Flying Lotus // Flamagra

[TEXTO] Rui Miguel Abreu 

Steve Ellison aprendeu a fazer beats com um Coltrane. Oran, o mais novo dos três filhos do lendário saxofonista John Coltrane, tinha uma Sega Genesis e o pequeno Steve não o largava: “Eu aparecia lá em casa e ele estava a fazer música num computador e mostrava-me como fazer beats. Devo-lhe tudo a ele”. Na entrevista que concedeu à Huck, Ellison, aka Flying Lotus, explica como os jogos da Nintendo e as suas bandas sonoras – “música jazz”, diz ele, referindo-se ao score de Sonic the Hedgehog, que “foi revolucionário” – o marcaram, ajudando-o a criar os seus elaborados universos interiores durante uma infância passada em isolamento (“sempre quis um irmão mais velho”…).

Ouvindo Flamagra, o sexto álbum que FlyLo lança desde que se estreou em 2006 com 1983 e o primeiro depois de You’re Dead! de 2014, entende-se um pouco da sua singular biografia e de como destilou a sua herança familiar e a sua vivência numa distinta visão. A sua avó era Marilyn McLeod, compositora ao serviço da Motown que trabalhou directamente com Johnny Bristol e escreveu hits para Diana Ross e Jermaine Jackson (o sucesso “Let Me Tickle Your Fancy” que o membro dos Jackson Five gravou com os Devo foi co-escrito por Marilyn) além de ter integrado os Flakes (que gravaram para a Salsoul) e os Pure Magic. Marilyn era irmã de Alice McLeod, harpista e pianista que haveria de casar com… John Coltrane.

Ora, crescer numa família assim e recolher ensinamentos e conselhos de pessoas como Marilyn e Alice há-de ter sido especial: “Ela era uma pessoa muito generosa”, recorda Steve à Huck, referindo-se à tia-avó, “especialmente quando lhe revelei que eu estava interessado em criar. Mas tinhas que trabalhar para isso. Ela obrigava-te a merecer essa atenção”.



Pode ler-se a discografia de Flying Lotus como um longo arco criativo que tendo começado sob a directa influência de J Dilla se foi aproximando do lado mais “cósmico” e espiritual da música criada pelo clã Coltrane, sobretudo Alice, dona de uma soberba discografia que, percebe-se pelo menos desde Cosmogramma, FlyLo tem estudado com particular interesse. Se parte da convulsão arrítmica da música que o patrão da Brainfeeder tem assinado nos últimos treze anos se deve a um aprofundar das estratégias não-quantizadas de J Dilla, o produtor que, precisamente, procurou na disposição de beats fora da grelha lógica do 4 por 4 uma aproximação ao jazz, outra parte, porventura ainda mais significativa, estará definitivamente ligada ao mergulho devoto e crítico na obra da autora de Journey in Satchidananda. E agora, FlyLo chegou a um ponto em que já não se trata apenas de organizar cores e sons, ritmos e melodias, harmonias e dissonâncias no ecrã do seu computador: o piano, instrumento que escutou abundantemente na discografia da sua tia-avó, é uma obsessão recente, como admitiu à Huck: “Sinto-me poderoso quando toco. Digo tanto que não é possível dizer por palavras. Sempre brinquei com o piano. Mas agora estou obcecado. Tenho amigos incríveis que aparecem aí e me mostram cenas. Quando eles tocam, eu só quero matar-me”.

Há uma falácia em que a generalidade da crítica tem investido na abordagem a este Flamagra: a da comparação. É tão suposto pensar-se em You’re Dead! e Flamagra como pares numa sequência quanto em, digamos, A Love Supreme e Ascension, dois álbuns lançados por John Coltrane em 1965 e 1966, respectivamente. Embora houvesse ligações entre os dois lançamentos na histórica Impulse!, nomeadamente variações de motivos musicais de A Love Supreme que são tomados como ponto de partida para as digressões livres de que se faz a “ascensão” posterior, ambos os registos são na verdade documentos preciosos de “momentos” específicos do avançado pensamento musical do saxofonista. Deveria pensar-se em You’re Dead! e Flamagra da mesma forma: não em termos de “melhor” e “pior”, de “mais” ou “menos”, mas em “antes” e “agora”, em “ali” e “aqui”.

