Novembro de 2024. Salvador Sobral e os First Breath After Coma juntam-se numa casa em Pombal para uma residência artística. Os cinco músicos da banda de Leiria estão mais do que habituados a compor em conjunto, mas Salvador Sobral não só é uma novidade no núcleo como o próprio não tem experiência a compor com outros além do seu amigo de longa data Leo Aldrey. O resultado? Impossível de antever. Mas o novo projecto, a que chamaram precisamente A Residência, materializa-se logo de seguida num espectáculo no Teatro-Cine Pombal, a partir das canções criadas em poucos dias naquela casa.
Janeiro de 2026. O espectáculo estreia-se em Lisboa, no Teatro Maria Matos, nos dias 13 e 14. A diferença é que já se pode fazer algum trabalho de casa — o álbum conjunto foi editado pela Omnichord no passado mês de Dezembro. Mas nada nos prepara para a surpreendentemente imersiva e teatral performance a que assistimos a partir das cadeiras do teatro.
Este não é um concerto convencional, mas antes uma réplica imaginada daquilo que foi a própria residência artística. No palco, Salvador Sobral e os First Breath After Coma partilham uma casa acolhedora, um cenário kitsch cuidadosamente engenhado — com tapetes, quadros, candeeiros e instrumentos musicais à mistura — onde toda a acção musical se irá desenrolar.
Não existe uma narrativa concreta, mas os músicos estão também a ser personagens. A vestirem a sua própria pele, a representarem uma versão de quem foram durante aqueles dias em Pombal, a mostrar ao público — em cada interpretação — como as canções brotaram organicamente naquela terra fértil, entre copos de whisky e partidas de futebol, entre trocas de instrumentos e experimentações mais digitais.
Não era óbvio o que iria surgir do encontro entre os First Breath After Coma, uma banda cimentada num som post-rock mas que o expande em múltiplas direcções criativas a partir de uma produção apurada, e Salvador Sobral, um cantor brilhante e músico nato que navega entre o jazz e a pop, com diferentes incursões paralelas, mostrando desde cedo uma notável amplitude.
O que sabíamos era que tinha tudo para ser inventivo, para que dali resultassem canções originais que poderiam explorar diferentes géneros — mas talvez não esperássemos uma retro-robótica balada R&B, “Got My Needs”, com a voz de Salvador Sobral alterada enquanto recurso estético, que inclui um segmento de rap/spoken-word por Jenna Thiam, a mulher do cantor, aqui creditada como YASMiNNA, convidada especial do espectáculo, e que vai culminar numa apoteose post-rock envolta em ambiências electrónicas.
Por sua vez, “Tu y yo” parece evocar uma energia da pop urbana latina, códigos sonoros influenciados pelo hip hop, com uma aura obscura e processada que mais uma vez desagua numa progressão post-rock. Só para dar dois exemplos mais exploratórios, num disco — e num espectáculo — que percorre diferentes estéticas, línguas e estados de espírito.
Em palco, na encenação que construíram para apresentar estes temas, os músicos estão a interpretar personagens que, quase em todos os momentos, se divertem enquanto criam as canções — mas é difícil falar em interpretação quando a diversão é tão latente e real, quando a comunhão se concretiza tão evidentemente perante os nossos olhos.
A energia e a boa-disposição são contagiantes, a música é de facto a linguagem do encontro. Salvador Sobral tem uma voz e uma presença que enchem qualquer sala, as canções levam-nos a lugares de introspecção e a explosões de alegria colectiva — moods potenciados pela magnífica iluminação teatral da performance. Uma festa bonita que se sente sempre como uma mesa partilhada, como aquela que aparece no centro do palco.
No final — perante os aplausos entusiasmados da plateia, que ficaram devidamente guardados para o cair do pano — Salvador Sobral descreveu-o como o projecto mais “enriquecedor” que já fez. Só temos pena que, como tantas vezes acontece com as peças de teatro, a quantidade de apresentações não seja proporcional à qualidade da performance. Muitos mais públicos mereciam ser brindados com a magia d’A Residência, que talvez possa ter plantado outras sementes para o futuro. Assim esperemos.