Filipe Sambado // Revezo

[TEXTO] Pedro João Santos 

Ao terceiro álbum, Filipe Sambado hibernou. Signatário dum compromisso entre a malha de guitarra e a brisa da palavra bem talhada, passou dois anos absorto em histórias de gentrificação, amor exasperado e preconceito enfrentado de cabeça. Foi tempo suficiente para se tornar o dono da rua: com um disco e múltiplos concertos ao lado d’Os Acompanhantes de Luxo, bem-sucedida empreitada do rock tuga independente, sedimentou o seu nome — tanto quanto saturou a sua boa vontade.

Revezo grafa a história típica dum auto-reinventor, aquele que tem de mudar de faixa para fugir à bancarrota criativa, projectando não só um abanão: uma revitalização contínua. Cortadas as guedelhas do excesso glam, precisou de nova folhagem, que prosperou numa domesticidade onde a patine kitsch não é pura coincidência. Ao permitir-se o pousio, Sambado construiu um forte de almofadas e lençóis, e renasceu cançonetista de sofá.

Assim se declara com “Tusa Mole”, um primeiro tratado de ar puro e folk inerte, despertado pela polifonia bordada em refrão e ponte. Fragmentos de vivência vagamente campestre, com o respaldo melódico de que Sambado já não se consegue divorciar;‌ aqui, lavra-o em folhagem trienal. O primeiro sector pertence à serenidade baladeira, que nasce do amor quieto e mimoso — “No Leito”‌ ou com “Paçoquinha pra Novela”, onde se imagina prolongar a estase do fim-de-semana (“A mim quem me dera não ter segunda-feira/‌ se não for para ser aqui”, entoa). O segundo, da tristeza sazonal, vem no momento taciturno e esquecível d’“Este Fardo” — peso morto num longa-duração de excelentes, se não transcendentes, composições. De resto, há a jóia dos brandos costumes.



A nova avenida de Sambado é uma pop que usa a tradição não como ornamento, mas para conseguir a ergonomia. Na caseira “Jóia da Rotina”, primeiro single, a melodia firma um limbo entre a êxtase e o desespero do dolce fare niente. O reco-reco, a flauta e a harmonização vocal de “Bitola” e “É Tão Bom”, esse bonito protótipo de êxito, instalam-se nos reinos duma chula reimaginada.‌ O ritmo do corridinho bafeja a bizarra mas orelhuda “Gerbera Amarela do Sul” — noutra dimensão, um genérico de programa infantil new age —, perfeitamente integrada neste elenco, torna-se anómala apenas por ser candidata ao Festival da Canção. “Mais Uma”‌ sabe a gratidão, medronho e doce da casa, cheira a uma identidade evanescente que, ao balcão do tasco, ninguém se estorva para encontrar. E que prazer que isso é.

Em 10 momentos de folclore ao domicílio, soerguem-se imagens da Beira Baixa, do Alentejo, do Minho, do chouriço assado, da lenha, do berro da avó:‌ não é tanto a precisão etnográfica que lhe vale, mas o conhecimento dos limites da alma nacional. Revezo é um retrato moderno de como a tradição continua por expirar, num país que volta e meia lamenta os valores perdidos, sem entender que a preservação também é um artifício. O Portugal que identifica no rancho um emblema da sua raiz mais arcana, esquecendo a sua origem artificial, como sistematização (salazarista) de uns resquícios folclóricos deixados ao sabor do vento. Interessa ver que novos rastos se fazem a partir das migalhas, e o de Sambado aponta mais confortavelmente para a nostalgia — aventura-se q.b., mesmo que não firme uma direcção inovadora.

Se a jornalista Jillian Mapes dizia que, para um artista pop, “tirar a maquilhagem se tornou tão importante como aplicá-la”, Filipe Sambado valoriza sobretudo a arte de renovar a sua paleta. Em 2018, a claustrofobia obrigava-o a dar jeitinho; agora, a sua escolha dá “tanto jeito”‌ por natureza. Quem está mal que se mude, e que se continue a mudar.


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