Flamingods: Moon, o Bahrain e a busca pela cultura idílica

[ENTREVISTA] Catarina Craveiro [FOTO] Direitos Reservados

 

Os Flamingods pegaram no álbum de estreia Sun, de 2013, e desafiaram músicos e produtores que respeitavam, a maioria amigos que conheceram quando andavam em tour, a recriá-loO resultado dessas reinterpretações está em Moon, uma compilação de faixas traduzidas por nomes como My Panda Shall Fly e Dustin Wong e que tem carimbo da portuense Lovers & Lollypops.

Com um estilo muito próprio de constante reinvenção, o colectivo bahrani tem conseguido conquistar o seu lugar. A banda de ethno-folk psicadélico permite-nos perceber que tanto dança confortável em territórios do psicadelismo como do experiencialismo rock (e mais houvesse) através das tags que utilizam no Bandcamp para descrever Moon: electronic, experimental, exotic, psychadelic, tropical, ethnic, pop, tribal, bass.

A banda estreou-se em Portugal no Milhões de Festa decorria o ano de 2014. Em 2015 repetiram a presença no mesmo festival e já voltaram mais três vezes para tocar em Lisboa, no Porto e também em Bragança. Criaram laços com a editora portuguesa Lovers & Lollypops e Portugal tornou-se o palco preferido da banda em toda a Europa.

Quatro dos cinco elementos dos Flamingods cresceram no Bahrain, também conhecido como Barém, Barein ou Bareine. Se não conseguem descortinar a localização deste país no mapa poupamo-vos uma ligação ao Google – é um pequeno estado insular do Golfo Pérsico, com fronteiras marítimas com o Irão, o Qatar e a Arábia Saudita. O fundador, Kamal Rasool, teve a sorte de nascer no seio de uma família destemida e foi coleccionando instrumentos de percussão nas inúmeras viagens pelo globo. O passo seguinte foi injectar a crença da multiculturalidade psicadélica nos amigos e o projecto Kamal’s bedroom evoluiu para o é hoje os Flamingods.

Kamal Rasool, Charles Prest, Craig Doporto e Sam Rowe cresceram juntos e juntos continuaram ao longo do percurso universitário quando em 2009 se mudaram para o centro de Londres. Até que uma alteração na legislação se traduziu em problemas com o visto de Rasool. Desde então os quatro jovens, mais o quinto elemento londrino Karthik Poduval, vivem separados entre Londres e o Dubai. Este deslocamento tem feito de Flamingods um caso excepcional – nunca gravaram um álbum inteiro juntos em estúdio. Quando foram nomeados pelo The Guardian para a “New Band of The Week”, foram introduzidos como a banda que nunca esteve junta no mesmo quarto. Problema que vão contornando com o admirável mundo novo da internet e com a estonteante atmosfera imprevisível que os une.
Na verdade não é efectivamente um problema. Habituados à vida nómada, esta separação traduziu-se numa nova dinâmica que lhes oferece mais tempo para pensar e para respirar sobre o trabalho dos outros. Melhoraram a capacidade produtiva em vez de se atropelarem.

 


Vocês lançaram o álbum Moon recentemente, um trabalho constituído por remixes de Sun, que saiu em 2013. Sentiram necessidade de reinventar o vosso primeiro álbum?

Kamal Rasool: Nós sempre tivemos a ideia de que iríamos adorar ouvir outras pessoas a reinterpretar a nossa música de uma maneira diferente. Foi algo que quisemos explorar e o Sun pareceu-nos o melhor álbum para o tentar.

Como surgiram as colaborações para as remisturas?

Todas as colaborações do álbum são assinadas tanto por bons amigos como por artistas que conhecemos durante as nossas tours. É um álbum muito intimista por isso mesmo. É perceptível que os músicos que fizeram os remixes percebem a nossa música e que emprestaram o seu cunho para criar algo novo e vibrante.

Mesmo tendo como guia as vossas produções originais, este álbum contém diferentes linguagens. Diriam que este trabalho permite que pessoas com backgrounds musicais diferentes comecem a acompanhar a vossa música?

Sim, sem dúvida. Esta é a nossa primeira investida na pura música electrónica, Moon junta géneros que nunca estiveram antes nos nossos trabalhos, como house, glitch e techno. Foi realmente incrível poder explorar novos territórios e esperamos que se traduza em novos fãs, que consigamos chegar a uma audiência que habitualmente não nos ouvia.

