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Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 30/03/2026

O novo disco foi produzido na íntegra por Forest DLG.

Fliptrix fala sobre novo álbum Elevation e da mudança para Portugal: “Foi bom passar da cidade para a natureza”

Fotografia: Direitos Reservados
Publicado a: 30/03/2026

Nome sólido do rap britânico das últimas duas décadas, Fliptrix tem trilhado um percurso em nome próprio e através da sua editora High Focus Records, mas também como um dos The Four Owls — grupo onde milita ao lado de Verb T, Leaf Dog e BVA

Embora já circulasse em edição física há cerca de um mês, aterrou há dias nas plataformas digitais o seu novo álbum, Elevation, produzido na íntegra por Forest DLG. Com participações de Frisco ou General Levy, entre tantos outros, é um disco de carácter espiritual que explora diferentes estéticas dentro do hip hop.

O projecto foi construído em Portugal, mais concretamente na região Centro, onde Fliptrix vive desde 2020. Em entrevista ao Rimas e Batidas, o MC londrino explica o que o levou a mudar-se para o nosso país, conta como construiu Elevation e aborda o presente do rap no Reino Unido.



Tens trabalhado com o Forest DLG há já bastante tempo. O que te levou a fazer este álbum colaborativo e o que procuravas realmente quando o abordaste?

Sim, conhecemo-nos há muito tempo, perto de 20 anos. Ele tem misturado e masterizado a minha música desde o meu primeiro álbum, em 2007, portanto já há muito tempo. E foi produzindo algumas músicas para mim ao longo dos anos, algumas faixas em certos álbuns. Quando chegou a altura de fazer este novo álbum, inicialmente contactei alguns dos meus produtores favoritos. Mas depois o Forest respondeu-me e disse: “Queres que te envie alguns beats ou queres que te envie um pack com cerca de 70 beats e fazemos um álbum inteiro juntos?” E eu adoro a produção dele. Por isso disse-lhe simplesmente: “Envia-me os 70 beats e vamos a isso”. E acabei por decidir focar-me nessa direcção. Tudo se desenrolou a partir daí.

E foram esses 70 beats que te fizeram perceber que tipo de álbum querias construir sonicamente, mas até conceptualmente?

Definitivamente. Como tenho uma carreira longa, é importante para mim que os álbuns e os sons também evoluam. Eu adoro boom bap e fiz muito boom bap. Este álbum ainda tem alguns beats com essa influência, ainda há coisas boom bap. Mas, sim, os instrumentais do Forest DLG… Às vezes até é difícil perceber exactamente o que são. Sendo o tema Elevation, queríamos elevar os níveis um pouco mais alto e experimentar outros géneros de que gostamos, como jungle ou grime ou simplesmente instrumentais com sonoridades diferentes. Portanto, receber o pack de beats ajudou-me mesmo a perceber a visão sonora de onde queríamos ir. Foi um ponto de partida perfeito. Depois, os sons dos instrumentais acabaram por inspirar os temas que eu ia abordar nas faixas. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que o conceito seria Elevation. Portanto, muitas das faixas — ou todas as faixas do álbum — baseiam-se nesse tema, mas tocam em vários tópicos diferentes dentro disso.

Este é o teu 11.º álbum, ao longo dos anos tens lançado muita música. Sentes sempre não só motivação, mas também inspiração para escrever? Pergunto porque tens sido muito consistente ao longo dos anos. Não é assim tão comum os músicos manterem este ritmo de criação durante tanto tempo.

Sim, meu, sem dúvida. Simplesmente adoro isto e faço isto há muito tempo. Comecei a escrever letras quando tinha cerca de 16 ou 17 anos. Portanto, gosto mesmo de ser criativo. E também é uma espécie de terapia. Sabes, se estou a pensar em coisas ou a passar por certas situações na minha vida, quando escrevo e ponho isso no papel e transformo numa música e a lanço, é como libertar sentimentos ou pensamentos que talvez não queira ter ou algo desse género. E também usas isso como um meio para tentar ajudar outras pessoas ou inspirar outros ou simplesmente dar prazer a outras pessoas através disso. Portanto, definitivamente houve momentos na minha carreira em que pensei: talvez este seja o último, ou talvez… Mas depois faço uma pausa e volta a vontade, ou alguém me envia um monte de beats. Acho que vou continuar durante muito tempo. Acho que já passei essa fase… Eu simplesmente adoro isto. Portanto tenho a certeza de que, enquanto cá estiver, vou ser criativo.

