Flora Matos: “As experiências que tive levaram-me a pensar que deveria fazer os meus discos com as minhas próprias mãos”

[TEXTO] Núria R. Pinto [FOTO] Marina Sampaio

De discos que são autênticos exames cardiovasculares já ouvimos falar muito. Ou não fosse o amor a grande temática dos poetas, músicos e artistas da palavra. Difícil, por isso, a ideia de que um novo álbum que se dedica exclusivamente ao sentimento que melhor nos distingue dos demais seres vivos e enche os bolsos a psicoterapeutas por este mundo fora seja uma das melhores exportações artísticas do Brasil, em 2017. É que Eletrocardiograma é muito mais do que isso.

Numa única narrativa, Flora Matos – MC de Brasília e uma das mais importantes representantes do género (e não falo do feminino) no panorama brasileiro contemporâneo – guia-nos pela relação emocionalmente tóxica que manteve até meados de 2017 com um alguém que, claramente, não estava muito disponível para ela. Todos aqueles que já viveram um relacionamento “proibido” — seja com alguém comprometido ou alguém que simplesmente “is not that into you” — conseguem reconhecer em todas as faixas as fases que nos guiam desde o enamoramento até à frustração e, idealmente, à fase final de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima , como já cantava Paulo Vanzolini, um dos expoentes do samba paulista.

É a MC que, à primeira faixa, assume o sujeito poético masculino para dar início a um jogo de gato e rato bastante desigual e, logo depois, nos cantar em primeira voz a paixão, a submissão, a romantização excessiva de um relacionamento unilateral, a perda da fé e, na faixa final que é o seu grito do Ipiranga – a recuperação do amor-próprio e a constatação de que o respeito que sara é aquele que vem de dentro. A “terapia” é intercalada pela palestra da budista Márcia Baja sobre a importância da lucidez e do amor genuíno nas relações.

Muito se falou sobre a falta de elementos “pró-feministas” em Eletrocardiograma, tendo em conta, principalmente, que Flora Matos foi das poucas — senão a única — mulher a fazer-se presente nas listas de melhores trabalhos do ano. Não poderíamos estar mais longe da verdade. O que há de mais feminista do que uma mulher que se descobriu – e se fortificou — num relacionamento que não a considerava, que construiu e desconstruiu cinco álbuns até chegar a Eletrocardiograma — não só porque o trabalho “ainda não estava lá” mas também porque se debateu contra uma indústria tendencialmente machista que queria “meter o bedelho” nas suas produções – e é hoje um dos maiores exemplos artísticos — para homens e mulheres — no Brasil?

Rap, trap, dub, dancehall e r&b fazem parte dos sintomas neste Eletrocardiograma: as batidas chegam pulsantes quando a lírica se faz assertiva, doces quando o sentimento,  mais uma vez, se sobrepõe à razão. Sobre tudo isto, Flora Matos falou ao Rimas e Batidas na véspera daquela que é a sua estreia em Portugal. O Plano B, do Porto, e o Musicbox Lisboa recebem-na, a 23 e a 24 de Março, respectivamente.

 



Eletrocardiograma era um álbum muito aguardado pelos teus fãs; havia muito expectativa em torno deste lançamento. Esperavas, no entanto, que tivesse tido a aceitação que teve e que tivesse entrado, sem muita discussão, para quase todas as listas de melhores álbuns do ano no Brasil?

Eu precisava lançar esse disco para fechar um ciclo e dar início a um novo, entende? Esperava uma resposta positiva apesar da demora pois meus fãs, no Brasil, nunca deixaram eu esquecer que tinha que lançar esse disco! E estou bem feliz. Recebi o prémio de melhor álbum pelo WME (Women’s Music Event Awards by Vevo) e, para mim, foi bem significativo.

É um trabalho muito transparente em que expões todas as tuas fragilidades, ilusões, paixões, desilusões… Principalmente porque estamos a falar de uma história real, vivida por ti, do início ao fim. Sentes que foi um acto de coragem ou uma espécie de catarse quase inevitável?

Exponho algumas. Foi um trabalho movido a paixão, lágrimas mas também muita coragem, e auto-estima. Fala sobre superação. Fala sobre amar, querer muito estar com alguém, gostar de alguém. Sofrer a falta de alguém, por várias vezes, e ao mesmo tempo sobre amor próprio e a força que temos de superar, o poder que adquirimos quando um relacionamento acaba.