No caso de FlyLo, a necessidade de repensar a sua discografia como momentos – e não tanto como um “percurso” em que todas as etapas estão interligadas – faz ainda mais sentido tendo em conta que entre o álbum de 2014 e o novíssimo de 2019 o produtor também se transformou em realizador, tendo assinado o controverso Kuso, filme descrito como uma comédia de terror, com uma dimensão algo absurdista. Depois de Kuso, FlyLo parece ter querido adicionar mais uma camada ao seu corpo criativo, com a adopção do piano como mais uma ferramenta de expressão. Flamagra é, portanto, um retrato, um registo do seu momento criativo actual. Analisá-lo é espreitar para dentro da cabeça de Steve Ellison.



Com uma lista de recursos humanos e artísticos em que se incluem os nomes do arranjador Miguel Atwood-Ferguson, do baixista Thundercat, do teclista Brandon Coleman ou do baterista Deantoni Parks, além de colaborações vocais de Anderson .Paak, George Clinton, Little Dragon, Tierra Whack, Denzel Curry, David Lynch ou Solange, é de facto estranho pensar-se no material de Flamagra como um conjunto de “esboços”, que foi como alguma crítica descreveu o álbum, reagindo ao facto de boa parte do alinhamento ser feito de temas com menos de dois minutos, como se a música instrumental tivesse a obrigação de se estender de forma a alcançar algum tipo de espessura narrativa.

Na verdade, Flamagra mostra Lotus num novo momento criativo, parecendo ter aqui alcançado um pináculo na sua própria sonoridade, uma intrincada filigrana de hip hop e electrónica, de jazz de diferentes sensibilidades (do mais espiritual ao de fusão) e motivos retirados à paleta sónica clássica dos jogos de computador (ouça-se o belíssimo “Yellow Belly”, tema com Tierra Whack que parece ter sido programado num Game Boy…), de funk cósmico e psicadélico à la Parliament-Funkadelic e bandas sonoras de proveniência exótica – há um sample de “Ten el Tiwa”, faixa do incrível Alain Goraguer para o delírio de animação psicadélica de 1973 La Planète Sauvage, usado em “Black Balloons Reprise”, tema em que surge um inspiradíssimo Denzel Curry; e mais uns excertos da série Dragon Ball usados em “Heroes”, o tema introdutório do álbum, o arranque do vórtice de pulsares e “synth squashes”, de grooves distorcidos e batidas irrequietas, de temas que parecem escorrer como lava, incandescentes e líquidos.

Flamagra é tudo isso. Um retrato da mente particular de Flying Lotus, um remoinho que pode soar, há que admitir, um pouco assoberbante, mas este é, claramente, um daqueles casos em que audições repetidas permitem que do aparente caos surja uma igualmente aparente ordem que mais não é do que uma mera sintonia entre as nossas sinapses e o turbilhão caleidoscópico que se liberta das colunas ou, melhor ainda, dos auscultadores. FlyLo disse que mais do que um conceito, este álbum tem uma imagem, sugerida por um texto lido por David Lynch em “Fire is Coming” (uma espécie de “What’s he building in there” de Tom Waits…), uma intrigante narrativa que termina com um homem a gritar “vem aí o fogo”. Essa visão do fogo inspirou o produtor de Los Angeles a criar um álbum complexo e denso, impenetrável e avançado, que não se abre imediatamente perante os nossos ouvidos e que exige trabalho, atenção e dedicação. Tal como o já citado Journey in Satchidananda, o extraordinário álbum de 1971 de Alice Coltrane que abria com uma simples figura desenhada no contrabaixo por Cecil McBee logo enredada na seda da tambura de Tulsi e na estonteante cascata de harpa da líder a que se juntava depois o espírito de Coltrane invocado pelo saxofone de Pharoah Sanders… Em ambos os casos é a ideia de viagem, de movimento, de “ascensão”, de transe, de mergulho incondicional e de espírito aberto que importa. Se procuram satisfação instantânea, terão que ir a outro lado.


Rui Miguel Abreu

Rui Miguel Abreu

Crítico musical desde 1989, Rui Miguel Abreu escreve atualmente para a Blitz e integra a equipa da Antena 3. De vez em quando também gosta de tirar o pó aos discos e mostrá-los em público.
Rui Miguel Abreu