No texto de apresentação deste trabalho falas de uma tribo do Peru. Essas experiências espirituais que tiveste há uns anos na selva influenciaram muito este disco?

Sim, acho que sim. Basicamente, em 2014 fui ao Peru, estive na selva amazónica e fiquei com uma tribo durante uma semana no coração da selva. Fizemos algumas cerimónias juntos, portanto já tinha uma ligação directa por causa disso. E tenho também algumas obras de arte deles no meu estúdio. Em muitos dos meus álbuns tenho um símbolo que representa o álbum. Desta vez, se olhares para a capa, consegues ver uns olhos, um nariz e uma boca… A capa é como uma divindade que representa o álbum. É uma representação visual, a divindade da elevação. Também foi o Forest DLG que fez todo o artwork do álbum. Foi óptimo porque eu podia enviar-lhe exemplos de coisas e depois ele podia usar isso como inspiração. Foi um processo muito bom. E, sim, acho que a viagem obviamente influenciou as letras e os pensamentos, mas isso foi há muito tempo. Ou seja, mudou a minha percepção nessa altura, mas ainda está dentro de mim agora, sabes?

Claro. E talvez possamos passar para a parte de estares a viver em Portugal. Não sei há quanto tempo estás cá e porque te mudaste para o nosso país e para a zona Centro, mas acredito que isso também tenha influenciado a tua música.

Sim, eu mudei-me para Portugal em 2020. Portanto, há pouco mais de cinco anos. E inicialmente foi por causa do período da COVID-19, antes do segundo confinamento, estive a analisar as coisas e sabia que não ia ser algo rápido. Sabia que ia ser algo bastante longo. Eu e a minha mulher estávamos à procura de soluções, de outras coisas que pudéssemos fazer para transformar um período negativo num momento positivo. E tinha alguns amigos em Portugal que estavam numa comunidade. Viajei para lá para os encontrar e ver o que estava a acontecer. E era óptimo, especialmente comparado com o que estava a acontecer no Reino Unido. Então basicamente comprámos uma autocaravana e viemos para Portugal apenas por alguns meses. Mas depois, enquanto estávamos cá, acabámos por nos apaixonar. Conhecemos tantas pessoas simpáticas e acabámos por nos apaixonar pelo país, porque vivemos no centro de Portugal, numa zona rural. Vivo numa quinta isolada, fora do radar. E gosto dessa vida. Toda a água vem do poço, todo o aquecimento vem do fogo. Temos muitas árvores de fruto e frutos secos. Temos um ribeiro. Toda a electricidade vem de painéis solares. Portanto, tratou-se de poder ligar-me à natureza e ter muito mais sol. E gosto da abundância de comida de boa qualidade, água de boa qualidade. E parece haver também uma espécie de movimento interessante de pessoas com uma perspectiva positiva. Sinto que em Portugal também se preocupam muito com as famílias e com as crianças. No Reino Unido sinto que as pessoas dizem mais “tirem essas crianças chatas daqui”, enquanto aqui é diferente, não sei.

E no Reino Unido imagino que levasses uma vida muito mais urbana.

Definitivamente. Nasci e cresci no sul de Londres, perto de Brixton e Camberwell, zonas bastante difíceis. Portanto tive uma infância muito diferente. E, sim, é bom passar da cidade para a natureza.

E isso deve ser uma grande mudança também na forma como fazes música…

Sim, construí um bom estúdio na minha quinta, portanto posso gravar a qualquer altura. Estar rodeado pela natureza influencia-me. Somos sempre influenciados pelo ambiente. Sou como uma esponja, a absorver tudo. O primeiro álbum que gravei aqui foi o Mantra No. 9, depois o Dragonfly e agora o Elevation. Escrevi e gravei todos esses álbuns em Portugal e também gravei muitos vídeos aqui. Tem sido muito bom.

