Bom. Para a semana, Flying Lotus passa pelo Parque da Cidade do Porto, inserido no cartaz do Primavera Sound. Esta nova Los Angeles ali tão perto de nós, infelizmente sem o efervescente movimento de comida de rua. Com os LA Lakers pelas ruas da amargura, que outras coisas boas tem a Califórnia para dar? Vinho? Pfff: Douro > Napa Valley!

 


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