Percorreste vários caminhos, apontaste em várias direcções até chegares a Eletrocardiograma. Em sete anos [desde Flora Matos x Stereodubs] a vida dá muitas voltas… Por onde é que andaste e o que é que te fez ter a certeza que era isto que precisavas fazer?

Eu tive algumas experiências com algumas produtoras, gravadoras, etc. Dei início a 5 discos, no total, e cheguei a deixar 3 deles quase prontos. Mas as experiências que tive levaram-me, sempre, a pensar que deveria tomar a coragem para fazer os meus discos com as minhas próprias mãos, a minha própria equipe, sobre a direcção do meu próprio olhar. No Brasil, eu sinto que o artista ainda sofre muitas imposições por parte dos empresários no sentido de se encaixar nos padrões que a indústria “exige”. E isso, de certa forma, acaba desfragmentando a identidade do artista. O que poderia vir a ser uma novidade lançada por ele, uma tendência, acaba sendo escondido e ocultado porque nosso mercado não valoriza. Pelo menos não directamente, entende? Então, enxergar como a grande indústria funciona de perto foi também uma experiência importante para minha formação profissional e artística. Foi importante na hora das minhas escolhas. E minha decisão foi gerir minha carreira de forma independente. Eu vivi também uma paixão impossível, uma relação conturbada, durante esses 7 anos. E quando acabou eu vi-me cheia de memórias e lembranças em forma de versos. Resolvi unir tudo em um álbum só e documentar esse amor em música.

Presumo que tenhas encontrado várias dificuldades ao longo da produção deste trabalho, principalmente sendo mulher e de vontades e ideias muito vincadas em relação a onde queres chegar.

Sim. E tenho muita opinião sobre meu trabalho. Porém, eu também gosto de ter do meu lado bons engenheiros de áudio e produtores. E isso, às vezes, gera conflito porque os engenheiros têm o ego deles. Alguns têm sua própria identidade na hora de mixar, por exemplo, e eu quero que minha música soe da forma que eu prefiro. Às vezes o cara não concorda com o que você acha melhor para sua música. Isso está também me levando a aprender a mixar as minhas próprias músicas.

Que lições retiras disso ou que conselhos darias hoje à Flora de há 7 anos? Pessoal e profissionalmente, até?

Eu diria para ela procurar um psicólogo!

Formaste a tua equipa de trabalho sólida e eis que, em 2017, chegas com algo em que acreditas. O que é que encontraste no Iuri Riobranco, no Nave ou no Sants, que produziram este álbum contigo, que não tinhas conseguido encontrar até então?

Na verdade, o Wills Bife foi o produtor que mais fez parte desse processo de produzir junto. O Sants eu não conheço pessoalmente. Indicaram-me e eu escutei alguns beats e escolhi um, que é o da faixa “Deixa Brilhar”. Eu e o Nave produzimos algumas músicas juntos… E o Iuri (Riobranco) foi o cara que conseguiu me ajudar a ver tudo reunido em um álbum só!  Ele fez a ponte com os engenheiros, além de produzir “Bóra Dançar” e “Perdendo o Juízo”.

O que podemos esperar de um próximo trabalho? Tanto em termos de método de trabalho, produção ou até de conceito… Já nos podes revelar alguma coisa?

Confesso que é difícil para mim organizar a ordem dos produtos… Porque eu produzo 24 horas por dia! Mas posso revelar que estou produzindo três novos álbuns.

E para ti, quais são as tuas expectativas em relação aos concertos em Portugal e em relação ao público português? Tens tido bom feedback do disco?

Eu ainda não tenho ideia da proporção que minha música tomou por aí… Mas estou indo de peito aberto, como se eu fosse cantar pela primeira vez. Sinto que vai ser maravilhoso!

 


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Ouvir também em:

Terminal 1 – EP.3 | Flora Matos em Portugal e lançamentos de Djonga e Drik Barbosa

Núria Rito Pinto

Núria Rito Pinto

Hip hop, r&b e brasilidades com tanta moderação quanto vontade. Fundou o clube de fãs da “Corda” do Boss AC, já comprou CDs pela capa e preferia comer douradinhos frios todos os dias do que ficar sem Spotify.
Núria Rito Pinto

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