Vais fazer, em Maio e Junho, uma pequena digressão pelo Reino Unido e pela Irlanda. Gostarias também de tocar em Portugal?

Sim, claro. Adorava tocar em Portugal. Se houver promotores interessados, enviem-me mensagem. Gostava de tocar em Lisboa, Porto ou onde a cena esteja forte. E já conheci alguns bons produtores e tal, mas gostaria de saber mais sobre o meio. Seria fixe fazer uma colaboração ou, sabes, conhecer outras pessoas do meio, descobrir melhor o que se passa por aqui e integrar-me mais no circuito também. Seria fixe. Já fiz alguns concertos, participei em alguns festivais por aqui, principalmente underground, eventos mais pequenos. Fiz talvez uns cinco ou seis concertos. Mas sim, estou definitivamente disposto a fazer mais. E é bom poder simplesmente ir de carro até lá, em vez de ter de apanhar um avião.

Voltando ao álbum, o Elevation inclui várias participações e uma posse cut com vários artistas, que é um formato clássico do rap. Como é que decidiram quais as participações que faziam sentido? E já tinham a ideia de fazer esta posse cut, a “Dangerous”, ou simplesmente começaram a trabalhar nessa faixa e sentiram que fazia sentido? 

Quando começámos o álbum, eu e o Forest conversámos e decidimos que queríamos tentar conseguir algumas participações de grandes nomes no álbum, para elevar o nível. E também trabalhar com alguns géneros diferentes que ainda não tínhamos explorado, porque somos do Reino Unido e o Reino Unido inventou muitos géneros diferentes. O jungle, o drum and bass, o garage, o grime, o dubstep… Queríamos explorar um pouco isso. Por isso, convidámos o General Levy para a faixa chamada “Energy! Energy! Energy”. Ele é uma lenda do jungle e ficámos muito entusiasmados por trabalhar com ele. Também convidámos o Frisco, da crew Boy Better Know, para a faixa “Visionaries”. Ele também é uma lenda na cena grime. O grime inspirou-me bastante e ao Forest DLG enquanto estávamos a crescer. E depois há uma cantora muito boa, a Ayah Marar. E outro tipo chamado Kamakaze, também da cena grime. Estávamos apenas a tentar alargar os horizontes, experimentar coisas diferentes de que gostamos e que nos inspiram, e fazer algumas colaborações interessantes que as pessoas não esperariam ouvir, o que foi fixe. Na posse cut… Eu adoro a High Focus, é aquilo que mais me interessa e queria ter uma faixa em que todos os membros da editora que quisessem participar pudessem brilhar também. Queria tentar fazer a maior posse cut que conseguisse. Demorou muito tempo a conseguir os versos de toda a gente, mas no final valeu a pena. Ficou uma música épica.



E como é que soubeste que aquele era o melhor beat para a posse cut?

Em muitas das colaborações que mencionei, eu disse especificamente ao Forest: “Quero que faças um beat que soe assim”. Ou seja, depois de ele me ter dado aquele pack de 70 instrumentais, havia sons que não estavam lá e que eu queria. Então disse-lhe: “Faz uma batida jungle para o General Levy, faz este tipo de grime, faz um beat de verdadeiro hip hop ao estilo boom bap para a posse cut”. Ele personalizou muitos dos beats para os sons específicos que eu procurava e fez um excelente trabalho.

Só para falar um pouco sobre o panorama geral do rap britânico: quando começaste, o rap do Reino Unido era realmente diferente, em termos de dimensão e projecção. Obviamente, o grime transformou o panorama do rap, explodiu e influenciou inúmeras coisas no Reino Unido, mas também fora do país, claro. Como vês a cena neste momento? 