Este álbum tem o carimbo da editora portuguesa Lovers & Lollypops. Como aconteceu esta ligação? Quem procurou quem?
Nós fomos apresentados ao Márcio [Laranjeira] da Lovers & Lollypops quando pedimos para tocar no maravilhoso Milhões de Festa, que ele ajudou a organizar. Quando nos conhecemos demo-nos muito bem, percebemos que temos os mesmos interesses. Adorámos o conceito do festival e o trabalho dele na Lovers levou-nos a propor editar com a label.



Já tocaram várias vezes em Portugal. Têm muitos fãs por aqui?

Gosto de pensar que sim. É o país onde mais gostamos de actuar na Europa porque o público faz-nos sentir muito acarinhados. Temos feito também muitos amigos nos concertos e temos esperança de voltar no próximo ano.

Então encontram aqui uma identificação entre o público português e a vossa música.

É difícil de dizer. Todas as pessoas que conhecemos nos espectáculos que demos em Portugal parecem ter uma personalidade individual muito forte mas mostram-se abertos a novas sonoridades. Vi o mesmo público dançar metal, progressive, electrónica e groove africano, tudo na mesma noite; é uma coisa formidável.

O vosso álbum anterior, Hyperborea, foi o resultado de um trabalho sem fronteiras – todos viviam em sítios diferentes e partilhavam os ficheiros de música de forma online. Continuam a trabalhar deste modo?

Sim e não. Na preparação da nossa nova faixa trabalhámos com demos separadas ao longo de um ano, antes de nos termos todos juntado no último Verão para finalizarmos as músicas e irmos a estúdio gravar. Já que estamos impedidos de viver no mesmo país por agora (derivado de problemas com os vistos), temos que lidar com a situação da melhor maneira que sabemos – conseguirmos estar em estúdio todos juntos é incrível, já que não o fazemos desde as gravações de Sun, em 2012.

 


 

 

Quais são os maiores desafios ao fazerem a produção musical sem estarem todos reunidos em estúdio? Como conseguem ligar as ideias para que o processo funcione?

O maior desafio é conseguir transmitir o nosso conceito e as nossas ideias para que os outros membros da banda os consigam compreender na perfeição e saibam o que têm que fazer sem estarmos todos juntos na mesma sala. É difícil comunicar online, facilmente as ideias se perdem. Creio que tivemos todos que aprender a articular-nos melhor por isso, mas não é decididamente a situação ideal.

Numa entrevista para a The Quietus vocês falaram na falta de uma identidade nacional transversal. Hyporborea é inclusive uma metáfora para um sítio imaginário de onde vocês provêm. De onde vem esta confusão cultural?

Nós crescemos no Bahrain, uma pequena ilha no Médio Oriente fortemente influenciada pela história da cultura árabe, mas também pelas culturas colonizadoras, incluindo Inglaterra e Portugal. Este facto, combinado com a larga população das comunidades do sul e do sudeste asiático, o moderno desenvolvimento das cidades e as receitas dos expatriados, fizeram do Bahrain um ponto de encontro de identidades diversas, o que tornou o país um sítio muito interessante – se não confuso – para se crescer. Crescemos com tantas culturas envolventes que não fazia sentido adoptarmos apenas uma mas sim pegarmos em pormenores de todas para formarmos uma cultura nossa. Nunca senti que pertencia apenas a uma cultura, por isso vou idealizando o dia em que a vou encontrar.

Onde vão buscar inspiração para a vossa experimentação desenfreada? Como misturam as diferentes influências e experiências que captaram nos diferentes sítios?

Penso que estarmos constantemente a ouvir músicas de todos os cantos do mundo acaba por nos dar inspiração para continuarmos a prosperar e a procurar novas direcções por onde levar a banda. Apesar de não temos barreiras culturais no nosso trabalho, nós procuramos não desfigurar as culturas de música tradicional. Preferimos transformar essas tradições para criar algo totalmente novo.

Anseiam mudar-se em conjunto para algum sítio e trabalhar lado a lado em estúdio ou vão permanecer com o trabalho digital em todo o processo?

Claro que sim. O nosso objectivo imediato é acabar a faixa em que estamos a trabalhar e encontrar uma maneira de trabalharmos a full time na banda e vivermos na mesma cidade para que possamos investir totalmente na nossa arte. Suponho que seja o maior objectivo ou o maior obstáculo de todos os músicos.

O que podemos esperar dos Flamingods no futuro?
Tudo e nada. Estamos constantemente a tentar reinventar-nos e vamos continuar nesta missão experimental para encontrar novas vibrações musicais.