Eu diria que o cenário está ótimo. Diria que está no melhor momento de sempre em termos de conseguires ter sucesso como artista e de poderes utilizar todas as ferramentas de que dispomos agora, com as diferentes plataformas de redes sociais e tudo o mais. Era muito mais reduzido quando comecei. Certos artistas surgiram e realmente expandiram os limites do que pode acontecer e do que é aceite, colaborando com pessoas de diferentes países e simplesmente tornando tudo maior. Quando comecei, podias perguntar a um miúdo quem eram os seus rappers favoritos e todos os nomes seriam americanos. Mas agora, se perguntares a um miúdo no Reino Unido: “Quem são os teus rappers favoritos?”, provavelmente quase todos seriam do Reino Unido. Então, nesse sentido, mudou muito. Todo o tipo de cultura, todos os géneros, até os diferentes sons dentro deles, como o rap, o grime, o drill, todos esses elementos diferentes têm, de certa forma, trabalhado juntos para elevar tudo ainda mais. Também diria que está definitivamente muito mais saturado, porque agora é fácil. Por isso, há muito mais artistas do que havia. Acho que há muito mais concorrência. Mas hoje em dia há muito mais ferramentas. E se fizeres um bom trabalho, podes chegar mais alto, provavelmente de forma mais fácil e rápida do que no passado. Vejo que cada geração está, por assim dizer, a construir sobre os alicerces lançados pela geração anterior; tal como a geração anterior à minha facilitou as coisas para mim, a minha geração facilitou as coisas para a próxima. Eles estão a conseguir e estamos todos, de certa forma, a subir a escada juntos.

As coisas também mudaram imenso em Portugal nos últimos 20 anos, hoje temos vários rappers mainstream, mas aqui o mercado é bastante reduzido face ao do Reino Unido então também é muito mais desafiante existir um circuito underground sustentável. Achas que esse segmento está saudável no Reino Unido? Porque, obviamente, nem todos os rappers podem ou querem almejar a Wembley Arena ou a O2 Arena.

Sim, exactamente. Acho que está definitivamente numa boa fase. Não diria que é fácil ganhar a vida a tempo inteiro com isto. Mas se fores realmente bom no que fazes, e investires tempo e esforço, e fizeres os projectos e amares isto o suficiente, então isso transforma-se em dinheiro e compensa. Portanto, desde que sejas bom e dedicado, é definitivamente muito mais possível agora ganhar a vida com isto do que era antigamente. Mas é também um panorama em constante mudança, no sentido de que as pessoas costumavam comprar mais álbuns físicos, depois passou-se para o streaming, por isso agora tens de fazer espectáculos ou vender merchandise. Tens de te adaptar aos tempos e manteres-te no topo para não ficares para trás.

Tu vens de uma escola de rap muito ligada ao boom bap, que era a norma estética, o padrão, e deixou de o ser. É um estilo que ficou algo para trás no panorama musical do rap britânico?

A geração anterior era definitivamente boom bap, e nós, a High Focus, defendemos isso e continuámos a promover aquele som. Depois, com o passar do tempo, os artistas começaram a experimentar sons diferentes. Mas nós continuamos definitivamente a ser uma editora predominantemente boom bap, por isso ainda gostamos de lançar muita música assim. Vais continuar a ouvir muito mais boom bap da minha parte e o meu próximo álbum pode ser boom bap. Ainda adoramos esse som e continuamos a promovê-lo. Eu diria que, em termos de apelo mainstream, talvez tenha ficado um pouco para trás porque o som evoluiu um pouco, mas não vejo nenhuma razão para que não possa voltar à moda. Tudo funciona em ciclos, então as coisas voltam a ficar populares, e depois ficam um pouco menos, e é assim que as coisas funcionam. Ainda há muita gente no país a fazer boom bap realmente bom, na High Focus e fora da High Focus, por isso acho que haverá sempre um espaço para isso e há muita gente que ainda adora esse tipo de som.

Que planos é que têm na High Focus para os próximos tempos?

Depois do meu álbum, temos um disco do Farma G, que é tipo uma lenda do Reino Unido, um projecto de produção do King Kashmere, um álbum a solo do Leaf Dog e, entre muitas outras novidades, um novo álbum dos Four Owls também.


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